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MATRACAS

MATRACAS

No meu imaginário a matraca está para a Semana Santa assim como o reco-reco está para o carnaval.  Chega a quaresma e eu lembro da matraca. Quando eu era criança costumávamos chamar de matracas as pessoas que falavam muito sobre qualquer coisa, passando de um assunto ao outro sem dar folga a quem estivesse por perto de curtir alguns minutos de silêncio. Não me lembro de ter ouvido o som de uma matraca em outra época do ano que não a Semana Santa. Como não vou a uma procissão há décadas, não posso afirmar com a convicção de um Juiz da Lavajato que elas ainda sejam utilizadas na procissão do Enterro, ou na madrugada do domingo de Aleluia, anunciando a ressurreição de Jesus. Na procissão geralmente eram batidas por meninos aspirantes a coroinha, que saiam por entre as fileiras de fiéis que se formavam  atrás do andor com a imagem do Senhor Morto. Nas madrugadas da Aleluia eram os rapazes da JOC (Juventude Operária Católica) que saiam  batendo pernas e matracas pelas ruas da cidade, anunciando a ressurreição e chamando o povo para a procissão logo cedo.

Era outro o sentido da Semana Santa nos meus tempos de menino e adolescente. E o que vou dizer acho que vai escandalizar os cristãos à moda antiga, mas tenho comigo a impressão de que as coisas começaram a mudar logo após o Concilio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII (1958/1963, antes, cardeal Ângelo Giuseppe Roncalli). A abolição do uso do latim nas cerimônias religiosas foi uma delas. O significado da expressão “Dominus Vobiscum” por exemplo, eu, um jovem iletrado, só vim saber  muitos anos depois, quando comprei um dicionário de expressões latinas traduzidas para o idioma português. A frase repetida pelo celebrante  há quase dois mil anos logo no começo das missas apenas quer dizer “o Senhor esteja convosco”, ao que os fiéis respondiam: -e contigo também, só que em latim e o equivalente no idioma de Cícero eu não me lembro, nem sei onde está o dicionário. Devia estar na estante, só que não. Sou fascinado pelo idioma latino, que foi abolido do ensino regular logo quando eu consegui chegar ao curso ginasial. Há alguns anos um professor da matéria chegou a abrir  um curso da língua em Igaratinga, mas quando fiquei sabendo as vagas tinham sido preenchidas. Mas a intenção de aprender segue encabeçando a minha lista de coisas a fazer antes de morrer.

Voltando às matracas, quaresmas e Semanas Santas dos meus primeiros vinte anos de vida, o espírito da coisa era mais sério. Os adultos observavam rigorosamente as prescrições  do período de quarenta dias: reflexões coletivas, jejum de carne, pregação na paróquia, comunhão aos domingos.  Quando adolescente costumava observar amigos e conhecidos que se abstinham  de beber cerveja, cachaça, etc. e de comer carne na forma de tira-gosto. Suspendiam também por quarenta dias o vicio de fumar. Mais um pouco e perigavam virar santos: chegavam no horário na casa das namoradas; iam ao footing onde se distraiam até as dez noite; evitavam idas ao cinema pois o escurinho da sala podia levar a tentações imperdoáveis, tipo passar as mãos nos peitos e coxas da namorada. Nas horas dançantes preferiam dançar um rock n’roll ou um tuiste, ritmos que não exigem dos pares dançarem coladinhos, como um fox-trote, ou um samba-canção.                                                                                                                                                              Dez ou quinze dias antes da Sexta-feira da Paixão começava para esta galera a contagem regressiva para a volta à esbórnia, digamos assim.  Um amigo meu cujo nome não vou dizer, mas é João Mauricio, fumante inveterado, contumaz bebedor de cerveja e da mistura chamada “cuba libre” se preparava para o fim do período quaresmal como se fosse um ritual. Naquele tempo muitos bares costumavam re-abrir suas portas logo depois da passagem da procissão do enterro. João Mauricio sempre dava um jeito de adentrar o recinto algum tempo antes disto. Sentava-se em seu lugar preferido e ficava de olho no relógio que tirava do pulso e colocava sobre a mesa, observando os ponteiros. No primeiro segundo após a meia-noite chamava o garçom e pedia uma cerveja, uma coca-cola, um dose de rum e um maço de cigarros Continental. Algum tempo depois não estava mais só, pois logo chegava sua namorada e futura esposa Maura. Meu estimado amigo João Mauricio faz assim há mais de cinquenta anos. É o último dos moicanos.  A ele e à Maura Eliana; e a todos os meus leitores e seguidores, desejo uma Feliz Páscoa. A contagem regressiva já começou; 19 de abril está mesmo ali.

Luiz David

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