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DIRETAMENTE DO PARAISO. DE BENEDITO VALADARES AO PREFEITO ANTÔNIO JÚLIO

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Caríssimo Prefeito Antonio Júlio,

Muitas pessoas ainda se lembram que eu nasci no dia quatro de dezembro de 1892. Oitenta e um anos, desses cento e vinte e três, eu os passei na terra, até que fiz a passagem em 1973, em pleno domingo de carnaval. Na época, um de meus adversários, crítico mordaz, disse que até para morrer eu usei de esperteza, pois durante o carnaval os jornais não circulam e as rádios e televisões estão voltadas para os eventos do Rei Momo. Foi assim mesmo, na quarta-feira de cinzas, quando terminou a catarse carnavalesca eu já estava morto e enterrado no Cemitério do Bonfim em Belo Horizonte e pouca gente percebeu. Livrei-me dos longos obituários da imprensa e de ataques dos udenistas infelizes.
Nunca deixei de celebrar a data de meu aniversário, mas sempre o fiz de maneira discreta, em casa, com a família. A Odete e minhas filhas organizavam tudo e convidavam quem elas queriam, sem que eu ficasse sabendo. Isto foi bom, pois às vezes aparecia um amigo enciumado por não ter sido lembrado, a quem eu respondia que não interferi nos convites, que era coisa das mulheres da casa; e levava o amigo até a copa anexa ao gabinete e oferecia-lhe um cálice de licor de jabuticaba do Pará de Minas, cuja garrafa ficava sempre à disposição. Então, o amigo preterido passava se sentir íntimo do governo. Essas coisas a que você já está habituado.

Hoje alguns de meus amigos mineiros vieram abraçar-me por conta da efeméride. Aqueles amigos de sempre: Dr. Juscelino com Sara, o Ovídio,o Israel, o Zé Maria, coronel Xixico. Do Pará de Minas, além do Ovídio e do Wilson, estiveram aqui o Cinato Eleutério, meu fiel servidor, que se tornou um amigo especial, zelador da Granja Santa Edwirges por mais de quarenta anos. Foi a primeira vez que o vi desde que ele fez a passagem recentemente. O professor José Pereira da Costa, por quem tenho especial estima também veio, como sempre faz. O dr. Tancredo chegou até a porta, mas quando soube que o Zé Maria estava presente, deu meia volta. Tancredo ainda não conseguiu perdoar o Alkimin pela derrota que sofreu para o governo em 1960. De fato aquela dissidência aberta pelo Zé Maria e pelo Ribeiro Pena foram fatais ao Tancredo, que perdeu por menos de cem mil votos. Com Tancredo vitorioso não teria havido o golpe de 1964 e o Brasil teria sido mais feliz com toda a certeza. Quem apareceu pela primeira vez foi o ex-prefeito José Porfirio, convidado pela Odete, que o menciona com freqüência, eternamente grata por ele ter providenciado, a pedido dela, o traslado dos meus despojos para o cemitério de Pará de Minas, que aliás foi construído pelo meu irmão Chiquinho e inaugurado pela minha querida mãe, primeira pessoa a ser enterrada naquele solo sagrado. Ás vezes sinto-me comovido com o carinho dos meus conterrâneos, que nunca se esqueceram de mim, mesmo passado tanto tempo desde que deixei o plano terrestre. O Quim do Neto, que não vinha há muitos anos,reapareceu. Gosto muito dele, é desses amigos fiéis, desinteressados do Poder e de sua liturgia, talvez tenha sido o único capaz de defender-me até a morte, se necessário fosse. De fato quase aconteceu numa oportunidade, no conturbado Pará de Minas dos anos 1920. Mas não quero falar sobre aquele tempo.

Sabe prefeito, eu e Odete somos gratíssimos a você, pelo carinho que sempre demonstrou para conosco. Infelizmente não o conheci pessoalmente. Lembro-me de seu pai o Zé do Quim, e de seu avô, o citado Quim, que foi um valoroso correligionário meu lá na Jaguaruna, até se mudar para o Pará de Minas. Mas a Odete conheceu você, por ocasião da inauguração do Museu de Pará de Minas, onde, por iniciativa sua, existe uma exposição permanente em honra a minha memória, o que me deixa muito desvanecido, embora não me sinta merecedor de tantos encômios. Confesso que fiquei surpreso quando soube que minha filha Lúcia esteve aí no Pará de Minas recentemente, para uma visita ao Museu e ao meu túmulo. Acho que ela foi cumprir um ritual de despedida. Mesmo ausente do Pará quase a vida inteira, Lúcia jamais se esquece que nasceu aí, onde viveu os seus primeiros dez anos. Agradeço-lhe meu caro prefeito Antonio Júlio, também pela magnífica exposição que você organizou na Assembléia Legislativa em 1992, quando transcorreu o meu centenário de nascimento. Acredite, aquela iniciativa sua foi capaz de criar abalos na UDN até mesmo aqui no Paraiso. O rancor udenista contra mim não arrefeceu nem depois de feita a passagem.

O Ovídio, sabendo que eu ia escrever-lhe, pediu-me que lhe enviasse lembranças e lhe agradecesse pela recepção que você, ainda no seu primeiro mandato, ofereceu a ele em Pará de Minas, alguns meses antes de ele subir. Manda dizer que está muito feliz com a exposição sobre a vida dele, que ainda está aberta no Museu. Ele elogiou bastante a diretora Ana Maria, filha do meu dileto amigo Ubirajara Campos, a quem vejo de vez em quando. Ovídio sentiu-se enternecido com o fato de a filha dele, Júlia, ter se abalado de Portugal até o Pará de Minas para prestigiar a abertura da exposição. “En passant” o Ovídio confidenciou-me que também gostaria de ver os despojos dele trasladados para o Pará de Minas. O Ovídio é mais vaidoso do que eu, acho que ele teme ser esquecido pelos conterrâneos.

Falando sobre política, prezado prefeito, posso garantir que acompanho você desde que iniciou sua carreira, em 1980. Chamou-me a atenção os elogios à minha pessoa, com você repetindo que se mirava em mim para governar nosso município. O seu velho sonho de um dia ser governador de Minas você deve continuar acalentando-o. Eu também não tinha nenhuma chance em 1933, mas por estar no lugar e na hora certos, acabei convocado pelo Dr. Getúlio, para substituir dr. Olegário, quando este faleceu repentinamente. O mais importante, que é manter-se em evidência, você já o faz com muita competência. Esse cargo de Presidente do Congresso das Municipalidades que você agora acumula com o de prefeito, lhe dá grande visibilidade para os embates de 2018. Só de uma coisa você não pode esquecer; que é manter unida e coesa a sua base política em Pará de Minas. Quem me alertou para a importância das bases, dos velhos companheiros, foi o governador Olegário Maciel, que pouco antes de morrer chamou-me ao Palácio para comunicar-me que estava incluindo meu nome na lista do Partido para concorrer ao cargo de deputado federal. O velho soba de Minas sabia que a minha densidade eleitoral era escassa e sem capilaridade, que eu era pouco conhecido fora dos limites do município do Pará; e por isto mesmo, minha votação no Pará de Minas teria de ser esmagadora. -Volte ao Pará e se transforme no candidato forte que você pode ser. Procure o vigário padre Zeca e através dele consiga o apoio até mesmo de seus adversários, foi que disse a mim o governador. E foi o que eu fiz. Com o Padre Zeca elevado a presidente de honra de nosso partido, consegui o apoio de meu tradicional adversário coronel Torquato e da família Mello Franco, que demorou a digerir o fato de eu ter, três anos antes, destituído da prefeitura um de seus filhos diletos, o Tenente Júlio.

Pode ser que meus adversários locais tenham apoiado minha candidatura a deputado federal, com a intenção disfarçada de se livrarem de minha presença no Pará de Minas. mais ou menos como aconteceu com você em 1990, quando vocês disputou pela primeira vez uma cadeira na Assembléia Legislativa. Naquela época seus adversários queriam se livrar de você a todo custo, pois a sua recondução à prefeitura em 1992 estava mais do que garantida, graças àquela administração revolucionária que você fez. Mas o homem põe e Deus dispõe e vieram aquelas mortes repentinas de dois de seus principais adversários, o José Porfírio aqui presente e o udenista Alano Melgaço, que parecia não simpatizar comigo, o que sempre relevei por ser ele genro do Tõezinho Marinho, um grande amigo. Com as cartas embaralhadas, quando faltavam menos de trinta dias para a eleição, a confusão acabou favorecendo aquele menino filho do Jacinto Mendonça, Silésio é o nome dele, não é? Até que foi um bom prefeito, se comparado com os vieram logo depois dele

Se você permite, meu caro prefeito, vou dar-lhe um conselho: é chegado O momento de você ajuntar o que está esparramado, de recompor o antigo círculo de correligionários fiéis, do qual você tem se descuidado ultimamente, conforme fui informado.É muito importante agregar a nova geração, eu fiz isto, quando assumi o governo de Minas. Mas sem abandonar os velhos companheiros de que falou o Dr. Olegário. Não acredite em muitas coisas que colocam como se eu tivesse feito ou falado. Por exemplo, eu jamais tentei cooptar adversários, por supor que estava garantido na retaguarda pelos meus próprios partidários. Pelo contrário, busquei sempre o apoio dos companheiros, que sabiam ser verdadeira a recíproca. Pela minha fidelidade jamais me faltaram. Fiz algumas alianças, sim; mas eventuais, de curta duração. E nunca dei aos aliados de ocasião mais do que eles realmente mereciam. Já a frase “Aos amigos tudo, aos adversários, a Lei” também não é de minha autoria, mas eu gosto muito dela.
Adversário, meu estimado prefeito, é para sempre. E sempre respeitei aqueles que se declararam contrários a mim, de peito aberto, sem sofismas. Muitos deles, fora da política, se tornaram amigos diletos. O adversário perigoso é aquele dissimulado, que participa de sua ceia, visita a sua casa, tem cargo no seu governo, mas no íntimo acredita que poderia fazer melhor do que você. Este é o Judas à sua espreita.
Eu acho que a parte em que você mais se parece comigo é justamente esta, acreditar demais em pessoas falsas. Lembro-me do Luz, que eu lancei na política quando ele era bem jovem. Ele esteve comigo aí no Pará durante minha primeira visita como governador. O Luz foi quase tudo na política, chegou até à presidência da república. Por apenas um dia, mas chegou. Tentou impedir a posse do Juscelino, só não conseguindo por que o general Lott o derrubou antes. Logo o Luz, pessedista histórico, agindo em conluio com a UDN. Cuidado com os “luzes” que te rodeiam.

Desculpe-me pelo entusiasmo que levou-me a produzir missiva de fato laudatória, O que nunca foi de meu feitio.
Odete e eu enviamos saudações à sua esposa, D. Vânia e às suas filhas, aos genros e netas.
Renovamos através de você, o nosso carinho pelo bom povo paraense, ou pará-minense, como vocês preferem dizer agora.

Fiquem com Deus, pois nós, já estamos com Ele.

Do admirador

Benedito Valladares Ribeiro.

Ex-vereador e ex-prefeito de Pará de Minas

Luiz David

2 Comments

  1. Gosto muito dos seus textos. Além de nos contar a história do Pará, sutilmente manda sábios recados a muitos amigos

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