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DE REPENTE, 60.

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DE REPENTE, 60
(Lúcio César de Faria)

60 anos. Menino, adolescente, rapaz em Pará de Minas, adulto em Belo Horizonte, torna-se senhor em Brasília. Senhor de si também, ainda bem!

Essa turma toda aí de cima convive muito bem dentro de mim, trocando informações e experiências e, principalmente, lembranças. Não, não é loucura; é que todos estão ainda muito presentes, de fato, em mim.

É muito curta a distância, pelo menos na memória, entre eles.

De repente o senhor de Brasília cruza com um engraxate de rua e lembra-se que, depois da aula no Grupo Escolar Torquato de Almeida, trocava de roupa rapidamente e descia com a bola em direção ao terreno baldio em frente ao campo do Paraense, passando pela Praça da estação arrebanhando para a pelada diária de fim de tarde, os meninos que dignamente ganhavam seu dinheiro engraxando sapatos, maneira de ajudar nas despesas da casa.

Daí para as peladas de sapato Vulcabras e “bola” de pedra na quadra do Colégio Estadual Fernando Otávio foi um pulo, ou melhor, pedaladas, porque era de bicicleta que ia ao ginásio.

O nariz ainda sente o cheiro agradável dos eucaliptos na subida do ginásio para o campo de terra onde ocorriam as aulas de educação física e a pelada final. E, Na descida do ginásio, os olhos visualizam a Praça de Esportes, do outro lado da avenida, onde o rapaz divertia-se no futebol de salão, nos intervalos entre livros e provas.

No caminho de volta para casa, a estação rodoviária, novinha, mostra o futuro de viagens entre a amada terrinha e a capital, Belo Horizonte, onde em 1974 iniciaram-se os estudos na faculdade e o trabalho em banco comercial.

Na capital, longa história, de início com as idas e vindas todo final de semana, para rever os pais, os amigos, bater uma bolinha, as horas dançantes no Centro Literário, as namoradinhas. Depois, a morte dos pais e a responsabilidade no trabalho e estudos fizeram com que as visitas fossem escasseando, até tornarem-se raras. Mas se as visitas ao Pará de Minas foram se minimizando, a saudade e a lembrança cresceram em proporção inversa, pois minha terra nunca saiu de mim.

No Banco Central, há tempos, do 8º andar, via, no final da tarde, a garotada jogando futebol na Praça da Assembléia, nessas ocasiões o adulto sempre era convocado pelas lembranças do menino do portão do campo do Paraense.

Agora, em Brasília. Cidade que o menino nunca imaginou viver ou trabalhar, mas que o senhor adotou. Pela realização auto-imposta de ajudar na construção de uma entidade. Assim como construiu sua vida, um dia há de se orgulhar disso também.

Não há como não se lembrar dos pais e dos irmãos, aos quais deve muito, por ser o mais novo, o caçula, a “rapa do tacho”, como odiava ser chamado na presença das visitas e hoje se arrepende de não ter tido a compreensão do orgulho dos familiares quando assim se referiam a ele.

Enfim, 60. Aos mais jovens, dois pedidos: o primeiro, dêem licença, saiam da frente, pois agora sou preferencial; o segundo, que é mais um conselho, sigam um bom caminho, construindo uma bela e longa história.
Como eu, sem falsa modéstia e com orgulho, avalio a minha.

Luiz David

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