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Biscoiteiras Sim Senhor

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BISCOITEIRAS SIM SENHOR (Com muita honra)

Inspirei-me para escrever este texto no site da Prefeitura de Pará de Minas “Participantes da Oficina das Biscoiteiras recebem certificados”. Eu tive pelo menos duas tias biscoiteiras afamadas; tias-avós, irmãs do meu avô Juca David. Foram elas Maria de São José David Gonçalves, a tia Ica, que até onde eu me lembro morou sempre na Rua da Boa Vista, na parte mais distante do centro da cidade, próximo à sede do AA -Alcoólicos Anônimos. Quando se casou e foi morar ali, o lugar era conhecido por “Lava-pés”. O marido de minha tia Ica foi José Gonçalves da Silva, mais conhecido por Juca do Generoso; os dois viveram cem anos: tia Ica alguns meses menos e o Juca alguns meses mais. Fato curioso, Juca do Generoso poucos dias depois de completar o seu centenário, com missa festiva na Igreja de Nossa Senhora de Fátima e presenças de dezenas de descendentes e amigos, certo dia resolveu não se levantar mais da cama. Por volta de umas dez horas da manhã a filha Maria de Lourdes foi ao quarto ver o que se passava, pois o pai sempre se levantava por volta de sete horas. Instado pela filha, Juca apenas respondeu: – não vou me levantar mais; só para ir ao banheiro e para tomar banho, até café e comida vou querer na cama. A filha assustada com a decisão perguntou-lhe: mas por quê isso pai? O senhor não está doente… Tranquilo como sempre o centenário macróbio (epa!!!) explicou: já fiz cem anos, aos duzentos não vou chegar, então vou esperar a morte deitado. Viver está me cansando muito. E assim foi, tio Juca da Ica não chegou aos 101. Tia Ica era especialista em biscoitos de “marca”, aqueles biscoitões, amarelões de tantos ovos que levavam, que derretiam na boca, com sal e açúcar na proporção exata. No meio do quintal um grande forno de barro ao lado de uma área coberta onde existia um fogão a lenha, mesas onde as massas eram preparadas. Nos anos 1960 construiu-se uma copa/cozinha bem grande no lugar. A freguesia tinha acesso por um portão que ficava ao lado da entrada da casa. A vizinhança também circulava por ali, para “xepar” um biscoitinho de polvilho que fosse, e beber naquela fonte de sabedoria que era a Tia Ica, que aliás não era de falar muito. E os amigos dos cinco filhos e das cinco filhas também apareciam sempre, assim como a legião dos sobrinhos diretos e sobrinhos-netos (onde me incluo). Se cada pessoa que entrasse por aquele portãozinho pagasse um tostão a cada vez, Tia Ica tinha ficado rica. O “tostão” era a menor unidade do dinheiro da época: RÉIS. Em 2021 um tostão equivaleria a um centavo.

Tia Bé (Isabel David) também chegou aos 99 anos embora os netos garantam que sim, ela quando partiu já tinha ultrapassado o seu centenário. Nunca se casou, mas teve dois filhos de um longo relacionamento com o fazendeiro Athaíde Valadares.. O fazendeiro por acaso era irmão do ainda acadêmico de Direito Benedito Valadares. Ele mesmo. Ataíde apesar de ter sido depois prefeito de Pitangui, gostava mesmo era da lida na fazenda. O “caso” ou romance, dele com minha tia-avó sempre foi um tema meio assim que tabu na família. Um segredo de polichinelo e como tal, conhecido por todos na cidade. Meus bisavós David Indalécio e Emerenciana, pais das biscoiteiras, receberam os dois netos que foram criados ali, ao lado da ferraria, na Rua do Serro, com fundo para o ribeirão Paciência. Enquanto os filhos homens de David Velho aprendiam os segredos da nobre arte de trabalhar o ferro; as moças Maria José (Maizé), Rosa, Isabel e Ica aprendiam a “ciência” do forno (de barro) e do fogão (a lenha) com minha bisa Emerenciana. A tia Isabel teve o seu romance e seus filhos sem nunca sair da casa dos pais e quando eles morreram (David Indalécio morreu em 1941; Emerenciana, ainda não consegui apurar a data de sua passagem) ela continuou morando na casa, que na minha infância era um recanto do paraíso. Tia Bé, além dos biscoitos tão bons quanto aqueles que a outra tia produzia, era também famosa pelos assados: frangos, leitóes, perus. Quando algum figurão ia promover um evento na cidade para dezenas de pessoas, antes ele passava pela casa da Rua do Serro para acertar o cardápio, digamos assim, com a tia. Muitos anos depois, quando o irmão de Athaide chegou ao governo do estado (1933/45) não se fazia festa no palácio sem que Isabel fosse convocada para supervisionar a cozinha. Isabel David entrou para história não apenas pela magia de seus temperos, assados e quitutes. Ela foi também fervorosa torcedora do Paraense E.C. desde os tempos em que o campo de futebol da cidade ficava na “Várzea” nas barrancas do Paciência. O filho Antonio Walter era um habilidoso meia-atacante do Paraense e os sobrinhos Davizinho (filho de seu irmão Antonio); Silvio e Luiz (filhos de sua irmã Ica), Wanderlei e Onofre (filhos de seu irmão Maximiano) jogavam no time. Ai ai ai do juiz se expulsasse de campo qualquer um deles, ou se prejudicasse o Paraense com o apito. Tia Isabel chegava a invadir o gramado para defender a parentalha e a honra do clube. Lembro-me bem do jogo do Paraense valendo pelo campeonato mineiro de profissionais de 1961, em Itaúna, e a tia no meio da torcida patafufa ao lado de outra veteraníssima torcedora, dona Conceição Teodoro (Ção do Chuim), mãe de Coteco, um genial meia-ponta-de-lança. Cada uma com a sua sombrinha, instrumento que usavam para bater na cabeça de juiz ladrão e de torcedores rivais mais folgados.

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David Indalécio da Silva e sua esposa Emerenciana, foram meus bisavós paternos. Eles foram os pais de Maria José (Maizé), Rosa, Isabel (Bé) e Ica (Maria de São José) e dos meninos (rsrsrs) José Viana Rodrigues (Juca David), João, Maximiano (Ciano) e Antonio. Todas e todos com o sobrenome “David”. O patriarca Indalécio, sabe-se lá porque, resolveu transformar em sobrenome o seu próprio nome, dai surgindo a família DAVID, de Pará de Minas. Até então, o meu povo assinava “Rodrigues da Silva”, e há registros de antepassados nossos no Patafufo na virá do XXVIII para o XIX.No mais é como diz o meu amigo ítalo/brasileiro Miguel Grassi: O que nuca faltou nos David foi mulher bonita e craques do futebol. Eu que não sou bobo nem nada, não vou ficar discutindo com o Miguelão. (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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