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O Padre Voador

O Padre Voador

Afonso Alves Mendonça talvez tenha sido o paradigma de todos os comerciantes de Pará de Minas, não apenas pelo longo período em que esteve estabelecido com seu comércio, mas pelo contexto em que se viu inserido. Nascido no ano 1879, desde muito novo começou a ajudar o pai no comércio. A venda sempre funcionou na esquina da Rua Direita com Rua Antonio Novato, no hipercentro da cidade, como é moda dizer neste começo de terceira década do Século XXI. Aos doze anos Afonso já era visto na venda; um casarão onde também residia a familia. A curiosidade é que as portas da venda ficavam voltadas para a rua Antonio Novato; só muitos anos depois foram abertas outras portas na Rua Direita. Com a morte de seu pai, o jovem Afonso assumiu o comando do empreendimento que exerceu até meados da década de 1950, quando resolveu se aposentar e passou o bastão ao filho caçula, Roque, que demoliu velho casarão e construiu o simpático sobrado que recentemente passou por notável reforma, já promovida pelos netos do Afonso, filhos de Roque. Na década de 1950, a agência da Caixa Econômica Federal, recém-chegada à cidade , ali funcionou, permanecendo no lugar por alguns. anos. Nesta altura, o antigo armazém, em novas e modernas instalações, ocupou uma das lojas do andar térreo do sobrado. Por esse tempo, tendo ingressado no serviço público municipal, Roque Mendonça vendeu o armazém para o empregado/caixeiro/balconista José Gentil de Almeida, que nos anos 1971/73 viria a ser o prefeito de Pará de Minas.

Mas nesta crônica a minha intenção é escrever sobre o velho Afonso Mendonça, que faleceu no ano 1961, aos 82 anos de idade. Detrás do balcão de seu comercio ele tomou conhecimento da Abolição da Escravatura, da Proclamação e consolidação da República, das rebeliões pró e contra os governos. Viu a energia elétrica chegar na cidade e assistiu à sua industrialização; assistiu à urbanização da cidade com ruas calçadas com paralelepípedos, água potável nas torneiras e esgotamento sanitário. Afonso Mendonça foi casado com Maria Luiza Mendonça que faleceu em 1927, deixando-lhe seis filhos: Djanira, que foi casada com o célebre Professor José Morais Batista (pais de Marta Morais Pimenta: educadora e atriz) ; Lídia, que se casou com o fazendeiro João Correia de Miranda; Marta, que desposou Jesus Cristo, considerando que se tornou uma freira carmelita, vivendo enclausurada até a sua morte, em convento da Ordem, na cidade de Itabira. Os meninos foram: Jesus Vale Mendonça; Luiz Gonzaga Mendonça, dentista, que nunca se casou e o caçula Roque Diniz Mendonça, que foi casado com Maria de Lourdes Oliveira, pais de Roberto, Renato, Rômulo, Ricardo e Luiza. O velho Afonso primava pela jovialidade e bom humor. Era presença obrigatória em todos os eventos sociais, cívicos e religiosos da ainda pequena Vila do Pará (a partir de de 1920, Pará de Minas) aos quais comparecia vestido com aprumo e quase sempre acompanhado pela figura do Presidente, uma agregado da família desde muitos anos passados. Certo dia, lá pela década de 1880, um jovem pediu emprego na venda e foi admitido pelo pai do Afonso. Arranjou um cômodo no casarão e lá se alojou. Com o advento da república em 1889, o jovem que era defensor da nova ordem, logo ganhou o apelido de Presidente, o que não o contrariava. Fazia de tudo o Presidente, atendia no balcão, fazia entregas, trazia mercadorias do depósito, fumegava os cereais para acabar com fungos e principalmente mantinha o ambiente bem humorado. Tinha um vasto conhecimento geral e discutia qualquer assunto. Curiosamente entrou para os anais da família como Presidente e pronto. Ninguém nunca se lembrou de perguntar o nome dele, nem de onde vinha. Tinha enorme prazer em ouvir discursar o velho Afonso, seu patrão e benfeitor. Conta-se que durante uma festa, como sempre fazia, Afonso Mendonça pediu a palavra para saudar os anfitriões, sob aplausos, postou-se de frente para os inúmeros convidados, pigarreou e quando ia dar início à sua peroração, lá atrás, com voz bem alta, Presidente comentou antes: -Ô Afonso, faz aquele discurso da página 126, é o melhor para esta ocasião. O riso foi geral e todos ficaram sabendo que Afonso Mendonça tinha um livro com discursos para todas as ocasiões: festas de casamento, aniversário, velórios, para a beira do túmulo no enterro de um amigo; inauguração de obras, na gare da estação na despedida de um amigo partindo em viagem, ou de boas vindas a alguém que chegava.

Um dos filhos de Afonso e dona Maria Luiza, o mais velho dos meninos, foi Jesus Vale Mendonça; esse “Vale” no meio do nome ninguém explica. Ele ficou órfão de mãe em 1927, com oito anos de idade; aos doze anos é encaminhado ao Seminário da Diocese em Belo Horizonte, onde permanece até ordenar-se padre em 1944, aos vinte e cinco anos. A primeira missa de Padre Jesus foi celebrada na igreja-matriz de Pará de Minas no dia 1º de novembro de 1944; no dia seguinte, quando se comemora o Dia de Finados, ele celebrou sua primeira missa campal no interior do cemitério de Santo Antonio, que se tornaria uma tradição nos sessenta anos seguintes. Padre Jesus trabalhou na paróquia de Nossa Senhora da Piedade por algum tempo; depois assumiu simultaneamente as paróquias de São José da Varginha e Igaratinga, naquela época ainda distritos de Pará de Minas. Para facilitar a sua locomoção adquiriu uma motocicleta – o povo chamava de “motor” e por alguns anos podia ser visto pelas estradas poeirentas da região pilotando a sua BSA. Até que logo no começo da década de 1950 envolveu em um acidente de trânsito em Igaratinga, quando atropelou uma criança de doze anos, que infelizmente perdeu a vida. Padre Jesus foi processado e julgado por homicídio culposo, mas foi absolvido pela justiça. O incidente fez com que ficasse infeliz em continuar exercendo o sacerdócio na região e ele começou a buscar outras alternativas. Foi quando o deputado federal Ovídio de Abreu veio passar alguns dias em Pará de Minas, surgindo a oportunidade para o velho Afonso Mendonça conversar com o seu antigo vizinho, pedindo-lhe uma ajuda para realocar o filho padre. Na época, a FAB estava admitindo padres para exercerem as funções de capelão em todo o Brasil. Logo depois de retornar ao Rio de Janeiro, Ovídio de Abreu fez uma visita ao Ministro da Aeronáutica quando apresentou a postulação do conterrâneo. Menos de um mês depois Padre Jesus foi chamado a se apresentar no Campo dos Afonsos, na época uma espécie de aeroporto exclusivo da FAB, para um período de adaptação. Aprovado, foi enviado para Belém do Pará, onde permaneceu por quase três anos.

Enquanto teve forças, Padre Jesus nunca deixou de vir à cidade para celebrar a sua ordenação em 1º de novembro e no dia seguinte rezar a missa no cemitério. Do final dos anos 1950 em diante, muitas vezes ele vinha em aviãozinho da FAB, até que conseguiu comprar em sociedade com um amigo, uma pequena aeronave. Tirou seu brevê e algumas vezes quando de sua chegada, costumava dar vôos rasantes sobre a cidade, o que assustava a população. Geralmente ele chegava dois ou três dias antes das celebrações, tornando-se figura bastante popular o que fazia as suas missas serem bastante concorridas, principalmente a “Missa de Finados”. Nesta época passou a ser conhecido entre seus conterrâneos como o Padre Voador. Na velhice, já aposentado, continuou vivendo no Rio. No final de outubro, seu sobrinho Afonso, filho de sua irmã Lídia, saia de sua casa em São Paulo para buscar o tio padre no Rio e levá-lo à sua peregrinação anual; por alguns anos a peregrinação incluía uma passagem por Aparecida do Norte, de onde seguiam para o Pará de Minas. No mesmo dia de sua chegada Padre Jesus costumava se dirigir à cidade de Papagaios, de onde trazia para fazer-lhe companhia durante a sua estadia, seu velho colega de seminário, Padre João da Cruz, que residia naquela cidade. Assim foi até os primeiros anos deste século, quando o peso da idade cortou as asas do padre voador.

Padre Jesus Vale Mendonça morreu no dia 04 de outubro de 2015 e seu corpo foi sepultado no Rio de Janeiro. Ele tinha 95 anos de idade.

Luiz David

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