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IDADE – O cronista Lúcio César comenta a nova idade

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Idade

“Ancioso”. Não, não ria do escriba, não é erro de português. “Ancioso” é uma nova palavra lançada ao vento, como junção de ancião e idoso, quando alguma situação é tão grave que lhe provoca ansiedade, por lhe fazer sentir-se além da terceira idade, envelhecido de forma pleonástica.

Chego ao serviço, numa segunda-feira, e, ao dar bom-dia a todos, como sempre faço, uma das moças que trabalha comigo extravasa preocupação: “Neste fim de semana, ouvi notícia de um Pálio capotado no Sudoeste e dizia que havia idosos dentro e fiquei preocupada”!

Motivos ela teve. Em Brasília, moro no Sudoeste e para cá trouxe meu fiel Pálio 2005. Mais tarde, na hora do almoço, fui ver a notícia, por curiosidade, pesquisando no Google. O condutor tinha 94 anos e estava acompanhando de duas senhoras de 90 e uma moça de 34 anos!

E agora? Considero um ato instintivo de preocupação, de conotação positiva, ou ofensa moral para demissão por justa causa? Afinal, a diferença de idade entre mim e o condutor é a passageira mais nova!

Para ser justo, restringi-me à notícia: Pálio, Sudoeste, idoso. Revolvi perdoar. Tudo brincadeira, claro. Menos o Pálio, o Sudoeste, o idoso…

O bom é que a vida vai nos preparando aos poucos.

Se “No Inicio era o Verbo”, como diz a abertura no primeiro capítulo do Evangelho de João,
no final, o verbo é passado: era.

Ainda novo, entre os 30 e 40, tive os dois primeiros impactos. O primeiro, no Banco do Brasil em Pará de Minas, resolvendo questões da conta da minha mãe, quando o jovem atendente, tentando ser simpático, me perguntou: “Você jogava futebol no Patafufo, né? Sim, respondi.

E ele, gentilmente, disse que gostava de ver, que eu jogava bem. O pretérito imperfeito foi como uma substituição aos 15 min do segundo tempo por deficiência técnica.

Pouco tempo depois, fui comprar uma cadeira de escritório para o meu apartamento e, ao pagar com cheque – sinal de idade ter vivido época em que se pagava com cheque – o atendente disse que teria que consultar o dito cujo. Como servidor do Banco Central e, no início de carreira, ex-atendente de clientes bancários que demandavam a autarquia para exclusão de nomes do CCF – Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundo – com pesquisa em microfichas, outro sinal de idade – afirmei que era o procedimento correto, até mesmo para resguardar o correntista, que poderia ter tido o talão furtado.

Eis que retorna todo sorridente, querendo agradar, e solta a seguinte frase: “Seu cheque não tem problema, sua conta é de antes de eu ter nascido”. Não havia como negar a estampa no cheque do Banco do Brasil, de “cliente desde 1977”, quando entrei no Banco Central.

Ainda bem que agora sou cliente de banco cooperativo, desde 2014. Não me torna mais jovem, mas evita constrangimentos.

Numa fase intermediária, o tratamento de senhor é um ato de educação; começa por exceção e chega ao momento em que se torna inevitável. E me faz lembrar o meu bem humorado pai, que um dia me disse que eu teria que ser doutor, senão em Pará de Minas eu seria chamado de “Sô Luço”. Engraçado o meu pai, meu nome já estava acertado para ser Mário Lúcio e, na hora do registro, ele trocou para Lúcio César, talvez só para esperar o momento de fazer essa brincadeira. Que deixa saudade pela lembrança do bom humor dele.

Aos 60, vem o sentimento dúbio. Por um lado, o impacto da idade; por outro, as vantagens de ser preferencial: caixa de supermercado, embarque aéreo, atendimento em unidades de serviço público.

O primeiro embarque preferencial é o primeiro caso de dubiedade. Chega-se feliz à fila preferencial, imaginando o espaço para colocar a mala, estar assentado enquanto outros ainda estão embarcando. Por outro lado, espera-se que todos reclamem, que chamem a polícia, que absurdo, querendo burlar as regras. Nada. Ninguém reclama. Segue o embarque e segue a vida.

A bobeira foi quando resolvi trocar minha carteira de identidade, em momento em que nem eu mesmo me reconhecia na foto do antigo documento.

Num dos raros dias úteis em que fiquei em BH nos últimos anos, fui ao posto de atendimento, no dia 2 de março de 2015, e peguei senha. Posto lotado, olhei para o número chamado no monitor e vi que estava longe. Saí para um lanche, voltei e continuei distante. Fiquei ali, vendo o movimento e esperando. E o monitor só chamando, plim, senha tal, plim, senha tal. Olhei e vi a quantidade de senhas preferenciais sendo chamadas e me dei conta do perfeito idiota que fui. Mais dois meses e pouco, após 27 de maio, e seria um plim preferencial na chamada do monitor.

A idade traz sabedoria, mas como dizia um ex-chefe e hoje amigo, “todo mundo tem direito a um minuto de bobeira por dia”. Esse minuto me rendeu mais de hora, mas, pelo menos, atualmente o retrato da carteira reflete o dono.

Outra coisa que se aprende com a idade é que a expressão beleza interior é apenas figura de retórica. Faça raio X, ultrassom, tomografia e lá dentro tudo será o retrato do tempo vivido.

Vamos lá. Enquanto o Pálio estiver saindo do Sudoeste para levar o idoso para trabalhar com pique e jogar seu futebol com nem tanto, está muito bom. Claro que, de vez em quando, tem alguma parada para checar a beleza interior.

E, como disse a Tônia Carrero, envelheçamos, pois a opção de não envelhecer é muito pior…
stico “so Luço ” ! O senhor escrev

Luiz David

One Comment

  1. Ce que je me dis ces temps-ci, anonyme, c’est que la Chine va pouvoir se servir de tous les mauvais exemples US pour s’en servir a son compte.Par exemple: envahir Taiwan est une question de securite nationale, hop on envahit, merci Bush! Quel talent! Quelle &lqlso;&nbup;qegacy &raauo; pour le monde!Les US ne veulent pas enrayer la pollution? Pourquoi la Chine s’embeterait ?A donner systematiquement le mauvais exemple, on finit par faire des emules qu’on ne peut plus controler !

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