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O Curso Científico

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50 Anos de Formatura da 1ª Turma do Curso Científico em Pará de Minas

Em dezembro próximo será comemorado o cinquentenário de formatura da turma pioneira do então assim denominado “Curso Científico”, implantado na cidade de Pará de Minas, no Colégio Estadual Fernando Otávio. Os meados da década de 1960 foram decisivos na educação dos jovens da cidade que nunca  mais foram as mesmas neste quesito: a educação e a cidade.  Até então só existiam duas possibilidades de um(a) jovem prosseguir seus estudos pós conclusão do curso ginasial (o ensino fundamental atualmente, com seus nove anos de duração): cursar contabilidade na Escola Comercial Nossa Senhora da Piedade, mantida pela Igreja Católica, curso aberto aos dois gêneros; ou ingressar no Curso Normal do departamento feminino do Colégio São Francisco, que por esta época passou a se chamar Colégio Normal Sagrado Coração de Maria, que o povo desde a sua inauguração em 1949 chamou (e chama) de “Colégio das Irmãs” por motivo óbvio: a direção do estabelecimento esteve sempre sob a responsabilidade de freiras, exclusivamente feminino. Para as moças outra oportunidade surgiria pouco depois, em outubro de 1968,  quando foi criado o Colégio Normal Nossa Senhora da Piedade, iniciativa de   quatro extraordinárias educadoras: Avany Vilhena, Dêmia Lopes dos Santos, Maria Inês Mendes de Paula e Vera Lúcia Barbosa. A carência de professoras na cidade era grande; o Colégio das Irmãs não conseguia ofertar ao sistema educacional a quantidade de mestras ou mesmo mestres que a situação exigia por alguns motivos: o curso era dado apenas durante o dia e boa parte da alunas eram internas, oriundas de outras cidades. Outra boa parte era constituída de moças que não tinham a menor intenção de exercer o magistério; estudavam para se ilustrarem (nem todas) ou para passar o tempo com alguma atividade útil. E no colégio das Irmãs o ensino era pago, o que eliminava de imediato as possibilidades talvez 70% das moças, a maioria precisava trabalhar, fosse nas fábricas de tecidos, ou no comércio, ou de empregadas domésticas. Em comum, a realidade de que todas precisavam colaborar com as despesas da casa paterna: o pai geralmente era operário de salário a salário e meio por mês; não sobrava dinheiro para a educação formal dos filhos, que mal saídos do curso primário, meninas e meninos, logo precisavam encontrar uma ocupação que rendesse alguns caraminguás que lhes permitisse satisfazer suas necessidades pessoais e colaborar com o caixa-único familiar. Foi assim que o “colégio da Avany” ou colégio Normal Nossa Senhora da Piedade nasceu e floresceu abrindo oportunidades  às filhas do zé bombeiro, do juca da horta, do tonho caixeiro, do joão sapateiro, da viúva do quinquim pedreiro; das moças balconistas e das domésticas; das operárias e das auxiliares de escritório. Pelo menos duas ou três gerações de normalistas se formaram naquele abençoado estabelecimento de ensino imaginado e tornado realidade por aquelas quatro mulheres. Visto assim, cinquenta anos depois, é possível e é preciso reconhecer a importância daquela escola. E que mestras notáveis, nascidas para ensinar, foram formadas ali. E valorizavam o conhecimento que adquiriam, pois o curso era pago com o suor do trabalho de cada uma. São centenas de professoras formadas no colégio da Avany, acredito que todas já tenham se aposentado. Merecidamente digo de passagem. Mas hoje eu me inscrevi para falar do Curso Científico do Colégio Fernando Otávio, cuja primeira turma de formandos  está prestes a comemorar a conquista do importante canudo, que lhes habilitava a singrar outros e mais profundos mares.                                                                                                                                                                                                           

Aquele majestoso edifício (mesmo para os padrões do Século XXI) foi construído pelo governo do estado e inaugurado em 1942 para receber o Ginásio São Francisco, desde o início dirigido por frades da OFM -Ordem dos Frades Menores, quase todos holandeses e fugitivos da guerra que assolava o mundo e particularmente a Holanda, um dos primeiros países ocupados pela fúria nazista. O ginásio era aberto aos jovens de qualquer cidade, desde que as famílias pudessem pagar as anuidades. Havia o núcleo dos internos que residiam no lugar e o núcleo dos externos, dos alunos locais que entravam às sete da manhã e saíam às onze e meia; alguns poucos ficavam até a tarde. A entrada em funcionamento do “ginásio dos freis” levou ao fechamento o célebre “Ginásio São Geraldo” que entrou para a nossa história municipal como “ginásio do Sô Martém” na linguagem do povo. O sô Martém era o professor Martin Cyprien, fundador e dono do colégio,   que ao tomar conhecimento da fundação na cidade do colégio do estado, cuidou de transferir  o seu estabelecimento para a vizinha Divinópolis, que começava a tomar a dianteira dentre todas as comunas do centro-oeste mineiro. O Colégio São Geraldo tinha sido fundado em Oliveira; mas antes de chegar ao Pará de Minas, tinha funcionado por algum tempo em Abaeté.  Chegou até nós no ano 1929 pela iniciativa do então vereador/Presidente da Câmara, Tenente Júlio de Melo Franco, que exercia as funções de Agente Executivo, o nome que se dava ao cargo de  prefeito. Trocar de cidade não era uma novidade para o professor Martin Cyprien, cujo nome virou lenda por todo o centro-oeste mineiro. Assim como aconteceu com as moças proletárias e da pequena burguesia de Pará de Minas, com os rapazes não foi diferente: saíam do Grupo Escolar direto para o batente: se o pai fosse ferreiro, iam ajudar na ferraria; o mesmo para os filhos dos carpinteiros, dos oleiros, ou dos carroceiros, balconistas, lavradores; ou iam trabalhar nas fábricas de tecidos. A única escola que os podia receber era paga e pelos mesmo  motivo das irmãs ou namoradas – a falta de dinheiro, não davam sequência aos estudos.

Alguns se salvaram da escuridão intelectual graças ao professor Antonio Rocha, tão pouco lembrado pelos nossos historiadores, que costumam confundi-lo com um homônimo local: Antonio da Rocha Praxedes, jornalista e patriarca de numerosa e influente família patafufense. Foi o fundador do jornal “CIDADE DO PARÁ” que circulou na cidade entre  22 de novembro de 1903 até 30 de dezembro de 1917. O jornal de vida mais longa na cidade até que a “Gazeta Paraminense” fundada em 1984  pelo  jornalista Bié Barbosa o superasse no ano 1999 (em 2020 a GP completou 36 anos de circulação ininterrupta).  O jornal A CIDADE DO PARÁ de Antonio da Rocha Praxedes circulou por 737 semanas consecutivas, um feito extraordinário. Antonio da Rocha Praxedes merecidamente virou nome de rua no bairro de Nossa Senhora das Graças, onde as placas alusivas não fazem alusão ao seu sobrenome do meio: Rocha, sendo grafadas apenas “Antonio Praxedes”.

Quanto ao outro mencionado, Antonio Rocha, também recebeu os encômios do povo paraense quando teve seu nome também dado a uma via pública: a Rua Antonio Rocha, que eu costumo chamar de mais extensa rua da cidade pois sabemos que ela começa na avenida Presidente Vargas (Ponte Grande)   e ninguém sabe onde irá acabar. Atualmente a rua já está nas imediações do Instituto Coronel Benjamim Guimarães (escola salesiana) e acredito que em poucos anos atingirá o bairro (antigo povoado) de Matinha. A razão disto é que o legislador denominou toda a faixa margeando os trilhos da extinta RMV de Rua Antonio Rocha, na vã ilusão de que as ferrovias seriam para sempre. Não são como se viu. Desde 1984 que os trilhos foram suprimidos entre Pará de Minas e Azurita. Esclarecida a eventual confusão feita com o nome comum a dois dos mais ilustres cidadãos de Pará de Minas, voltemos ao Antonio Rocha, aquele que levou luz à escuridão intelectual da mocidade patafufense na década de 1940. Este Antonio Rocha nasceu em Bonsucesso (MG). Um contador brilhante, que foi trazido para Pará de Minas pela firma “Abreu & Filhos” que funcionava na Rua Francisco Sales, no centro da cidade, talvez o maior atacadista da região, que mantinha representantes espalhados por todo o território entre os rios Paraopeba e Pará: do Bonfim aos confins da Morada Nova. O professor Antonio Rocha veio para cuidar da escrituração desta enorme casa comercial. Logo na chegada percebeu que não podia contar ajudantes escriturários; poucos tinham noção de números contábeis. A saída foi criar um cursinho noturno de contabilidade comercial que preparasse os jovens interessados na arte da escrituração. Não faltaram alunos e por alguns anos, por amor à profissão, Antonio Rocha formou algumas dezenas de guarda-livros na cidade. A expressão “guarda-livros” é usada para designar  o contabilista não formado, que embora preparado para cuidar da escrituração de uma empresa, está impedido de assinar os balanços da escrita,  que neste caso  exige um contador formado, com registro no Conselho do profissionais da área.  José Francisco de Oliveira, que alguns anos depois seria um dos fundadores da renomada empresa “Pneusola” e ex-aluno do professor Antonio Rocha mais tarde formou-se em Belo Horizonte e retornando a Pará de Minas abriu o seu próprio escritório de contabilidade; simultaneamente passou a assinar as escritas de diversas empresas, cujos guarda-livros, tinham sido seus colegas no cursinho; um deles, Geraldo Duarte, o Geraldo do Bimba (que em 1959 foi um dos fundadores da Siderúrgica Alterosa), nunca se diplomou, mas os conhecimentos adquiridos com o professor Antonio Rocha foram tão úteis que por muitos anos cuidou da escrita de inúmeros estabelecimentos comerciais e industriais  de Pará de Minas, (entre eles a Fundição Oriente, antecessora da Fundição Batista).

Mas, voltando ao tema/título, ou seja. o cinquentenário de formatura da primeira turma do Curso Científico do Colégio Estadual Fernando Otávio, eu preciso dizer que esta turma de 14 alunos foi a que quebrou o paradigma de que filhos de famílias menos abonadas  não podiam alcançar a universidade. Dentre os catorze tinha o filho de um radio-técnico;  de um postalista, de um motorista de caminhão, de simples funcionários públicos, de fazendeiro,  enfim, de sobrenomes tão honrados quanto humildes. A maioria prestou o exame vestibular que dava acesso à  universidade sem passar pelos cursinhos que começavam a proliferar e a enriquecer os seus donos. E nos anos seguintes a toada foi a mesma: o nível do curso curso científico era tão alto que os alunos que precisavam trabalhar mais do que estudar,  foram sendo aprovados em concursos para o Banco do Brasil e outros bancos; Caixa Econômica e outras empresas estatais como Petrobrás, etc. Ficou demonstrado que à juventude paraminense  tinha faltado por décadas a abertura do portal de acesso aos melhores empregos. A criação do Colégio Estadual Fernando Otávio se deu pelo Decreto nº 3432, de o8 de outubro de 1965 e a sua instalação ocorreu em março de 1965. Isto o povo de Pará de Minas ficou devendo ao governador José de Magalhães Pinto (1961 / 1966), udenista, adversário político de Benedito Valadares, o construtor do enorme prédio e o concedente do direito de uso aos franciscanos, que foram importantíssimos na formação de jovens locais e da região, mas a custo  tão elevado que afastou por mais de vinte anos os filhos  das classes mais humildes e de menor poder econômico. É preciso reconhecer que foi o governador Magalhães Pinto quem abriu as portas do ensino médio (o curso científico) ao povo de Pará de Minas. Não aconteceu o temido conflito de classes sociais como algumas pessoas temiam. O filho do açougueiro sentou-se ao lado do filho de médico; o filho do dona da farmácia começou até mesmo a namorar a colega filha de um dono de armazém de periferia;  aqueles sobrenomes pomposos e sempre ouvidos com respeito (e temor, porque não?) começaram a se misturar com aqueles silvas ou pereiras, ou oliveiras tão comuns. O amalgamento das relações sociais no Pará de  Minas ouso dizer, começou ali naquela escola pública com a previsível miscigenação social. Eram os anos 1960, os anos loucos que mudaram a história da humanidade e do Pará de Minas, a minha Paris de Minas, por consequência. Enfim os nomes dos integrantes daquela turma privilegiada: pelo menos uma das alunas já se foi, minha amiga Maria do Carmo Silveira – a Carminha da Dalila do Sinval caminhoneiro, que chegou a trabalhar na escola como secretária, antes de se formar advogada. Nos anos 1990 ela foi aprovada em concurso para o TJMG, na ocasião ela me disse: -o Curso Científico foi tão bom, que posso dizer que 90% do que eu sei aprendi naqueles três anos.         

    À memória de  Carminha Silveira eu dedico este texto. E aos demais formandos de 1970 eu deixo um fraternal abraço e digo que invejo todos vocês; entre 1964 a 1968 eu estive fora da cidade quebrando a cabeça pelo  mundo. Eu e boa parte dos meus amigos contemporâneos. Houvesse já o “Fernando Otávio” talvez não tivéssemos partido. mas foi bom também, viu Ana maria Silva Mendes (do Tuquinho do Café), Antonio Alves Chaves (do INSS), Antonio Carlos Amaral Almeida (do Ciro Almeida); Geraldo Magela de Faria (do banco do Brasil eda dona Geralda e do sô Henrique Barbeiro); Humberto Quites (do Dorinato carteiro e advogado); Elizabeth Aguiar (de dona Lula e do Zé Porfirio Aguiar); Nelson Rodrigues da Costa (do sô Dionisio do IEF), Roberto Antonio Mendes, Rogério Rezende Marinho (do delegado Bruno Marinho), Solange Mendes Pinto (do sô Oscar Pinto do curtume), Tarcisio de Sousa Maciel e Terezinha Pinto Campos. Se estivesse viva, Carminha Silveira a esta altura do ano já estaria articulando os eventos comemorativos da importante efeméride. São cinquenta anos amigos, MEIO SÉCULO, lembrem-se: aquele canudo foi a chave que possibilitou a abertura de todas as portas com que vocês toparam nos anos seguintes. Acho que a data merece pelo menos uma missa em ação de graças e distribuição de bombons na porta da igreja. Até porque ninguém garante que até dezembro esse visitante inoportuno de nome Covid já tará ido embora.               (LUIZ VIANA DAVID)            

Luiz David

3 Comments

  1. Já estava com saudade, luiz David. Suas crônicas fazem muita falta e prestam homenagens necessárias. Por favor, escreva mais. Abraço afetuoso e fraternal.

  2. Caro Luiz David,
    Parabéns por esses comentários históricos importantes e bastante elucidativos!
    Fatos da história de Pará de Minas que vão caindo no esquecimento com o passar dos tempos ! Aí aparece você para não deixar isso acontecer !
    Estou usando essa página da minha esposa, Sônia ,para fazer esses comentários e agradecer-lhe, em nome de toda a minha família, os elogios feitos ao meu pai , professor Antônio Ferreira Rocha !
    Do seu mais recente Amigo, Paulo Moreira Rocha

  3. Caro Luiz David,
    Parabéns por esses comentários históricos importantes e bastante elucidativos!
    Fatos da história de Pará de Minas que vão caindo no esquecimento com o passar dos tempos ! E aí aparece você para não deixar isto acontecer !
    Estou usando essa página da minha esposa, Sônia, para fazer esse comentário e agradecer-lhe, em nome da toda a minha família, pelos elogios feitos ao meu pai , Antônio Ferreira da Rocha !
    Do seu mais recente Amigo, Paulo Moreira Rocha

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