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PARÁ DE MINAS E OS ALAGAMENTOS

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PARÁ DE MINAS E OS ALAGAMENTOS NA REGIÃO CENTRAL DA CIDADE: UM PROBLEMA CRIADO PELOS GESTORES, QUE SÓ ELES PODEM RESOLVER.
 
Há algum tempo, durante conversa com o biólogo/ambientalista José Hermano Franco, ele passou-me uma informação tão óbvia que eu nunca até então tinha percebido. Foi o seguinte, José Hermano esclareceu que o ponto mais profundo do vale do Ribeirão Paciência fica entre a ponte da Rua Raimundo Menezes até a ponte da Rua Joaquim Peregrino e mais, que o campo de futebol do Paraense e o colégio das Irmãs Berlaar é o local de maior profundidade. Então eu dei conta de minha ignorância no assunto. Eu nasci nessas profundezas, há cem metros de distância do leito do meu querido ribeirão,na Rua João do Neto nº 29.Conheci o Paciência ainda caudaloso e piscoso, com piscinas naturais, os famosos poços: ‘poço da pinguela’, ‘poço a árvore’ , ‘poço do açude roncador’, poço do patronato’ e outros, onde a molecada daqueles tempos dava os seus ‘tibuns’. Nunca, nem nos meus piores pesadelos eu podia prever que o Paciência um dia seria esse filete de água poluída que conhecemos durante a maior parte do ano, mas que nos meses chuvosos muitas vezes causa desespero em boa parte dos paraminenses. A minha visão ficava restrita ao bairro Nossa Senhora das Graças, erguido sobre uma colina que começa no Azambeque e acaba na Tabatinga. Quando eu nasci em 1947 o bairro Nossa Senhora das Graças ainda nem tinha esse nome e era povoado apenas até a Rua Capitão Teixeira. Daí para cima era mato; na parte mais alta, a partir de onde está o tradicional ‘cruzeiro’, na outra vertente da colina o lugar era conhecido por ‘Porteira do Campo’, atualmente os bairros Independência, Belvedere, Vila Nossa Senhora Aparecida, Morro de Santa Cruz.
 
Não existe nenhuma dúvida que as inundações no centro de Pará de Minas começaram com a urbanização do bairro de Nossa Senhora das Graças. A fotografia que ilustra este texto é do ano 1951 e mostra boa parte do bairro. No centro da foto aparece a Rua Direita, a nossa principal desde sempre. A primeira rua logo acima á esquerda é a Rua Coronel Domingos Justino, naquela época chamada de Rua da Boa Vista; na seqüência aparecem as ruas capitão Teixeira, Capitão João da Cruz, um pedaço da Rua Antonio Praxedes. As ruas transversais a partir da esquerda, no canto da foto são as ruas Artista benjamim de Oliveira, Bento Ernesto, Nossa Senhora das Graças (que começa logo depois do final da Rua Direita, na esquina da rua João do Neto, onde eu nasci; rua Vigário Paulino, rua do Cruzeiro e rua Coronel João Alves. Á esquerda da foto, um pouco acima pode se ver a praça Galba Veloso com o Posto de Saúde (Policlínica) ainda em construção e logo o atrás o velho cemitério paroquial e adjacências. A rua Dr. Lage que começa na rua Nossa Senhora das Graças e termina rua do Cruzeiro não existia, seria aberta apenas na segunda metade da década de 1970. Alguns quintais de casas localizadas na Rua Direita eram tão grandes que chegavam a atravessar o espaço onde depois foi aberta a ‘Dr. Lage’. quatro anos depois da abertura das ruas da parte alta do bairro é possível observar na foto como eram enormes os quintais e a grande quantidade de árvores frondosas existentes. Posso garantir que todas elas eram frutíferas, a exemplo daquelas do quintal dos meus avós Emidio de Melo e Luiza (Zica), no número 660 da rua (atualmente no lugar existe um tempo Mórmon). Em 1951 (ano da foto) a maioria das ruas era desprovida de calçamento e quando foram dotadas deste benefício chegaram a pedra em forma de poliédros, que facilitavam a absorção das águas de chuvas. O quintais também atuavam na contenção das precipitações pluviométricas. As inundações da parte baixa da cidade começaram já no final da década de 1950. O Jornal Paraense, já extinto, algumas vezes no período chuvoso trazia reclamações de comerciantes estabelecidos na Rua Direita, principalmente no quarteirão onde está o Hospital da cidade, onde já ocorriam inundações; não na proporção das que ocorrem nestas primeiras décadas do Século XXI . Eram os primeiros reflexos da urbanização do bairro Nossa Senhora das Graças, que em marcha acelerada acabou com os quintais, verdadeiras esponjas; as ruas calçadas não demorou muito foram asfaltadas, impermeabilizando o solo, de tal forma que a qualquer precipitação uma enxurrada forte despenca sobre a Rua Direita, pois a rede de tubos que recolhe as águas pluviais são de mínima espessura e a maior parte da água corre por cima do asfalto e vai causar transtornos na nossa principal via. O centro de Pará de Minas foi urbanizado a partir do ano 1942, numa benesse do governador do estado, nosso conterrâneo Benedito Valadares Ribeiro. A rua que depois foi rebatizada com o seu nome foi a primeira; a seguir vieram as transversais Tiradentes, Rosário, Coronel João Alves, Dr. Higino e as paralelas rua Expedicionário, Francisco Sales, São José, as praças Melo Viana, Torquato de Almeida, Coronel Francisco Torquato e ainda as praças da Matriz, Afonso Pena e Delfim Moreira. Logo acima também foi urbanizada a rua da Boa Vista, que teve seu nome trocado para rua Coronel Domingos Justino, aliás nome do progenitor do governador. O resto todos conhecemos, a pavimentação seja de pedras ou de asfalto,se estendeu a todas vias, em todos os bairros existentes ou que vieram a existir depois. No princípio a própria prefeitura executava esse serviço e cobrava do contribuinte pelo melhoramento. Nos anos eleitorais alguns prefeitos costumavam trocar a execução da pavimentação em troca de votos dos moradores e muitos (talvez a maioria) nem era cobrada pela municipalidade.
 
A partir do ano 1979, quando foi aprovada pelo Congresso a Lei de número 7766, a obrigação da urbanização de vias passou a ser do loteador. Um exemplo clássico em nossa cidade é o bairro Senador Valadares, que por muito pouco não se beneficiou do ‘status quo’ anterior, quando a sua aprovação foi solicitada na prefeitura já vigorava a nova legislação e sendo um empreendimento gigantesco, com mais de dois mil lotes, a empresa não teve condições de executar a sua urbanização e mais de quarenta anos depois continua com uma taxa de ocupação de apenas 10%. Por outro lado, parte do bairro São José, aquela onde se localiza a bela Igreja de São Sebastião, com quase 100% de ocupação está totalmente urbanizada, embora os proprietários dos imóveis ali localizados não possam fazer o registro dos mesmos, por não ter sido ainda regularizada aquela extensão do bairro São José. Voltando á fotografia e relembrando que a mesma foi clicada no ano 1951 chamo a atenção do leitor para a parte baixa da cidade, que tem sido frequentemente alagada nos últimos anos. relembrando que ali é justamente a parte mais profunda do vale do Paciência; para onde correm todas as águas oriundas do bairro Nossa Senhora das Graças e de outras colinas onde se localizam grandes aglomerados urbanos: bairros São Luiz, Santo Antonio, Vila Maria, São Francisco, Providência, Vila Ferreira, Santa Edwiges, Recanto da Lagoa, Eldorado, Cores de Minas, Jardim das Oliveiras, João Paulo II e de partes ja urbanizadas do bairro Senador Valadares. Assim, a água utilizada durante um banho de chuveiro por morador do bairro Santa Edwiges por exemplo, vai cair no córrego Água Limpa que nasce nas grimpas do lugar denominado “Cana do Reino” e corre paralelamente á avenida Presidente Vargas até se encontrar com o Paciência, bem perto da ponte da Rua Raimundo Menezes. O nome ‘Água Limpa’ não condiz com a atual condição do pouco extenso córrego; neste ano 2020 nos meses secos, em seu leito corre um filete de um líquido imundo, depois de passar por algumas indústrias, receber descargas de um grande clube, de uma grande unidade de saúde, de algumas escolas e provavelmente de muitos imóveis particulares. Quando chove o Água Limpa ultrapassa seus limites. Quando ele se aproxima da avenida Presidente Vargas no ponto em que ela não é mais uma paralela e se transforma em perpendicular, o Água Limpa não consegue ultrapassá-la na passagem subterrânea muito aquém de atender o enorme volume de água de chuva que ele recolheu vindo dos altos dos bairros aqui mencionados. E então o Água Limpa, que bem pode ser chamado neste momento de Água Suja, extrapola e invade as pistas da Presidente Vargas e das ruas dos bairros Dona Tunica e Raquel, invadindo lojas e residencias, causando enormes transtornos e prejuizos. Há anos está assim. mas nem sempre foi assim. O lugar denominado bairro Dona Tunica foi urbanizado na década de 1980. Da Praça de Esportes até a região da Ponte Grande (boa parte pode ser vista na foto) o lugar era praticamente inabitado. A avenida só foi aberta em 1940 e sua urbanização demorou outros dez anos. Onde está o bairro Dona Tunica existia um grande arrozal, irrigado com água do córrego Água Limpa. Nos períodos chuvosos o arrozal absorvia todas as suas enchentes, E a cidade terminava na Cooperativa dos Leiteiros -Copará. Nas imensidões que depois viraram bairros, só havia mato e a água da chuva logo se infiltrava no chão. As inundações para valer mesmo, só começaram na região depois que o homem foi ocupando o espaço sem se preocupar com a drenagem, com as redes pluviais. Na década de 1970 oitenta metros do ribeirão Paciência (logo atrás do campo do Paraense) foram canalizados, obra que empurrou para dentro de um túnel o ainda volumoso Paciência, Então passaram a ser comuns as inundações ribeirão acima, pois o volume de água do Paciência chegava ali, em sua parte mais profunda, muitas vezes, dezenas de vezes superior àquela que efetivamente podia caber na parte canalizada. Resultado? A água que refluía colaborava para inundar a Presidente Vargas até na foz do Água Limpa, invadindo ás vezes as ruas Raimundo Menezes e Coronel Bernardino (Rua do Sapo). Meu primo Davizinho (David David) e José Mizael de Almeida que nasceram e foram criados ali sabem do que estou falando. Na outra ponta, o excedente da água que não cabia no túnel, passou a invadir as ruas do bairro Várzea: Ruas Abaeté e Dr, Higino, avançando pelo terreno do colégio das irmãs. Além de por várias vezes derrubar os muros do estádio do Paraense, levando junto o alambrado e até mesmo inundando os vestiários. A tal canalização e mudança no curso do ribeirão ali naquela região podem ser responsabilizadas pelas inundações.
 
Até meados da década de 1970 o Paciência não tinha o curso que tem hoje por ali. Reparem na foto, bem atrás da arquibancada coberta do estádio um filete de água. Não é um filete, é o ainda caudaloso ribeirão Paciência; bem atrás do campo o ribeirão dava uma guinada á esquerda, passava tranquilamente entre o estádio e o colégio das Irmãs e ali, mais ou menos onde atualmente fica a portaria da companhia Santanense ele (o ribeirão) dava agora uma guinada á direita fluía mais algumas dezenas de metros e mais ou menos em frente á estação ferroviária, virava novamente á direita e seguia seu curso. Nas épocas de chuvas abundantes, de enchentes a água excedente se espalhava pela enorme área remanescente entre a estação e o colégio. Existia até uma enorme horta no local, não tenho a certeza, mas era cuidada por um ferroviário aposentado. Nas enchentes, a água que transbordava do leito do ribeirão se acomodava naturalmente por ali, sem transtornar ninguém. A mudança do curso do ribeirão e a sua canalização acabaram com uma das maravilhas de Pará de Minas: a beleza do gramado do campo do Paraense, com sua grama tão verde que ás vezes algumas pessoas tinham vontade até de levar para casa e incluir na salada. Certa vez perambulando pelo campo, conversei com Bruno Marinho histórico cuidador do gramado e grande revelador de craques e ele me disse: – este cimento em volta do ribeirão vai matar a grama. É verdade que eu cuido da melhor maneira, mas o que mantém o viço é a umidade que vem do solo; agora o o ribeirão não vai passar mais pelo lado do colégio. A grama vai secar, lamentou-se o glorioso Bruno Marinho. Não deu outra coisa; pouco a pouco a grama foi-se definhando, secando, a irrigação manual não era suficiente, a partir dos anos 1990 o gramado inesquecível tinha mais barro quando chovia e poeira quando o tempo era seco. Só recentemente, em 2019, durante a presidência de Marcone Valadares, o campo passou a contar com ótima irrigação automática, nos moldes dos maiores estádios do Mundo. Na década de 1980 veio a canalização aberta do Paciência, a partir do túnel até a ponte da Rua Raimundo Menezes. A obra permitiu a abertura da avenida Brasil (atual avenida Matias Lobato) e eliminou a sinuosidade do Paciência naquele trecho. Vejam na foto como leito do ribeirão era sinuoso, principalmente entre a Ponte Grande e a rua Raimundo Menezes. Mas e a praça Torquato de Almeida? reparem bem na foto, da Praça Simão da Cunha até em frente á estação ferroviária. Uma área livre, que devia ter permanecido assim, se desapropriada pela prefeitura. Mas aos poucos a partir dos anos 1980, a ainda Cia. Industrial Paraense e depois a sua sucessora Cia Santanense foram ampliando a sua planta original da extinta Companhia Melhoramentos de Pará de Minas (fundada em 1920), cuja portaria, pasmem, ficava na rua Dr. Higino, na Várzea. Para coroar a invasão (eu chamo de invasão) daquela área livre, estuário de todas as enchentes, entre a ferrovia (agora avenida Alano Melgaço) e a praça Torquato, foi erguido pela empresa um muro de concreto de quatro metros de altura que barra qualquer quantidade de água que desça das partes altas da cidade, do bairro de Nossa Senhora das Graças. A substituição por cimento no inicio deste século, da grande área gramada e de jardins da praça Torquato que absorvia boa parte das enxurradas completou o cenário cada vez mais comum de inundações.
 
Existem soluções para a grave situação? Sim. Mas vai custar caro e será necessário gestores desprendidos, tipo aqueles que não procuram glórias efêmeras, que pensem antes na população e só depois na sua reeleição . Uma obra que não será concluída num único mandato, mas que deverá se estender por alguns deles. É preciso que se elabore um projeto arrojado e que seja votada uma lei na Câmara que obrigue a cada prefeito do porvir a cumprir a cada ano de seu mandato a meta estabelecida no projeto inicial. Seria uma benção se os vereadores da atual legislatura votassem ainda neste ano esta proposta. Assim, logo no primeiro ano de 2021 o novo prefeito ou o atual se for re-eleito poderá dar o ponta-pé inicial desta obra redentora que livrará Pará de Minas dessas anunciadas tragédias anuais. E de quebra, volver o olhar para a outra vertente da colina que forma o bairro das Graças, aquela que joga suas águas em direção á avenida Professor Melo Cançado e causam os mesmos e danosos efeitos. Acho que o próximo prefeito deverá ter um compromisso sério e público com este projeto: “PARÁ DE MINAS SEM INUNDAÇÕES”. Aquele candidato que assumir tal compromisso terá meu apoio e o meu voto. Ufaa!!! (LUIZ VIANA DAVID)
 

Luiz David

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