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MUSSOLINE

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MUSSOLINE

Faleceu em Pará de Minas no último dia 9 de novembro o lendário atleta e professor de natação Mussoline Pereira. Seu sepultamento aconteceu no dia seguinte, sábado, 10 de novembro, no cemitério de Santo Antonio.          Mussoline era filho de Antonio Pereira Júnior – o Nico Pereira  e D. Elvira Moreira dos Santos Pereira. Ele nasceu no dia 29 de março de 1929 e completaria noventa anos de idade no próximo mês de março. Mussoline foi casado com D. Lourdinha Pereira, com quem teve dois filhos: o engenheiro civil Emerson e o designer de moda Gabriel.

Tive o privilégio de ser amigo de Mussoline desde que o  conheci, no final da década de 1970. Naqueles anos eu ocupava uma cadeira na Câmara Municipal de Pará de Minas e ele costumava aparecer por lá nos dias de reunião, conversávamos muito e eu fui então descobrindo a história dele, e a  boníssima pessoa que sempre foi.                                 Tinha ele retornado recentemente da cidade de Ipatinga, onde por mais de doze anos trabalhara na Usiminas. Com o tempo, o lado  “desportista” dele aflorou e a empresa o remanejou para o setor onde podia ser mais útil: a sede esportiva da USIPA, onde ele pode repassar aos seus pupilos todo o seu conhecimento de alguns esportes, que tinha adquirido durante a vida: voleibol, basquetebol e natação. Na juventude, defendendo as cores do Pará de Minas Tênis Clube, Mussoline havia se tornado um dos mais completos atletas mineiros de sua geração. Brilhava nas quadras no sexteto de volei da PMTC, várias vezes campeão do interior mineiro. Como voleibolista, seus antigos colegas de equipe e torcedores que o viram  jogar,  garantem ter sido ele o criador da jogada “jornada nas estrelas”, que ficou famosa na década de 1980, quando o Brasil se tornou uma potência naquele esporte.  Mussoline fazia a jogada que assustava os adversários, pois em quadra aberta a bola quase sumia de vista, com a altura que subia. Nas resenhas do vôlei os remanescentes gostam de relembrar uma final de torneio entre PMTC e Minas Tênis Clube, no antigo ginásio deste clube.em Belo Horizonte.Instantes finais da partida, empatada no último set, quando surge um saque para o PMTC, Mussoline se posiciona  e faz o a jornada mais famosa de sua vida, os minastenistas assustados ficaram olhando a bola subir e cair no solo,vertiginosamente, no seu lado Mussolini Pereira. Ponto para o PMTC que venceu o jogo e ganhou o título. Por causa deste ponto o clube minastenista por muito tempo insistiu com Mussoline para que se transferisse  para a capital, mas ele não quis deixar a cidade, nem a família, nem os amigos do PMTC.

Mas o nosso  Mussa foi grande também nas piscinas. Quando o Pará de Minas Tênis Clube foi inaugurado em 1942, tinha ele treze anos de idade e logo foi atraído pela belíssima piscina olímpica do clube, que ficava perto de sua casa. Neste tempo ele já sabia nadar. Aprendera a dar seus mergulhos de forma pouco ortodoxa, nas águas do ainda caudaloso Ribeirão Paciência. Ele mesmo gostava de contar: -certa vez o pai dele jogou de uma vez só os filhos Mussoline, Rubens, Eliana e Cristóvão, no poço que havia perto da casa, sob um uma pinguela que ligava os dois lados da Rua Raimundo Menezes. Com os gritos dos meninos, dona Elvira correu até lá, a tempo de ver o marido rindo muito dos pimpolhos. Quando foi advertido pela esposa, Nico Pereira apenas resmungou: – Elvira, já passou da hora dos meninos aprenderem a nadar, e esta é a melhor maneira de aprender. Por conta própria cada um dos filhos foi saindo do poço, deixando nele o medo que tinham de água. Todos os quatro irmãos se tornaram ótimos nadadores depois de treinados pelos técnicos de natação que vieram para a cidade com a inauguração do PMTC. E ainda trouxeram para a equipe os primos Genésio e Mauro. Muito das glórias e conquistas alcançadas pela equipe de natação do clube se deve aos nadadores da família Pereira.

A década de 1980 foi quando a Pará de Minas redescobriu Mussoline, depois de seu retorno de Ipatinga, já aposentado. Quando foi criada  a Diretoria de Esportes da prefeitura, eu fui nomeado pelo prefeito Antonio Júlio para dirigi-la, ele apenas me disse: -aproveite o professor na equipe. Neste tempo nós já o tratávamos por “professor” e Mussoline foi mesmo de grande valia. Passou a dar aulas de natação na piscina do Clube Paraminense, no bairro Padre Libério, não apenas para os filhos de sócios; algum interessado morador da região que por lá apareceu, também foi parar na piscina.  E nos JEPAM, criados naquela época, a natação era um esporte que voltou a ser competitivo na cidade, graças a ele. Mas a grande importância dele foi novamente nas quadras: a prefeitura tinha inaugurado quadras em diversos bairros e distritos, e com toda paciência e dedicação lá ia o professor ensinar os rudimentos do voleibol aos jovens. Mais um pouco de tempo e organizamos os primeiros torneios de vôlei inter-bairros e na zona rural, inclusive é bom destacar, com equipes femininas. Lembro bem da abertura do primeiro torneio de voleibol da zona rural, no distrito de Torneiros. Mussoline cismou de incluir  uma revoada de pombos na abertura. -Pode deixar que eu arranjo os pombos, disse-me ele. Na hora do evento, a quadra super-lotada, chega o momento da tal revoada. então  Mussoline busca uma grande caixa fechada com tela e apenas pede para eu sinalizar a hora da soltura dos pombos. Quando dou o sinal, ele suspende a tampa da caixa, mas não sai pombo nenhum. Ele então sacode a caixa e um único pombo bastante assustado com o foguetório sobe rumo ao céu. Pois não é que esse solitário pombinho, talvez estressado,  resolve se aliviar e o cocô veio direto sobre a minha cabeça! Foi cômico apesar de eu ter ficado meio sem graça. Recentemente, ao visitá-lo no asilo onde viveu seus últimos meses, ele se lembrou do episódio e deu sonoras gargalhadas, tirando um sarro em mim.

Se em Pará de Minas  Mussoline não teve seu valor devidamente reconhecido, em Ipatinga foi diferente. Prestes a se aposentar, ele recebeu o título de Cidadão Honorário de Ipatinga, pelos relevantes serviços prestados como técnico de natação ao clube USIPA. Recebeu a homenagem  diante de um público de mais de mil e quinhentos ipatinguenses que lotaram o cine-teatro daquela cidade. Na mesma solenidade outras duas pessoas também foram homenageadas: o ex-governador de Minas José de Magalhães Pinto e o ex-presidente da república Juscelino Kubitschek, que por ter falecido ema acidente rodoviário pouco tempo antes, foi representado pela sua esposa, Dona Sara. Professor Mussoline tinha grande orgulho desta homenagem, nos seus guardados ele tinha uma página inteira de jornal de Ipatinga que cobriu o evento festivo.

Certa vez, em conversa no bar que existia na sede do Atlético, com o célebre Itamar “do Galo”, dirigente de futebol em Ipatinga, grande torcedor do Atlético Mineiro e várias vezes candidato a presidente do clube (daí o apelido), perguntei-lhe se havia conhecido o professor. Itamar me encarou sério com outra pergunta: -você conhece o professor Mussoline de onde? Eu respondi: de Pará de Minas uai, sou amigo dele. Itamar se derreteu todo em elogios ao nosso conterrâneo, para ele (Itamar)  Mussoline o grande incentivador do esporte de Ipatinga nos primórdios da cidade, quando formou uma equipe de natação que brilhou intensamente nas piscinas de todo o Brasil, ganhando diversos torneios nacionais. Muitos atletas ipatinguenses formados por Mussoline chegaram ás equipes brasileiras que participaram de torneios internacionais, inclusive em Jogos Pan-americanos. “Professor Mussoline virou lenda em Ipatinga” disse Itamar. Ao final pediu-me que trouxesse um forte abraço ao professor, que transmiti alguns dias depois, deixando-o bastante alegre.

Quando ele nasceu, em 29 de março de de 1929, o grande nome da política mundial era o ditador italiano Benito Mussoline. Amado pelos italianos e reverenciado pelos católicos do mundo inteiro, por conta do tratado que assinou com a Igreja, na época chefiada pelo papa Pio XI. Pelo “Tratado de São João de Latrão) a República Italiana, representada pelo “Duce (pronuncia-se Dute que significa ‘Chefe’)” reconheceu a soberania da Igreja sobre o vaticano que se tornou um Estado independente no coração de Roma, e ainda cedeu alguns palácios localizados fora dos muros ao novo estado. Pouco mais de um mês disto tudo nasce o filho de sô Nico Pereira e de D. Elvira, que recebeu o nome do ditador italiano que ninguém podia prever que em poucas anos se tornaria um dos inimigos públicos da humanidade. Mas até até que isto acontecesse, de forma até natural, o nosso Mussoline ainda na escola ganhou o mesmo apelido do xará famoso, só que definitivamente abrasileirado “Dute”. Seus colegas de quadras e piscinas sempre o chamaram assim. Esta turma quase toda já tinha morrido quando ele retornou de Ipatinga e então em sinal de respeito, as novas gerações passaram a   tratá-lo por “professor Mussoline” e assim foi até o fim de seus dias, que passou no Asilo Ozanan em Pará de Minas. Viúvo há muitos anos, morava sozinho em sua residência na rua Gonçalves Ferreira, próximo ao centro da cidade. Seus filhos sairam de casa para estudar fora  e depois se empregaram em Belo Horizonte e São Paulo. A caminho dos noventa anos, nosso personagem sentiu ele próprio que não era conveniente seguir vivendo solitariamente. Conversou com os filhos e com eles acertou sua ida para o internato.    Fui visitá-lo várias vezes e sempre que o encontrava a primeira parte da conversa era eu informando a ele sobre sobre os antigos/novos companheiros: Antonio Júlio e sua irmã Marcia; o vereador Marcilio, o quase vereador Marcinho que foi chefe de gabinete no último mandato de Antonio Júlio na prefeitura;  o ex-prefeito Tilili. Perguntava por todos e queria saber tudo sobre a política local.  Cerca de um mês antes de sua morte estivemos visitando-o, eu, Antonio Júlio e seu irmão Eugênio e o vereador Marcílio. Dias antes estiveram por lá no asilo os velhos/velhos amigos José Ribeiro “do Café Windsor” e sua esposa Maria Elisa acompanhados da filha Luciana. Mussoline se emocionou  bastante com a visita, mas ficou bastante feliz. Não se sentia abandonado, pois os filhos iam visitá-lo sempre: Emerson com frequência semanal, pois morava em Belo Horizonte e Rodrigo ao menos uma vez vez por mês. A irmã Eliana, com as dificuldades provocadas pela idade e por residir noutra cidade também foi constante. E os muitos amigos que fez durante sua vida também costumavam ir vê-lo.

Antes de falecer Mussoline esteve hospitalizado por mais de uma semana, estava bem fragilizado. Ao seu velório compareceram dezenas de pessoas que foram se despedir daquela figura lendária ainda em vida.

Descanse em paz Velho Mussa, o nosso imortal Dute.

Luiz David

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