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Crônicas da peste chinesa

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Se for para morrer…

SE FOR PARA MORRER…

A propósito da peste “covid 19” que a ciência afirma ser letal aos idosos como eu.

Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, onde já tenho o meu umbigo enterrado;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, minha patriazinha, escolhida pelo santo padre Libério Rodrigues Moreira como palco de seus últimos anos de vida.
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade onde a ‘guerra’ entre liberais e conservadores, ‘cascudos’ e “chimangos”, Torquato e Orsinis, UDN e PSD, Walter e José Porfírio, Inácio e Antônio Júlio não acaba nunca.
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade onde adolesci com a turma do Continental e fui jovem com a turma do Paraminense, os loucos que deram certo na vida;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, onde nas madrugadas de minha juventude ouvi muitas vezes a cafetina Bilica contar estórias de seu tempo de enfermeira da FEB;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, onde vivi emocionantes tardes de domingo vendo jogar o Paraense de Nem, Mituca, Careca, Zé Leite e Paulinho Cai Cai;
Que eu morra em Pará de Minas, cidade onde o povo parava tudo que estivesse fazendo, quando o sino da igreja- matriz repicava a “hora da benção”.
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade de dois cinemas Vitória e Imperial, que marcaram a minha vida com seus filmes atrasados no mínimo dez anos em relação ao lançamento, e para mim não tinha a menor importância;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade onde o mais famoso fabricante de colchões de capim e meu xará anunciava assim o seu produto: “Quer ter um sono feliz? Compre o colchão do Luiz”;

Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade que acolheu o bancário/farmacêutico Júlio Leitão, que além de alcovitar o segundo casamento de meu avô Juca David ainda teve tempo de fundar a primeira instituição espírita da cidade “Grupo de Fraternidade Antônio de Pádua”;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, berço de pessoas letradas e ilustres como Hila Flávia e Terezinha Pereira, Pedro Moreira e Flávio Marcus da Silva, Márcio Meireles e José Roberto Pereira, Geraldo Gabriel de Bessa que só por acaso não nasceu na terrinha e Geraldina Campos de Almeida que tanto fez que virou nome de teatro; dos palhaços Benjamim e Pururuca, das maestrinas Dalva Frágola e Juliana Grassi, musicistas que se tivessem escolhido viver em São Paulo, ou Paris, Rio ou Nova York teriam o reconhecimento do mundo; como não escolheram ficamos os paraenses com o privilégio de conviver com essas duas mulheres notáveis;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, terra natal dos artistas Cica e Xandinho Martins, de Mário Silésio e de seu sobrinho Osvaldo Milton; de Ôro Marinho e Naderje Morais;
Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, em cujo seio nasceram os imortais craques do ludopédio Hilton Marques Calé, José Newton Mendonça Tibola, João Maurício Flores e João Ribeiro, o João irmão do Zé fundador do Ladicasa, o melhor time de futsal que já se viu nesta terra;

Se for para morrer que eu morra em Pará de Minas, cidade minha muito amada que terá os meus ossos guardados juntos aos de meus pais Zé Negrito e dona Zinha, um lugarzinho bem bom, beirando o muro logo à direita de quem entra no cemitério municipal, tão maltratado pelo atual prefeito, que eu espero que na sua partida não tenha depositado lá os seus restos.
Será o castigo de quem não cuidou bem do nosso campo santo. (LUIZ VIANA DAVID)

 

Luiz David

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