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TADINHO

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TADINHO

Entre 1949 e 1988 Pará de Minas teve dois cinemas funcionando ininterruptamente. O Cine-Theatro Vitória com trezentas e vinte cadeiras e o Imperial Cine, quatrocentas e vinte. O Vitória inaugurado em 1942 funcionou até 1988, entrou para a história de Pará de Minas como o “cinema do Tião”. O Imperial Cine, ficou conhecido como o “cinema do Tadinho”, que sobreviveu ao dono, falecido em 1977, e  fechou suas portas definitivamente no começo de  1982. As duas casas eram vizinhas na Rua Direita: o Vitória no lado par e o Imperial no lado ímpar da rua; não mais do que oitenta metros era a distância que separava os dois cinemas, entre eles,  a esquina mais central da cidade: Rua Direita com Rua Coronel João Alves. Um lugar fervilhante, onde tudo o que acontecia na cidade repercutia intensamente por ali.

Hoje a coluna é dedicada ao Imperial Cine e ao seu fundador e proprietário, Antonio Viegas Mendonça, o Tadinho, não me perguntem a razão do apelido, que nem o filho primogênito dele, meu amigo Luiz Carlos, sabe explicar.

Tadinho nasceu no ano de 1916 e nos anos 1940 atuava ativamente no segmento de bar e restaurante. No final da década de 40 tinha adquirido um lote na Rua Direita,  onde pretendeu montar um grande e moderno bar, capaz de receber algumas mesas de bilhar, jogo que por aqui era conhecido por “sinuca”. Já existiam outros estabelecimentos do ramo na cidade, pois a sinuca era uma diversão largamente praticada pelo público masculino. Havia espaço para outra casa do gênero e, Tadinho, sempre muito meticuloso, tinha planos de que seu bar fosse um marco no ramo. Iniciada a preparação do terreno, as pessoas se assustavam com o tamanho do empreendimento, algumas delas até mesmo comentavam: “puxa vida, vai ser o maior bar da região”. E seria mesmo, não fosse Tadinho ter dado ouvidos a um amigo que lhe sugeriu: -Ô Tadinho, por que em vez de “snooker bar” (falava-se assim na época) , você não muda o projeto e monta um cinema; o prédio é muito grande! À noite, em vez de dormir, o empresário ficou revirando na cama pensando na sugestão e ponderando consigo mesmo: bares de sinuca a cidade tem vários, a concorrência é forte e muitas vezes desleal; já cinema só existe um e por isto mesmo está lotado quase todas as noites. Acho que a cidade comporta mesmo outro cinema, remoeu de si para consigo. Quando se levantou estava decidido: mal tomou o café da manhã, dirigiu-se até a obra, onde os operários finalizavam o nivelamento do piso e ordenou ao mestre da obra, que em vez de nivelado, o piso deveria ter um desnível em toda a área. O lugar não ia mais abrigar um bar, mas sim um cinema. Sem entender nada, o mestre ordenou aos serventes que desmanchassem tudo. Às pessoas que perguntavam o que estava acontecendo o pedreiro que não tinha mais informações, apenas respondia: – O Tadinho mudou de ideia,  agora é um cinema que vai ser construído aqui.

A noticia logo se espalhou pela cidade e recebida com alegria pela população, principalmente pelos fãs da chamada “sétima arte”. O problema era que Tadinho não sabia nada sobre como funcionava um cinema, pois até então neste assunto nunca tinha passado de frequentador do Cine Vitória e dos cinemões  de Belo Horizonte. Mas procurou se informar. Pouco dias depois, um primo dele, Roque Mendonça (Roque do Afonso) disse-lhe que tinha ficado sabendo de um cinema que havia fechado as portas em Poços de Caldas, sul de Minas Gerais, e a família proprietária da casa estava vendendo as máquinas, equipamentos e mobiliário. Tadinho nem titubeou, intimou o primo a seguir com ele para Poços de Caldas onde ele pretendia adquirir o que fosse possível. Para não perder tempo nem a oportunidade, foram de avião, embarcando em Belo Horizonte. Alguém de Pará de Minas viajar de avião em 1949, tinha o mesmo efeito que hoje teria um patafufense embarcar num ÓVNI. E a viagem aérea virou o assunto do dia em todas a rodas.

Tadinho foi, gostou do que viu, e comprou o pacote completo: dois projetores e todas as cadeiras, ainda em ótimo estado. Voltaram, ele e Roque, anunciando a aquisição dos teréns, que deveriam chegar brevemente, o que de fato aconteceu. No meio tempo, Tadinho procurou em Belo Horizonte as distribuidoras de filmes, onde assinou contratos e aprofundou seus conhecimentos da nova atividade. Queria uma programação diferente para sua casa: O Vitória era um cinema extremamente popular, que privilegiava filmes brasileiros, mexicanos e filmes B norte-americanos, como as fitas de Tarzan e faroestes. Vez ou outra, exibia um filme europeu, geralmente italiano ou francês. Tadinho queria mais e decidiu  privilegiar filmes ingleses (distribuídos pela Rank ) e o melhores lançamentos da indústria estadunidense. Com isto, o Cinema Imperial passou a ser frequentado por um público  mais seleto, que também pagava um pouco mais caro pelo ingresso. Mas as duas casas nunca puderam reclamar da bilheteria, pelo menos nos vinte anos seguintes, até que a televisão roubasse seus frequentadores.

Finalmente o Imperial Cine foi inaugurado no dia 10 de dezembro de 1949, com a exibição do faroeste “No Velho Colorado”, produzido com a novidade tecnicolor. O filme da Colúmbia Pictures,  era estrelado pelos jovens atores Glenn Ford e William Holden, uma espécie de Brad Pitt/Tom Cruise daquela época. O cinema lotou todas as cadeiras por vários dias.  Para desespero do concorrente, Tião do Cinema.

Parece-me que em 1960, Tadinho decidiu aumentar ao extremo o tamanho da tela do Imperial, para que pudesse receber as fitas em cinemascope, processo pelo qual todos os cinemas do Brasil estavam passando. O público não queria mais ver fitas em tela pequena. No Imperial, a parede permitiu a expansão sem maiores problemas. Já no Cine Vitória o cinemascope demorou mais tempo para chegar, pois a tela ficava em um palco, que precisou ser destruído, para que a modernidade se instalasse.

O filme “Os Dez Mandamentos”, de 1956, super-produção dirigida por Cecil B. DeMille  fez enorme sucesso na nova tela do Imperial. Com quase quatro horas de projeção, a única sessão tinha de começar às sete da noite, para acabar pouco antes de onze horas, um horário considerado pornográfico para pessoas de bem estarem pelas ruas.  O filme, espetacular ainda hoje, cheio de efeitos surpreendentes, tinha um intervalo para troca  do rolos do filme, que as pessoas aproveitavam para ir ao banheiro, mas quase toda a platéia masculina fumante,  matava a vontade de fumar, para desespero de Tadinho. Para mim, aquela imagem de Moisés “Charlton Heston” descendo a montanha, carregando nos braços as pedras da Lei, nunca mais me saíram da memória. E durante décadas associei a imagem de Deus àquele Moisés com barbas de algodão.

Mais sobre Tadinho e o Imperial Cine: Tadinho nasceu em 1916. Foram irmãos dele: Geraldo Viegas Mendonça, José Viegas Mendonça (Zé Escorpião), Maria Raimunda Mendonça Marinho (a Nenê do Janjão), Maria Mônica, (a Lia, que fazia as balas vendidas no cinema), Maria Jeracina (Preta). Tadinho foi casado com d. Helena Menezes Miranda, de tradicional família paraense, com quem teve três filhos: Luiz Carlos (que passou a maioria das informações descritas aqui), Milton e Marlene.

Tadinho não era alto, nem baixo. Media talvez 1.70 cm. Forte. Costumava se vestir elegantemente, com camisas brancas e gravata. Só depois que ganhou de presente uma camisa de tergal foi que passou a dispensar a gravata. Nas “queimas  do Judas” na Praça da Independência (organizada anualmente pelo alfaiate Antonio “Capeta”),   o traidor sempre deixava em seu testamento uma gravata para Tadinho, para delírio do povaréu. Foi um fumante inveterado, mas  usava uma piteira elegantemente, tentando aliviar os males do fumo. Depois aderiu ao cigarro de palha, que ele mesmo produzia em casa. Apreciava muito fumar esses cigarros artesanais em Belo Horizonte, diz seu filho Luiz Carlos.

A matiné aos domingos começava às duas da tarde, para dar tempo aos alunos internos do Ginásio São Francisco chegarem. Com a medida, pelo menos cinquenta ingressos eram comprados e pagos antecipadamente pelo Frei-tesoureiro. A matiné no Vitória começava à uma hora. Pois, louco por futebol, o dono Sebastião Mendes, não perdia por nada jogos do Paraense, e assim tinha tempo sobrando para chegar ao estádio.

Quem frequentou o Imperial de forma assídua há de se lembrar das pessoas que lá trabalharam: eu por exemplo tenho ótimas lembranças do Sô Guilherme Marques, que operou os projetores por muitos e muitos anos. Ele era maquinista na fábrica de tecidos e fazia um bico à noite no cinema. Uma doce figura, que além de tudo ainda fazia as melhores “manivelas” para empinar papagaios. Sô Guilherme deixou vasta descendência em Pará de Minas. Um ajudante dele, o Pascoal, que depois assumiu a função, trabalhava na Reivax e jogava futebol no Guarani. Morava na Rua do Segredo. Com o Pascoal eu conseguia pedaços de fitas, que depois levava ao estúdio do Lélio Fotógrafo, para que ele revelasse e transformasse em fotos, que eu vendia para a molecada e salvava o dinheiro do ingresso. O próprio Tadinho atuava como bilheteiro, na ausência dele, cheguei a ver o filho  Luiz Carlos exercendo a função.  Quem dava manutenção nas cadeiras do cinema era o ferreiro e ferroviário Eugênio Paulino (Sô Genico), pai do ex-vereador José Paulino, do craque Cato, da Geralda e da Maria Amélia do Zé Cuca. Sô Genico foi também um dos maiores amigos do meu pai. A limpeza ficava por conta de uma senhora cujo nome me escapa, que também morava na Rua do Segredo e foi a mãe do Luizinho, que consertava panelas de pressão nas lojas do José Mizael (Chá de Panela) e do Geraldinho Papagaio, que se afogou enquanto fazia a limpeza,  na caixa d’água da residência de D. Marieta Quirino. O porteiro que marcou época no Imperial foi Constantino, que era também integrante do Comissariado de Menores da comarca. Conhecia todas as espertezas que menores de idade costumavam fazer para tentar burlar a vigilância e assistirem aos filmes próprios para maiores de dezoito anos. O rigoroso porteiro por isto mesmo não gozava de grande popularidade entre a rapaziada.

No começo do Imperial cinema operava os projetores um irmão de Tadinho, Geraldo Viegas, que inventou um sistema de roldanas fixas no teto, que permitia ao operador trabalhar sem interrupção as duas máquinas. Jair Caetano Ribeiro (Jair do sô Oscar) foi outro operador do cinema. Depois que Tadinho se aposentou, Jair assumiu a gerência da casa e administrava tudo.

Em 1976 Tadinho locou o cinema para uma exibidora de Sete Lagoas. O cinema encerrou suas atividades no final de 1981. Lembro-me, que pouco tempo depois (em 1982), eu publiquei um artigo intitulado “O ADEUS À CASA DAS ILUSÕES”, sobre o fechamento do Imperial. Naquela época, o Jornal Independente, que pertenceu ao jornalista Wilson de Almeida (Fraquito)  estava arrendado para o futuro prefeito Antonio Júlio e para o futuro vereador Iran Campolina. Na época eu estava vereador e dava uns pitacos no “Independente”, que foi importante para alavancar a candidatura de AntOnio Júlio, que acabou ganhando a eleição.

 

Luiz David

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