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EU VEJO GENTE MORTA

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EU VEJO GENTE MORTA

É verdade. Desde dezembro do ano passado, quando associei-me a uma plataforma de streaming, que tenho visto quase todos os dias legiões de pessoas que já morreram. Na tarde deste domingo por exemplo vi um monte de pessoas que já se foram. Todas artistas da mais nobre linhagem, ganhadores de prêmios e de dinheiro (em dólar). Revi o filme “Assim Caminha a Humanidade” (Giant em inglês), dirigido pelo diretor George Stevens, que nunca vi, pois ao contrário do seu colega Alfred Hitchcock, que apareceu na maioria dos filmes que dirigiu, Stevens preferia o anonimato. Revi Elizabeth Taylor, Rock Hudson, Sal Míneo, Mercedes McCambridge, que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante. A não ser os bebês que proliferam no enredo a partir da segunda metade do filme, acredito que todos os demais: protagonistas, coadjuvantes, figurantes e animais, já fizeram a passagem.

Vi o filme a primeira vez em 1960, no Imperial Cine (cinema do Tadinho)quando já não era novidade, pois foi lançado em 1956, mas o apelo do elenco com ‘alguns queridinhos da América’ seguia sendo o melhor chamariz de espectadores. O filme tem duzentos minutos de projeção, vinte minutos a mais do que três horas; por isso o cinema não podia dar mais de uma sessão por noite. Eu tinha 13 anos de idade e na época a minha preferência era por filmes faroeste, estrelados por Randolph Scott, Broderick Crawford, Tim Holt, Hopalong Cassidy, Audie Murphy e outros menos lembrados. O Imperial Cine era mais seletivo na escolha das fitas que exibia; já o Cine Vitória era um cinema mais popular, tinha a cara do concessionário Tião Padeiro, ops, Tião do Cinema, que exibia muitos filmes mexicanos, italianos, franceses e os já citados faroestes. Filmes com Cantinflas, Pedro Armendariz, MIguel Aceves Mejia, Maria Antonieta Pons. Ah! E os filmes brasileiros da Atlântida com Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Ankito, as moças do teatro rebolado (Virginia Lane e suas colegas ). A maioria desses filmes nacionais tinham pela menos uma apresentação de cantora ou cantor famoso. Na maioria das vezes as pessoas iam ver esses filme apenas pela oportunidade ver e ouvir aqueles ídolos que ouviam no rádio. Como nenhum cantor(a) apresentava dois números, tão logo acabava a cantoria, pelo menos trinta por cento das cadeiras esvaziavam.

Assim, a fila quase dobrava a esquina da Casa Faria (Rua Direita com Coronel João Alves), para comprar ingressos para ver como “caminhava a humanidade”; eu que não era bobo nem nada estava lá antes das sete da noite. Ingresso comprado e sabendo antecipadamente das mais de três horas de projeção, logo depois de comprar o bilhete, fui até a lanchonete do Marinho Futrica, ao lado, e dei uma forrada no estômago com um copo de vitamina e pastel. Aberto o acesso ao público, entrei logo e por sorte consegui uma poltrona, na fileira da frente onde já estava aboletada aquela senhora que o memorialista Orlando Moreira chamou em seu livro de “Vovó Piquenique”. Era a matriarca da família Mendes (Casa Mendes) que só por motivo de doença deixava de comparecer às sessões dos cinemas: um noite no Vitória outra no Imperial. Vovó piquenique andava com uma grande bolsa a tiracolo e levava para se distrair durante as sessões, uma grande quantidade de salgadinhos e doces, de todos os tipos, mas de ótima qualidade; e fazia questão de agraciar as pessoas sentadas no seu entorno com as guloseimas e quitandas que tirava de sua bolsa, que mais parecia um saco sem fundo. De vez em quando a veneranda vovó cutucava meu ombro e me oferecia um doce cristalizado, ou biscoito de polvilho, ou balas. O filme era longo e pela sua metade eu já estava empanturrado e passei a colocar nos bolsos boa parte das oferendas, pois a gentil senhora não admitia uma recusa.

Achei o filme muito bonito e Lyz Taylor era mesmo aquilo tudo que as revistas já diziam dela; lindíssima com aqueles olhos que parecidos embora em outros tons, só os de Hilda Furacão, isto é, da atriz brasileira Ana Paula Arósio. Depois fiquei décadas atrás de uma cópia do filme, que só consegui nos anos 1990, quando as fitas de vídeo se tornaram populares. Comprei uma, pirata diga-se de passagem, que só rodava uns quarenta minutos, o que despertou ainda mais a minha curiosidade; pois uma coisa é um filme desse porte visto por moleque, e outra coisa é o mesmo filme aos olhos de um sujeito com mais de quarenta anos, com um gosto mais apurado para sétima arte. Assim, 61 anos depois, nesta tarde tive o prazer de rever esse filme fantástico, estrelado por todos aqueles mortos ilustres. O filme narra a saga da ‘familia Benedict’, cujo chefe agora é o solteirão interpretado por Rock Hudson. Aliás vou colar aqui a sinopse do filme que extraí do site “Adoro Cinema”:

SINOPSE

“Em 1923, Bick Benedict (Rock Hudson), um rancheiro texano, vai a Maryland para comprar um cavalo premiado e se apaixona por Leslie (Elizabeth Taylor), a filha do proprietário da fazenda. Eles se casam imediatamente e ela retorna com o marido para o Rancho Reata, Texas, onde Leslie vê apenas uma mansão no deserto no meio de 600 mil acres. Bick apresenta Leslie à sua irmã, Luz Benedict (Mercedes McCambridge), uma mulher rude e solteirona que não vê com simpatia a chegada da cunhada. Jett Rink (James Dean), um peão, leva Leslie para conhecer o rancho e ela fica chocada com a pobreza das famílias mexicanas e a precariedade dos alojamentos, pois assim vivem os que trabalham para Bick, que só usa o dinheiro para investir na pecuária. Leslie ajuda a cuidar de um recém-nascido de um empregado e decide se dedicar à melhoria das condições de vida dos pobres. O tempo passa e Bick e Leslie têm um belo casal de filhos, mas a vida do casal entra em total marasmo e, após uma discussão, Leslie vai com os filhos para Maryland. Sentindo saudades, Bick vai ao encontro da família e exatamente na sua ausência Luz cai do cavalo, leva um coice e morre. Ao retornar a Reata, Bick se surpreende ao saber que no testamento Luz deixara sua parte nas terras para o rebelde e beberrão Jett. Bick propõe comprar de volta a parte dela mas Jett recusa, pois acredita que aquela terra o deixará rico. Um dia Leslie para na porta do rancho de Jett e este, amistosamente, a convida para entrar. Quando ela está indo embora pisa em um barro escuro e na hora Jett percebe a lama oleosa nos sapatos dela. Ele consegue dinheiro emprestado e começa a perfurar o solo, até que um dia jorra petróleo no local. Ao ver o que acontece ele toma um banho de petróleo e, com seu carro velho e amassado, vai até Reata para mostrar ao seu antigo patrão que agora ele também seria rico. Jett avisa que o petróleo irá acabar com a pecuária. Os anos passam e ele agora é um magnata do petróleo, dono da Jettexas Company, mas apesar de milionário ainda continua alcoólatra e a rivalidade entre Bick e Jett ainda existe”.

Em 2021 acredito que o filme deveria ser visto pelos pecuaristas: o cenário da “Fazenda Benedict” no Texas é maravilhoso e o rebanho tem apenas seiscentas mil cabeças de gado P.O. Aliás as locações são todas lindas. O elenco é nota 10, menos para o mito James Dean, que merece uma nota 20, digamos assim. Aliás, o promissor ator morreu em acidente automobilístico, pouco depois de encerradas as filmagens.

Valeu a pena rever “Assim Caminha a Humanidade”, numa tarde boba de domingo, silenciosa e quase fria. Em determinado momento quis comer alguma coisa, mas lembrei-me de Vovó Piquenique e selei a boca até que aparecessem os créditos.

Assim Caminha a Humanidade (“Giant”, 1956) - Eu & a Telona

Luiz David

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