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Crônicas da pandemia

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GOLEIROS

Ótelo Caçador, famoso cronista e chargista futebolístico, carioca de nascimento, foi também um frasista notável. É dele a famosa frase: “o goleiro é uma criatura tão rejeitada que nem grama nasce no lugar onde ele pisa”. Claro que Otelo se referia aos gramados dos anos 1940/1950/1960, quando sob o travessão era visível uma porção em forma de meia-lua do campo de jogo. Nelson Rodrigues, o maior dos cronistas esportivos brasileiros chamava de “zona do agrião” aquele pedaço de terra  cercado grama por todos os lados. Ficava assim careca de tanto que os goleiros raspavam as chuteiras ali. Alguns goleiros além de matar a grama costumavam também riscar com os calcanhares  uma linha perpendicular á meta até a marca do pênalte, alguns mais caprichosos estendiam esta linha até à meia-lua. Edgar, famoso goleiro daqueles anos românticos do futebol, com passagem pelo Paraense, América MG, Atlético idem, Botafogo RJ e Palmeiras SP disse-me certa vez que aquelas marcas funcionavam como bússolas para os goleiros; e que raramente as marcas pré-existentes riscadas noutros jogos, por outros goleiros, serviam de parâmetro para a partida do dia. Por isto as grandes áreas de antigamente eram tão riscadas e cheias de buracos.

Neste Século 21 está antemão condenado o goleiro que atuar paradão, muitas vezes encostado nas traves, o autêntico “expectador privilegiado da partida” como adoravam dizer os comentaristas  esportivos. Eu acredito que começou com o colombiano Higuita este tipo de goleiro que participa do jogo como se fosse um jogador de linha. Higuita não só sabia sair jogando como foi fenomenal na defesa de sua meta. Um maluco que deu certo.                                         Em Pará  de Minas tivemos o Pedrinho Quipa (de quíper=goleiro) que mal sabia chutar, mas parecia um pitibul protegendo a sua casinha. Bola cruzada na área ele logo gritava: é minha! E saia socando o que estivesse pela frente, geralmente a cabeça de um atacante adversário. Nozito, saudoso atacante do nosso futebol, dizia que todas as vezes que atuava  contra Pedro Quipa saía de campo com a cabeça inchada de tantos socos que levava. Eram tempos em existia uma regra não escrita que dizia: a pequena área é do goleiro; uma das dezenas de regras com o número 18, ou seja, regras que jamais estiveram no livro da ‘International Board’ que como todos sabem, é formada por sábios que guardam o precioso livrinho que tem apenas 17 regras. Imutável desde 1864, quando os ingleses formataram o futebol como é jogado ainda hoje.

Dois goleiros famosos no Brasil, sempre citados entre os melhores do mundo, foram Gilmar (dos Santos Neves) e (Carlos) Castilho. Ficavam meses na reserva em seus clubes: Castilho no Fluminense (RJ) alisava banco para o incrível Veludo; Gilmar da mesma forma no Corinthians, era o reserva de Cabeção. Mas quando a seleção brasileira era convocada os dois goleiros chamados eram sempre os dois. Foram bicampeões do Mundo (1958  e 1962, com Castilho sempre na reserva. No Fluminense Castilho costumava entrar quase sempre quando Veludo aprontava alguma fora de campo, geralmente episódios ligados à boemia. Então Castilho assumia a camisa de nº 1 do tricolor carioca e fechava a meta. Com o tempo e com Veludo brilhando mais fora dos gramados Castilho assenhorou-se da titularidade. Foi quando um português dono de uma leiteria em Copacabana acertou o milhar várias vezes seguidas no jogo do bicho, desde então o adjetivo “sortudo” ganhou o sinônimo “leiteiro”.  E Castilho que raramente passava um jogo sem que suas traves fossem bombardeadas pelo menos uma vez pelos adversários, ganhou a alcunha de leiteiro. Nos clássicos contra Flamengo, Vasco, Botafogo, América e Bangu (acreditem: Bangu e América eram grandes naquele tempo) Castilho abusava da sorte conduzindo o seu time a vitorias memoráveis ou salvando-o de derrotas acachapantes; então no dia seguinte os cadernos esportivos abriam manchetes mais ou menos assim: “Castilho abriu a leiteria e o Flu foi campeão”;  ou “Com a leiteria aberta Castilho evita goleada do Flamengo”.

Mencionei o América do Rio no parágrafo acima e lembrei-me de um goleiro americano, que fazia o estilo folclórico: Pompéia. Folclórico mas pegava pará caramba e voava sob a meta. Na época o modelo de avião usado na ponte aérea Rio /São Paulo era o ‘Constellation’, então numa grande sacada um publicitário criou uma peça para a companhia aérea que explorava a ponte aérea: um desenho caracterizando Pompéia num de seus vôos, com os compridos braços bem esticados e uma frase ao lado: Voa o constellation. E ainda tinha o locutor esportivo Waldir Amaral cuja voz ribombava no Maracanã e no Brasil a cada defesa de Pompéia: vôa o constellation, berrava o ótimo Waldir Amaral, para delírio da galera. E o Ameriquinha, segundo time de todos os torcedores do Rio, acabou campeão estadual em 1960, quando o Rio de Janeiro se tornou uma cidade-estado com a transferência da capital para Brasília.

No Pará de Minas grandes goleiros brilharam no decorrer dos anos, desde os primórdios do ludopédio na cidade. Os primeiros foram Bimba Duarte e Antonio David no nosso primeiro time: o Americano. Depois, já no Paraense: João Sanfona e Zé do Zico; Jesus Português e Fernandão; Cocão e Pedro Quipa; Marquinhos do Vino e Bolão Teodoro; Pedrinho Pelanca e Filipinho; Traque e seu primo Fernando Boiadeiro; Maurício Bode e Orlando Preto; Hélio Márcioe Kleber; Bichinho e seus irmãos Décio e Paulão, filhos do “Zé do Pedro”; Careca e Dirceu; Aranha  e Nandinho; Magdo (Du) e Mirim; os irmãos Eugênio Galvão e Geraldo Gás; Betinho Cocada e Tirézio; Ricardo Binder e seu filho Rômulo (campeão mineiro pelo Atlético); Flávio Pezão, Geovani e Edimilson (bicampeão mineiro sub-20 pelo Cruzeiro); Rodrigo Porquinho e Amarildo; Paulinho do Cristo e Dunga; Rafael Carioca e Eugênio Mansur. Não vou arriscar mencionando nomes de arqueiros deste Século, pois desde 2008 não acompanho o nosso futebol amador.

No anos de ouro (1970 a 1980) do Paraminense foram três os goleiros do time; Geraldo Gás, Edson Borracha e Eugênio Galvão. Os titulares Geraldo e Borracha combinavam entre si quem jogaria no domingo seguinte;                de  stand by estava sempre Eugênio; e sempre sobrava para ele, pois os titulares não raro se atrasavam em compromissos etílicos e lá ia o “Crioulo” para a fogueira, mas sempre se saiu bem.

Os goleiros costumam mesmo ser diferenciados, até a prosa não é a mesma. De vez em quando eu me vejo no meio de um bando deles, quase sempre Betinho Cocada, Lali (que não mencionei acima mas é nome fundamental nesta lista), Borracha, Do Gás, Tirézio, Bichinho, e fico só atiçando perguntando quem foi melhor. O que tem ótimas histórias é Edson Borracha. Certa vez Edson Dedão, campeão mineiro pelo Siderúrgica em 1964, levou Edson Borracha para fazer testes no América Mineiro, onde era o auxiliar técnico do grande treinador Orlando Fantoni.   No esplendor de seus 17/18 anos Borracha seguiu para BH com a mesma pachorra de sempre. Participou de três coletivos, durante os quais causava profunda irritação no professor  Fantoni, que os jogadores chamavam de titio.    O problema  com  Edson Borracha é que já em 1971 ele era um arqueiro moderno, pelos pelos padrões do Século 21: sabia e gostava de sair jogando com os pés, uma heresia para os treinadores  daquele tempo, principalmente para titio Orlando, que no terceiro treino expulsou Borracha de campo; deixando numa saia justa nosso bom Edson Dedão que de quebra levou uma bronca do superior: pô Edson, como é que você me traz para fazer teste um goleiro desses, que nem sabe agarrar a bola com a mão. Na semana seguinte Borracha participou de um concurso  do Banco do Brasil, foi aprovado e foi ser bancário na vida. Foi também o primeiro goleiro brasileiro a usar camisas de mangas curtas, a mesma com que ia para o campo  e recebia o número 1 feito de esparadrapo; até que ficasse pronta a camisa de mangas curtas que o clube mandou fazer para ele. Nos anais do futebol também não há registro de atleta e ídolo de um time pular o muro  do estádio onde daí a alguns minutos seria uma das atrações da partida.

Quem quiser ouvir uma boa resenha de futebol é só chamar Geraldo Gás e Edson Borracha; a prosa pode durar alguns dias. E assim eu consegui começar e terminar estas mal traçadas linhas falando de um tema que está “bombando” nas rodas e nas redes: o goleiro que sabe jogar com os pés. (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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