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AMARGO REGRESSO

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AMARGO REGRESSO

Um velho amigo e conterrâneo que não vinha a Pará de Minas há quase quarenta anos, esteve na cidade na última semana e permaneceu por alguns dias. Disse-me que ficou assustado com a Rua Direita e com o contraste que ela apresenta diariamente. Durante o dia, pujante e fogosa, com uma espécie de bagunça organizada com milhares de pessoas e veículos se misturando em toda a sua extensão. Após as dezenove horas o contraste, aquele silêncio e a paz de cemitério, que perduram até o alvorecer de um novo dia. “Se alguém atravessar a Rua Direita durante a noite, pelado e batendo num surdão, provavelmente não será incomodado, pois a rua está sempre e definitivamente deserta de transeuntes”, disse-me o velho amigo, nostálgico dos tempos em que éramos jovens e a Rua Direita tinha vida fervilhante também a noite. E como tinha. A Rua Direita era para os paraenses de Minas o que a “Broadway” representa para os novaiorquinos e nela tudo podia acontecer.

Da esquina com a Rua Tiradentes até a Praça da Matriz, eram muitos os bares e botecos para todo tipo de freguesia. Mas o pedaço mais animado sempre foi o que começa na esquina de Rua do Cruzeiro até a esquina de Dr. Higino. Além dos bares (Café Azul, Patinho’s, do Zé Gerônimo, Central, do Ary, do Centro Literário, do Roque… a Pizzaria Papillon), havia dois cinemas: o Vitória (do Tião Padeiro) e o Imperial (do Tadinho), um de cada lado da via. E os locais de dança: Centro Literário e Sindicato dos Têxteis, além da boate “El Faro”, com sua pista de vidro, a primeira do centro-oeste mineiro. Quem saía de casa para “causar” tinha de fazê-lo naqueles trezentos metros de pura agitação. E havia também o “footing”, aquele vai-e-vem de moças e rapazes, que invadia a pista e obrigava a interdição da rua ao tráfego de veículos. Por volta de dez, dez e meia da noite o footing acabava e o movimento se transferia para as imediações dos bares e dos locais de dança, geralmente os notívagos de carteirinha iam para casa só depois das quatro.

A cidade então tinha menos de quarenta mil habitantes, todos se conheciam e a vida era risonha e franca. Não se falava em drogas ilícitas e o máximo a que a juventude se permitia era consumir hectolitros de cuba-libre (os que podiam pagar pelo rum) ou cacha-cola (cachaça com coca-cola), mistura que o inesquecível Ney “Mato Fino” Pinto Coelho, grande consumidor, chamava de “samba em Berlim”.

O amigo ao qual me referi acima, disse-me que está pensando seriamente em voltar a viver em Pará de Minas, agora que os filhos já tomaram seu próprio rumo e a esposa topa fazer a viagem de volta. Pediu a minha opinião e eu dei: não volte, você está sentindo saudades de um Pará de Minas que não existe mais. Grande número de amigos já morreu; dentre os vivos são raros os que saem de casa para qualquer tipo de confraternização. Disse a ele para vir visitar a cidade sempre que a saudade bater, mas que continue onde está há quarenta anos.
A nossa Pará de Minas, aquela de nossa infância e juventude, sobrevive apenas em nossa memória, isto até que o “alemão malvado” bata em nossa porta e nos leve todas as lembranças.
Tudo o que vivemos foi muito bom enquanto durou.

Luiz David

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