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O Doutor Chegou

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O doutor chegou

Acaba de aderir ao facebook o advogado Anastácio Bartolomeu Ribeiro Pinto e foi com grande surpresa que recebi o pedido para adicioná-lo na minha lista de “amigos”. Conhecendo bem  os dois, a rede social e o solicitante, posso afirmar que o facebook dá um salto em sua qualidade com a chegada do doutor, mas a recíproca não é verdadeira, considerando   que o “face” é uma terra de ninguém, onde antas e capivaras convivem em relativa harmonia com corujas (que só espiam), beija-flores (que só enfeitam),  papagaios (que só falam bobagens) e cães de diversas raças ( de caça, de guarda, vira-latas, de companhia e muitos etc.). Mas voltando ao novato faceboqueano, considero-o dentro dos limites paroquiais, uma espécie de supra-sumo da sabedoria. No meu conceito, Anastácio está para as artes advocatícias patafufenses assim como o craque Calé está para o nosso futebol; ou Benedito Valadares para a nossa política; padre Libério para a nossa fé; a professora Orosina Mendonça  para o magistério e João Cocada para o setor de caridade, além de ter inventado a fórmula da mais saborosa geléia de mocotó do planeta. Certa eu escrevi sobre Calé, dizendo que os fãs do ludopédio paraense de Minas não sabem o que perderam, se não viram jogar o pimpolho filho do motorista Zé da Bita. Felizmente a turma que frequenta o facebook, terá a oportunidade que o fãs do futebol não tiveram por terem vindo depois que Calé parou de atuar, só conhecem dele o belíssimo caráter, posto que continua por aí, vivo e forte. Não viram Calé em campo, mas poderão usufruir da sabedoria do doutor Anastácio, que do alto dos seus setenta e sete anos conserva intactos a ironia ferina, o senso de humor refinado, a sinceridade rascante que pode até ferir algumas alminhas mais suscetíveis. Se Anastácio estiver chegando ao facebook não apenas para “ispiá” como ele gosta de dizer, mas também para mostrar um pouco de sua verve na arte de    escrever, o planeta facebook e seus habitantes ficarão muito melhor. 

Certamente o doutor conquistará muitos seguidores, mas que esses não se entusiasmem, uma coisa que ele nunca fez foi confundir figuras tão díspares como um amigo de fé com um conhecido que talvez admire. E não cobrem dele diariamente as “pílulas” com que brindava seus leitores no tempo em que colaborou com o balzaqueana Gazeta Paraminense, que vive o esplendor dos seus trinta e cinco anos, o mais longevo dos hebdomadários pará-minenses. Também não esperem do cronista Anastácio uma crônica semanal aos moldes das que a falecida Folha de Pará de Minas publicava. O autor, tanto pode escrever três crônicas numa semana, ou ministrar ao seus seguidores dez pílulas de uma vez, como pode sumir do radar por algum tempo. O tempo do doutor não é o mesmo do comum da humanidade; nunca foi. Quem teve a oportunidade (privilégio ?) de um dia se sentar à mesa de um bar em companhia dele sabe do que estou falando. Aos setenta e sete ele quase não vai mais a bares, botecos e assemelhados (que falta de sorte das novas gerações); o que é ótimo para os que frequentam  a sua copa/cozinha e podem tomar assento naquela mesa de três metros por noventa e provar os petiscos (epa!!!)  que o doutor e a sua amada Maria do Rosário produzem no fogão ao lado. Às vezes eu imagino Anastácio como mestre-cuca, com um chapéu inflado na cabeça e uma colher de pau nas mãos, mexendo coisas em algumas de suas duzentas panelas. Sim, ele coleciona panelas: de barro, ferro, alumínio, cobre ou latão. Se existem pessoas que espetam borboletas num quadro, ele pode muito bem encher suas prateleiras de panelas.

Anastácio Pinto, seu nome de guerra nas lides forenses, foi  o mais brilhante causídico de sua geração na comarca de Pará de Minas, opinião de muitos juízes, promotores e colegas togados que conviveram com ele. Podia ter ficado rico, mas juntar bens nesta existência nunca foi o objetivo deste espírito libertário. Certa vez estávamos bebendo cerveja num bar no centro da cidade, ás duas da tarde de um dia que as pessoas chamam de útil, quando chegou esbaforido um importante e rico industrial que disse  estar a horas procurando pelo doutor. Queria que Anastácio assumisse uma ação que pretendia desencadear na justiça e não se importava com o valor dos honorários. Candidamente  Anastácio respondeu que só tratava de assuntos profissionais no escritório onde não pretendia voltar naquela semana.   Dispensou o ricaço assim, na tora.   Da mesma forma já o vi deixar o almoço em casa, já servido, para atender a urgência de uma amigo de fé e de truz, contraventor contumaz, preso em flagrante com as anotações do jogo do bicho.

Doutor Anastácio tem muitas histórias para contar sobre a sua profissão, sobre política ( foi candidato a prefeito em 1970, pelo antigo MDB,que fazia oposição ao governo militar), foi procurador do município por dez anos e ainda mantém a sua banca numa sala do edifício Faria Mendes onde ele vai cada vez menos. Também vai ao fórum, cujas escadarias galga com auxilio de uma bengala, o que lhe acentua a elegância. Outro dia um amigo comum se referiu a Anastácio como um tigre de “bengala”, trocadilho que nem é novo, mas que lhe caiu como uma luva. Não está aceitando novos trabalhos, mas correu ao fórum recentemente em socorro de uma pobre viúva que necessitava de amparo legal. E assim ele vai tocando a vida, com a sua Záia por perto, os filhos, as netas e agora estreando como bisavô.

Assim, amigos, considerado apresentado o novo habitante do hospício facebook. Mas não é um doido qualquer; se trata de maluco sofisticado, com muitas coisas para escrever. Se ele quiser, que fique bem claro.  (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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