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É DE MENINO QUE SE TORCE O PEPINO

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É DE MENINO QUE SE TORCE O PEPINO

Eu sou do tempo em que os meninos, mal completavam doze anos de idade, começavam a trabalhar. As meninas esperavam um pouco mais, os catorze anos, mas até lá, ficavam em casa, aprendendo com a mãe a lida doméstica: lavar, cozinhar, bordar, cozer, essas coisas. Comigo e com todos os meus amigos foi assim. Aos doze eu já trabalhava na Mobiliadora Popular, do Joaquim Vieira, que segue vivo e forte do alto de seus 93 anos. Meu amigo Ciquinha (Iraci) por exemplo, trabalhava na tinturaria do pai também Iraci; Olegarinho no armazém do sô Olegário; Gelu, aprendiz na fábrica de tecidos onde se aposentou; Aprigío Guimarães só um tiquinho mais velho também na fábrica, assim como Ré Nogueira; Antonio Júlio, Geraldo Gás, Joaquim, David e todos os irmãos mais novos na pequenina loja “A Eletrogás”, entregando bujões nas casas, pedalando pesadas bicicletas; os irmãos Amarante: Fabio, Laércio, Kleber, lidando com bois como o pai e os tios; Paulinho Fonseca, Tininho e Geraldo Guimba se tornaram mecânicos igualzinho o pai; Tulinho foi trabalhar no bar do pai dele Getúlio Lara; Ary Coutinho Júnior idem, assim como o irmão mais velho Antonio Augusto. Ildênio (Niniu) seguiu os passos do irmão mais velho Zé Preto Molas e foi trabalhar num posto de troca de molas. Vou citar apenas esses, mas nenhum menino daqueles tempos encontrou facilidades. Quer estudar? Que bom! Faça-o à noite. E a maioria foi para a Escola de Comércio ou para o Colégio Fernando Otávio. As meninas iam para as fábricas de tecidos, para as lojas e muitas para as residências de famílias mais abonadas. E estudaram também, no curso de magistério da saudosa professora Avany Vilhena. A Cerâmica Raquel empregava dezenas de rapazotes em seu primeiro emprego. Um desses meninos, tem orgulho de contar sobre o tempo em que trabalhou na poderosa indústria: falo do ex-prefeito Tilili, único filho homem de sô Jaci e dona Luci. Primogênito, começou a trabalhar cedo para ajudar o pai a criar a família que ainda tinha quatro meninas. O deputado Inácio Franco não nasceu rico, talvez remediado. Ralou muito com o pai Pinho Melo Franco, na lida de gado; e rapazote tocou um açougue na Rua Melo Guimarães.

E por que estou escrevendo isto? Para dizer que não tenho simpatia nenhuma pelo “Estatuto da Criança e do Adolescente” que proíbe o trabalho na faixa etária dos doze aos dezesseis anos. “Visto assim do alto, mais parece o céu no chão”, como diz a letra daquele samba antológico que homenageia a Favela da Mangueira. O tal estatuto é uma beleza, um céu na terra, uma lei digna de qualquer país de primeiro mundo, mas no Brasil parece ter vingado mesmo só a parte que proíbe adolescentes dos doze aos dezesseis de trabalharem. Eu tenho a impressão de que boa parte dos problemas sociais que surgiram no Brasil nas últimas décadas se deve ao Estatuto. Alguém já ouviu aquele ditado “cabeça vazia é oficina do diabo”? Pois então.

Sou radicalmente contra o trabalho escravo infantil ou qualquer outro tipo de trabalho forçado. Mas nessa fase (dos 12 aos 16) que os psicólogos dizem ser bastante perigosa, eu acredito que meninos e meninas não podem ficar com tempo ocioso. Quando isto acontece o resultado é esse que predomina no país inteiro: nossos jovens aliciados para exercerem tarefas ilícitas, a mais comum ligada ao tráfico de drogas. Vinte e cinco anos depois já é mais do que tempo de nossos políticos reverem o Estatuto da Criança e do Adolescente, adequando-o à realidade brasileira, que como o nome diz, é brasileira e não sueca, norueguesa, ou alemã e muito menos estadunidense.

De quebra, também acredito que está passando da hora de dar uma enxugada na Constituição Federal, que o grande “Pai da Pátria” Ulisses Guimarães chamou de “Constituição Cidadã”, que ano que vem completará trinta anos. É uma Carta que estabeleceu dezenas de direitos que o povo não tinha até então, mas a contra-partida no quesito “deveres” quase não é respeitada, nesse país que mais parece a terra do “venha a nós”, onde quase todos querem levar vantagem em tudo.

Quem sabe um anjo não desce do céu e encaminha as coisas para que ano que vem possamos eleger uma Assembléia Nacional Revisora, que passe a limpo a nossa Carta Maior? Sonhar por enquanto não paga imposto, apesar de o presidente da república apanhado com a boca na botija de um rico empresário, só pensar em aumentar as alíquotas.

Luiz David

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