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Manifesto sobre o Paraense E. C.

Manifesto sobre o Paraense E.C.

Na noite de quarta-feira, 15 de maio, a diretoria do Paraense Esporte Clube, que tem na presidência o senhor Marcone Valadares, inaugurou as grandes melhorias realizadas no tradicionalíssimo estádio “Ovídio de Abreu” que, ouso dizer, está mesmo uma maravilha. Nova iluminação, vestiários revitalizados, gramado em ótima condições, o estádio está em situação impecável, como só se viu nos tempos do saudoso e emblemático diretor Bruno Marinho. O presidente Marcone Valadares  está de parabéns por ter conduzido o processo da revitalização com grande discernimento. Ele chegou ao Paraense pelas mãos de amigos e admiradores de sua gestão no clube AABB de Pará de Minas, que desde a chegada de Marcone passou e ainda passa por uma fase de extraordinário crescimento, que transformou o espaço de lazer, esporte e convivência no maior clube da cidade, com um quadro de associados que ultrapassa duas mil pessoas, e mais de seis mil frequentadores, que no espaço encontram atividades seis dias da semana, de seis da manhã até meia noite. São várias quadras, campos de futebol, ginásios cobertos, piscinas, saunas, salão de festas, bares, bosque, academia de ginástica e de danças. Não frequento a AABB mas ouço quem frequenta dizer que se trata de um clube completo.  O quadro de associados é bem eclético e boa parte dele migrou do tradicional Patafufo Country Clube para a renovada AABB.

No Paraense a missão de Marcone Valadares seria, como foi de fato, gerir o dinheiro arrecadado com a venda daquela faixa de terreno que vai da antiga portaria até a quadra poliesportiva, hoje com grama sintética, vestiários independentes, iluminação excelente. A quadra foi terceirizada a uma pessoa entendida do setor, o Carlinhos, que também explora o antigo bar “Tapetão”. Neste caso da quadra, o concessionário bancou às suas próprias expensas toda a revitalização do espaço, em troca da concessão por dez anos. Foi um bom negócio para as partes envolvidas.  O terreno vendido valeu ao PEC aproximadamente seiscentos mil reais gastos criteriosamente na revitalização do estádio, cada centavo foi gasto onde devia. O presidente Marcone cuidou até mesmo dos vizinhos: os produtores rurais que movimentam a feira de produtos horte-frute-granjeiros nas madrugadas e manhãs das sexta-feiras. Há anos que eles  reivindicavam da prefeitura a iluminação daquele trecho da avenida Matias Lobato, às margens do ribeirão Paciência. Marcone fez mais,  além de iluminar a feira, mandou construir banheiros para atender os feirantes e a distinta freguesia. Agora Marcone está anunciando a sua saída do Paraense quando vencer seu mandato, pretende seguir apenas à frente da AABB onde segundo ele ainda há muito por fazer. Se confirmar mesmo sua saída, sai pela porta frente, consagrado como um grande gestor, que fez até além daquilo que dele se esperava.

Com o estádio revitalizado, sem dívidas, o mais antigo e tradicional clube de futebol de Pará de Minas está pronto para dar um salto nas suas atividades. Há mais de dez anos que uma equipe formada por craques da cidade, o time amador principal, não entra em campo para uma exibição, mesmo de caráter amistoso. É fato que existe a escolinha de futebol, que na prática forma jogadores para outros clubes, justamente pelo fato do clube não manter equipes de adultos. A verdade é que o Paraense perdeu a sua alma patafufense, de diretores ligados ao clube até mesmo emocionalmente, por ouvirem os pais ou avós contarem as proezas do velho Paraense de mutas glórias. A torcida do Paraense sumiu; aderiu a outros clubes ou está retraída em casa, pois o time não joga. Uma geração de novos torcedores já está perdida. Por mais bem intencionados que tenham sido as últimas diretorias, quase todas eram formadas por pessoas que desconhecem ainda a tradição e a força do clube. É preciso trazer os paraenses de volta para o Paraense. Não falo, e até discordo, da profissionalização do clube, é difícilimo manter um time profissional em cidades do porte de Pará de Minas, os exemplos estão aí: Guarani de Divinópolis, que virou um time ioiô pois sobe de divisão num ano e desce no ano seguinte; onde anda o Democrata de Sete Lagoas, o Sport Itaúna, o Ferroviário, o Formiga e o Vila, Ateneu e Comercial de Campo Belo? Cidades como Uberaba, Uberlândia, Araguari, Araxá, todas mais ricas do que o Pará de Minas não conseguem segurar seus times profissionais, até mesmo por que a estrutura organizacional da Federação trabalha contra esses clubes: Minas não pode ter mais do que doze clube na divisão principal e na segunda divisão um time de Teófilo Otoni sai para jogar em Uberaba no domingo e na quarta-feira seguinte tem compromisso na tabela em Unaí, por exemplo. Viajando de ônibus. Assim, não há tatu que resista.

Mas uma nova diretoria do Paraense pode formar um excelente divisão de categorias de base, não apenas uma escolinha de futebol -deixo claro que tenho ojeriza por escolinhas, pois entendo que o jogador nasce com o dom, é um diamante que precisa ser lapidado, menino que passa o tempo driblando cones, chutando bolas em paredões de madeira, está condenado a despontar para o anonimato. Tenho muitos amigos que trabalham com escolinhas e eles ficam emputecidos quando eu falo ou escrevo esta minha opinião. Um clube de futebol dever ter um time infantil, um outro infanto-juvenil; o juvenil e o time de juniores que na atualidade é chamado de sub-20, por razões óbvias. Com estas categorias e disputando campeonatos oficias, o Paraense voltaria a fazer bonito e retomaria a sua grandeza dentro de campo. Eu defendo também um forte time amador, que traga de fora apenas reforços pontuais, assim, privilegiando os jogadores da cidade. Eu disse jogadores, futebol é um jogo, atleta é para esportes atléticos. Um time nos moldes do CAP de Pompeu, que resiste a tentação e não se torna profissional nunca. Acho até que o estatuto do clube proibe. E o CAP já ganhou tudo o que disputou até hoje e vai continuar ganhando, é mesmo o “terror” (no bom sentido) do futebol do centro oeste de Minas Gerais. Num raio de trezentos quilômetros não há adversário que possa com o Atlético de Pompeu. Quem sabe o Paraense não se fortalece o suficiente para tomar a hegemonia dos pompeanos. Já foi assim um dia e pode voltar a sê-lo.

É preciso trazer de volta ao clube os paraenses de nascimento ou de coração. Os baluartes antigos já morreram ou se aposentaram, mas têm descendentes: filhos, netos, sobrinhos, pessoas que precisam ser motivadas, lembradas que o Paraense E. C. está vivo. Em 2011, quando o clube sofreu um ataque de especuladores imobiliários, que queriam levar na mão grande o estádio, com um golpe chamado na época de “CT do Porto”, a minha foi a voz solitária a clamar naquele deserto de cegos. Foi por pouco, mas o bom senso prevaleceu, Naquela época, eu cheguei a anunciar a morte do Paraense e convidar a torcida para uma missa de sétimo dia. Hoje eu anuncio que o Paraense está vivo, apenas passou por um longo período de hibernação, mas foi trazido de volta ao sol pelas mãos competentes do bancário aposentado Marconi Valadares e alguns poucos colaboradores que vestiram a mesma camisa. Outros apenas querem tirar proveito do momento, chegando a cometer a maldade de lançar intempestivamente o nome do laureado dirigente como candidato a prefeito da cidade. É um bom nome, mas política é outra coisa. E sempre que se mistura politica com esporte, o esporte perde. Marcone sabe do que estou falando, as pessoas não prestam atenção no sobrenome dele. é o mesmo dos políticos mais célebres do Pará, de Pitangui, de todo o centro-oeste. Um irmão de Marcone é o prefeito reeleito de Pitangui, onde faz excelente gestão. Marcone se declara apolítico, mas se decidir-se por entrar no ramo algum dia, espero que saiba escolher com que vai trilhar o caminho perigoso. Por acaso eu militei cinquenta anos nas duas áreas: esporte e política.  Conheço pelo andado quem é do bem. Marcone é do bem

Provavelmente haverá eleições no Paraense proximamente, então que se abra o quadro de associados e que o clube faça uma campanha para trazer de volta aqueles que nunca deveriam ter sido afastados, ou que já deveriam ter chegado, mas que nem sabem a quem procurar. Vou dizer alguns nomes de paraenses ilustres, que jamais recusariam um convite para se associarem ao clube: a rapaziada da família Melgaço, sobrinhos e descendentes de Alano Melgaço e seus irmãos; os netos do inesquecível Hugo Marinho; os filhos de Roque Mendonça; filhos e netos de sô Gilica Santos; os meninos do ex-presidente Geraldo Cecílio; o empresário Dênio Altivo, os meninos do Geraldinho Batista (açougueiro); o médico Dr.Milton Célio – Fuca- e seus irmãos;   Eduardo Grassi, filho e sobrinho de ex-presidentes; os netos de Patesco, o maior ponta-direita do clube em todos os tempos, pelo menos dois deles jogaram no Paraense; Nelsinho da Pavepe, que nunca jogou bola, mas o irmão dele Humberto brilhou com a camisa nove do time; José Mauricio e o irmão dele Niltinho. Outro dia conversando com Dulio Rezende (Siderúrgica Alterosa) ele me disse sentir saudades dos tempos em que treinou e jogou no time infantil do Paraense, e dos jogos que assistiu, levado pelo pai, naquelas inesquecíveis tardes de domingo dos anos 1960/70. Os meninos do Felipe Turco e dona Helena, o engenheiro Cabeto à frente, praticamente criados no estádio. Laércio Menezes da Urmigel. Os meninos da Fundição Batista, cujo tio Ademar, foi um grande presidente nos anos 1980, até mesmo levou o time de volta à divisão de profissionais. Os meninos da Safol, cuja história familiar se mistura com a do clube. Às vezes eu chego a pensar que o Paraense passa por esses aperreios todos, por que muitas vezes a mediocridade assume o comando.

A próxima diretoria do clube, seja quem for que dela fizer parte, precisará antes de mais nada, dar um mergulho na história do Paraense e descobrir a grandeza deste clube e da sua importância esportivo/social para a cidade. Identificar as grandes famílias que fundaram e solidificaram este clube e trazer seus sucessores de volta ao estádio. São centenas de pessoas que se procuradas não deixarão o velho Paraense na mão. Mas para isto a diretoria deverá agir com extrema lisura e transparência  absolutas, a exemplo deste grande presidente Marcone Valadares e outros de épocas mais remotas. “Igrejinhas” que em futebolês quer dizer grupinhos de pessoas que puxam para baixo qualquer projeto, não podem existir mais no clube.

Agora um alerta: ou o Paraense muda o jeito como foi dirigido por muto tempo, ou a próxima crise será fatal. Sempre aparece alguém para salvar o clube quando ele está agonizando, mas uma hora este salvador poe não aparecer. Um dirigente como Marcone Valadares só cai do céu uma vez. (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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