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CHUVA DE VERÃO

CHUVA DE VERÃO

No curso ginasial, já adulto, tive um grande professor, de quem mais tarde tornei-me amigo: professor Hélio Fábio Bergo Torres, advogado, promotor de Justiça “ad-hoc”, muitas vezes irônico, mas sempre um “gentleman”, apreciador de cerveja que bebia diariamente e de uma boa pinga da roça. Lecionava matérias diversas pois era dotado de grande cultura e conhecimento; na minha classe ensinava o idioma francês e OSPB -Organização Social e Política do Brasil, sendo que esta última matéria eu nunca entendi por que foi retirada do currículo escolar, Primeiro mudaram o nome, pois se chamava “Educação Moral e Cívica”. Eu acredito que as coisas no Brasil começaram a degringolar (obrigado Kafunga) depois que acabaram com as aulas M & C. Mas, mestre Hélio nas aulas de francês ensinava o básico, nem a escola ia exigir que alunos que trabalhavam até dez horas por dia – e por isto estudavam a noite, saíssem por aí cantando a “Marselhesa”. Eu diria que aprendemos bem declamar os verbos. E ler alguma coisa que aparecesse no idioma de Michel Platini, que naqueles anos, início dos anos 1970, não passava de um aspirante nas categorias de base da seleção francesa. Ao final do bimestre o professor doutor Hélio compartilhava com a classe trinta ou quarenta frases e avisava: dez destas cairão na prova, cada questão valendo um ponto. Eram frases tiradas do cotidiano de um francês comum, o que nos obrigava a além de decorar as frases, aprender alguma coisa sobre a cultura gaulesa (opá). Decorei dezenas de frases em francês; naquele tempo se eu amanhecesse em Paris, de fome não morreria. Eu sabia pedir pão, água, um patezinho que ninguém é de ferro ou um vinho de boa qualidade. Mas dentre todas as frases que decorei, uma delas está gravada em minha memória ainda hoje. Muitos anos depois, sempre que eu me encontrava com o venerando (e venerado) mestre já aposentado, quase sempre num bar, quando ele bebericava uma das quatro cervejas diárias como de costume, eu o saudava repetindo a frase decorada muitos anos antes: “cetait une plue d’eté” e o mestre a completava: -“une averse”. Traduzindo: era uma chuva de verão: uma pancada. Como esta que acaba de despencar sobre Paris de Minas (eu nunca ia perder esta oportunidade de chamar meu “Parazinho” querido de Paris, pois é uma de minhas brincadeiras favoritas). Nunca fui a Paris mas amigos meus que já foram e conhecem esta minha mania de chamar o Pará de Paris disseram-me que para o Pará de Minas chegar perto de Paris o nosso Paciência terá de crescer muito, para pelo menos chegar perto do Sena, aquele riozinho que atravessa a capital francesa. Prefiro ficar com Vânia Navarro, amiga e colega de trabalho por mais de vinte anos, que há anos passa a metade do outono em Paris. Vânia que inventou esta moda de chamar Pará de “Parrí”, que ela pratica caprichando no biquinho.

Voltando à escola e ao professor Hélio Bergo, além de francês e OSPB ele ainda ensinava História e caligrafia. Isto mesmo, caligrafia era matéria curricular, por isto, até a minha geração todo mundo tem ou teve letra boa. Depois de nós instalou-se o caos com o surgimento dessa garrancharia ilegível. Naquele tempo letra chamava letra mesmo e não fonte, como nos dias atuais, quando o sujeito clica numa tecla e escolhe que tipo de letra/fonte vai usar no texto do facebook.

Fico pensando se ainda hoje existem professores com o estofo intelectual do saudoso professor Hélio Fábio Bergo Torres. Sinceramente, eu ouço dizer que atualmente por aqui em Paris de Minas, apenas um se aproxima do Monsieur Bergo. Justamente um que foi dispensado por ser meio tipo James Stewart, ator protagonista do filme “O Homem que sabia demais”. Acredito que nos dias que correm Dr. Hélio também não teria muitas chances. Muitas vezes a sabedoria alheia incomoda os medíocres que se julgam os reis da cocada preta

Luiz David

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