1

Crônicas da Pandemia Covid 19 – Leituras

FacebookTwitterGoogle+

Leituras

Sou um leitor ávido desde pelo menos os sete anos de idade quando aprendi a ler na minha saudosa escola “Grupo Escolar Geraldo Jardim Linhares”, em Belo Horizonte, bem na divisa com Contagem. O lugar se chamava Vila Magnesita e em 2020 é conhecido como Bairro Madre Gertrudes, fica a duzentos metros da Avenida Amazonas, logo acima do viaduto. A escola está lá ainda hoje. Era de madeira e há muitos anos foi reconstruída e ampliada em alvenaria. Minha primeira professora foi a senhorita Matilde Saud, jovem, devia ter uns vinte anos, linda, branquinha de olhos claros, azuis, se me lembro bem. Nunca a esqueci, recentemente pesquisei sobre ela na internet e um parente, acho que filho dela me informou que tinha falecido recentemente. Foi dona Matilde quem me ensinou o beabá, como juntar as letras e formar palavras. Ensinou-me também os primeiros números, a taboada gravada para sempre: 1  X 1 = 1  ; 2  X  2  = 4  até   o 9  X  9 =81  e nove x nada = 0.  Não tive problemas em ser promovido ao 2º ano, onde encontrei outra mestra estupenda: dona Laura Caciquinho Pacheco, morena, cabelos grisalhos, devia ter uns trinta anos de idade, bonitona, sertaneja das barrancas do São Francisco, nascida em Januária. Minha amiga  Geracina, a Geré,  professora em Pará de Minas, que também nasceu e foi criada em Januária contou-me que conheceu dona Laura e a toda família dela. Nunca fui a Januária, mas gosto demais da cidade pelo tanto que dona Laura nos contava sobre a sua terrinha, naquele sotaque bão de se ouvir que os norte-mineiros têm. Com dona Laura eu aprendi a usar as palavras formando frases, sentenças e produzir pequenos textos. E todos os dias ela passava um ditado, matéria que eu nem sei se existe mais no currículo, mas espero que sim.  De repente, no meio de uma aula de aritmética ela ordenava: -alunos peguem o caderno de ‘língua pátria’ e vamos a um ditado. Alguns alunos e alunas não gostavam, pois não tinham a letra exatamente  bonita, neste caso era obrigatório possuir um caderno de caligrafia para melhorar os garranchos ilegíveis. Eu fui um desses alunos de letra feia, que consegui melhorar com o tempo mas que nunca se tornou um primor. Mas gostava dos ditados que começaram pequenos e no fim do ano podiam chegar á metade página.

No terceiro ano tivemos, eu e a minha turma, uma surpresa agradabilíssima; na sala de aula esperava por nós a professora do ano anterior, dona Laura, com aquele sorriso amável e um batonzinho discreto nos lábios como ela gostava de usar  Assim que passou a euforia  pelo reencontro, após todos nós sermos abraçados pela mestra inesquecível ela apenas ordenou: -alunos peguem o caderno de língua pátria  e  façam uma ‘composição’  narrando como  foram as férias de vocês, se viajaram, se ficaram em casa mesmo, se jogaram futebol, ou brincaram de casinha (as meninas), contem tudo. Vocês têm até até a hora do recreio para escrever. O título da composição deve ser ‘Minhas Férias”. O tempo era longo e dava para escrever muito.

Dois dias antes eu tinha retornado das férias, as minhas primeiras longe dos meus pais e irmãos. Logo na primeira semana de dezembro minha mãe me levou até o ponto de ônibus da Avenida Amazonas e me colocou dentro da jardineira BH / Pará de Minas e disse ao motorista: – ó Tininho, entregue meu menino na casa da Maria minha irmã que ele vai passar as férias lá. Tininho era o senhor Izaltino Aguiar, que depois largou a linha de ônibus e se tornou taxista. Sempre morou na Rua Nossa Senhora das Graças, na primeira casa á esquerda de quem sobe, casado com dona Maria e pai do João Aguiar, da Elza e da Lady. Um neto dele herdou-lhe o nome, o dentista Izo-Izaltino. Minha família e o povo do Tininho sempre foram vizinhos e cultivaram ao longo das décadas  uma boa amizade. Os netos dele são todos meus amigos na vida e no facebook, que é ótimo para unir as pessoas.                                                  Minha tia Maria  nasceu e foi criada na casa que depois de casada o marido dela Walfrido Varela, marceneiro das fábricas do coronel Torquato, comprou  dos demais herdeiros dos  meus avós Emídio de Melo e Zica.  Ela (minha tia) já sabia que eu viria na jardineira e estava esperando por mim no alpendre uns dois metros acima do nível da rua Direita, casa  número 660, que está de pé ainda hoje e abriga um templo mórmon. Duas horas e meia depois de sair de Belo Horizonte a jardineira parou em frente ao portão da residência, minha tia desceu a escadaria para me receber e Tininho disse a ela: – Ô Maria está entregue o menino do Zé Negrito, a passagem foi  paga direitinho e ele agora é seu. Eu tinha muito para contar sobre as férias e escrevi logo umas três páginas, quando tocou o sinal para o recreio eu entreguei o resultado inacabado, com reticência que eu tinha aprendido a usar no ano anterior.  Dona Laura não acreditou que eu tivesse vivido aquilo tudo em apenas dois meses e eu sempre metido a besta respondi que tinha descrito só metade da farra. Ao final ela mandou que eu lesse tudo para os colegas, de pé, de frente para a classe. A cada passagem jocosa narrada por um menino de nove anos, as gargalhadas e brincadeiras foram gerais. Mas valeu a pena.  (Sobre férias escolares passadas em Pará de Minas eu já escrevi uma crônica que está disponivel no meu blog  –  http://www.estamosassim.com.br/pastel-com-pimenta/).

Quando eu cheguei ao quarto ano, em 1958, conheci a minha terceira professora, dona Maria Duarte Porto, que não era de muita conversa e seguia o protocolo do bem ensinar. Pelo sobrenome eu a imagino natural de uma das cidades, Maravilhas ou Papagaios, onde essas famílias ‘Duarte Porto’  são numerosas. Mas pode ser que não. No final do ano recebi o canudo (meu único até hoje) e saí para o abraço. Em fevereiro de 1959 meu pai resolveu trazer a família de volta ao Pará de Minas com dois novos membros: minha irmã Lílian e meu mano caçula, Lésio, que nasceram em casa na Vila Magnesita (BH) mas foram registrados no cartório Nogueira, em Contagem, que funcionava na Praça Louis Ensch onde a Avenida Amazonas troca o nome para  Avenida Cardeal Eugênio Pacelli, o nome do Papa  que reinava na época (Pio XII). O cartório ficava a uns trezentos metros de nossa casa na vila, mas meus irmãos para registro são contagenses. Um fato curioso: meu irmão Lésio demorou alguns dias para ser registrado, mas em casa nós todos nos referíamos a ele e fazíamos bilu bilu nas suas bochechas chamando-o ‘Laércio’, até o dia em que nosso pai chegou e anunciou: – Laércio a partir de hoje  se chama Lésio, pois foi registrado assim. Mas por bom tempo os irmãos e vizinhos ainda o chamaram de Laércio.

Meu pai José David Neto, o Negrito, era ferreiro de profissão e transferiu aos filhos e á minha mãe o hábito da leitura. Ele nunca voltava para casa ao final da jornada, sem um jornal ou uma revista, que no dia seguinte era lido por todos os filhos que já dominavam as letras e pela minha mãe. Podia ser o ‘Diário da Tarde’, ou o ‘Estado de Minas’ e uma vez por semana o célebre semanário ‘O Debate’ que foi uma espécie de avô do lendário ‘Pasquim’, hebdomadário carioca, segundo um de seus fundadores o cartunista Ziraldo, mineiro de Caratinga, que iniciou sua carreira em Belo Horizonte nos anos 1950, fazendo charges para jornais da capital. Vez ou outra meu pai trazia para casa um exemplar da revista X9, que não tinha gravuras nem fotos, apenas alguns contos policiais ou de suspense, histórias passadas em cidades norte-americanas: Chicago, Nova York, Los Ângeles, quase sempre. Era uma leitura muito densa e imprópria para menores de dezoito anos e dona Zinha se esforçava para esconder a revista até que meu pai a lesse por completo para então queimá-la. Eu revirava a casa até encontrar o exemplar em voga que lia escondido não entendia nada daquelas histórias entediantes. Muitos anos depois, quando morei no Edificio Maletta descobri num daqueles sebos que existiam por lá, uma coleção com dezenas de exemplares da X9, comprei muitos deles e os li vorazmente e pude constatar a que nível tinha chegado a bandidagem não apenas nos EUA como no Brasil. Os golpes mirabolantes daqueles anos cinquenta no final do século não passariam de travessuras de principiantes.

Certo dia o Diário da Tarde trouxe em manchete: ” Matou o amigo por causa de uma letra de 30 mil cruzeiros”; eu com meus nove/dez anos perguntei ao meu pai como é que podia um sujeito matar outro por causa de uma letra, mas que letra era essa pai?  E meu pai me explicou direitinho: -letra pode ser chamada também de nota promissória. Um sujeito pede dinheiro emprestado e assina uma letra que fica como garantia  a quem emprestou, que pode ser também um banco. Geralmente quem empresta exige que o tomador dê um avalista, caso o emprestador não receba daquele que pediu emprestado cobra do avalista. No caso da manchete do DT quem matou foi o avalista que se viu obrigado a honrar a assinatura dada na letra do ‘amigo’ que resolveu dar o calote no emprestador.  O assassino foi até o bar que o caloteiro costumava frequentar e quando este chegou foi recebido com quatro tiros no peito. O assassino em seguida se entregou a um policial que estava presente. Muitos anos depois a ‘letra’ ou nota promissória passou a ser conhecida pelo apelido ‘papagaio’.  Que depois eu soube da razão, é que papagaios domésticos estão sempre pendurados nalgum poleiro, daí veio novo apelido que é o popular ‘pindura’ comum nos botecos e vendas da periferia ou em cidades do interior. Daí que letra, promissória, papagaio e pindura são sinônimas. Lendo e aprendendo.

Por este tempo a leitura mais popular entre moças eram as fotonovelas, as revistas mais lidas eram a ‘Capricho’ , ‘Sétimo Céu’  e a ‘Ilusão’, minhas irmãs liam as três; , eu como lia tudo o que me caía às mãos ia no embalo e devorava todas. Certa vez li uma fotonovela passada em Varsóvia (Polônia) durante a 2ª  Guerra Mundial que me emocionou bastante, pela clareza das fotos mostrando a cidade destruída pelos nazistas, as belas avenidas e parques da capital polonesa destroçadas. Ao mesmo tempo eu devorava as semanais ´’Revista do Esporte’, a ‘ Manchete Esportiva” e a paulistana ‘Gazeta Esportiva’, todas elas eram disputadas a tapa pelos aficionados do nobre esporte bretão (epa!!!!) como diziam os locutores esportivos da época. O distribuidor de jornais e revistas em Pará de Minas, Hélio de Melo Mendonça, leia-se Lojas Avenida, insistia junto ás editoras para que aumentassem os repasses, mas em vão; então a solução para os mais desesperados era comprar e pagar á vista pelas dez ou quinze edições futuras. Eu lia também todos os gibis: Roy Rogers,  Gene Autry, Hopalong Cassidy, Tarzan, Flash Gordon, Capitão Marvel, todos os gibis do Valdísnei (Walt Disney) e tinha o  Zorro, campeão de audiência (o Zorro tinha um parceiro índio de nome Tonto; na adolescência quando eu meus amigos começamos a pegar uns porres, os que se embebedavam mais, ou seja ficavam tontos,  eram chamados de ‘amigo do Zorro’ para despistar a  vigilância dos pais. A gíria permanece entre os meus coevos: amigo do Zorro…). O ponto alto da semana para os leitores de gibis acontecia nas portas dos cinemas Vitória e Imperial antes das matinées dominicais: no Vitória á uma da tarde e no Imperial ás duas. Dava pra fazer o troca-troca nos dois cinemas e renovar o estoque de revistas para a semana. Líamos tanto, que eu nem sei como sobrava tempo para estudar. Por fim eu me rendi e deixei o curso ginasial na Escola de Comércio  da qual fiquei afastado por dez anos. Em vez de ir ás aulas noturnas eu ia ao cinema, depois em casa lia os gibis até a meia-noite, sob protestos de minha mãe, que não dormia enquanto percebesse uma lâmpada acesa em casa.

Pará de Minas era uma cidade de leitores: as revistas se esgotavam na única banca (uma enorme loja na esquina de Rua Direita com Coronel João Alves) mesmo antes de chegarem e os jornais também. Todos os diários eram  de Belo Horizonte: o ‘Estado de Minas’, o ‘Diário de Minas’ , o ‘Diário Católico’ todos com centenas de assinantes. O Diário Católico pertencia á arquidiocese de Belo Horizonte e os padres incentivavam os fiéis a fazerem a assinatura do jornal. O Diário Católico sobreviveu até o inicio do anos 1990, quando não era mais propriedade da arquidiocese e teve seu ‘the end’  quando foi dirigido pelo paraminense advogado e jornalista Cristiano Ferreira e Melo e pelo ex-presidente do Atlético Afonso Paulino.                                                                                                                                   O Diário de Minas foi  fundado nos anos 1950 por políticos da UDN para combater os governadores Juscelino Kubitschek  e Bias Fortes, ambos do PSD (o antigo, o antigo). A redação do Diário de Minas ficava na Praça Raul Soares, bem ao lado do Cinema Candelária. Não sei por que na casa de meus tios Geraldo Teodoro e Quinha o jornal que chegava era o Diário de Minas, então eu lia em casa o Estado de Minas  e na casa de meus tios eu lia o principal concorrente. Aliás, tio Geraldo Teodoro lia muito e colocava os nove filhos para ler também. Foi na casa da Rua Dr. Higino que aprendi a ler textos longos com poucas  fotos ou gravuras numa revista interessante, que circula ainda hoje, ” Seleções do Reader’s  Digest’ , mensal, que li por anos  a fio, editada nos EUA, com versão em português. Por algum tempo eu entreguei o Estado de Minas na casa dos assinantes; de bicicleta diga-se de passagem, eram dezenas de exemplares de assinantes espalhados pelos quatro cantos da cidade. Muitos assinantes moradores da região central buscavam o exemplar na loja, tal era a pressa que tinham pela informação. A remessa de jornais saía de BH no primeiro ônibus do dia, ás seis horas da manhã. Antes de oito horas o busão já estava na estação rodoviária, a primeira de todas, que funcionava onde em 2020 está Biblioteca Pública Municipal.   O jornaleiro ‘Possante” já estava por lá esperando os pacotes de jornais que eram levados até a loja no quarteirão acima, que depois de encadernados eram repassado ao entregador, que por algum tempo   fui eu. O bairro Nossa Senhora das Graças era o que mais tinha assinantes e todas as ruas tinham vários deles. Era um trabalho em ziguezague até chegar ao bar ‘Cantinho do Silêncio” bem ao lado da igreja de Nossa Senhora das Graças. O bar era propriedade do senhor Dico Ribeiro e os filhos Juraci (Serrinha) e Derci (Cutica) ajudavam a tocá-lo junto ás meninas; o Darcy era muito novinho e não dava muita sopa pelo bar. Quando a entrega atrasava por uns minutos que fosse Derci, o Cutica, não perdoava e enchia o saco do entregador. Se fosse eu, o mandava para algum lugar impublicável e ficava por isto mesmo, nós éramos parceiros no Continental  F.C. e nos tratávamos por palavrões bem cabeludos. Serrinha, Cutica e Darcy foram alguns dos principais futebolistas da cidade naquela geração. Sobre o bar Cantinho do Silêncio devo informar que o nome surgiu da mania de muitas pessoas ouvirem as missas a partis de suas portas; a expressão correta é ‘ouvir a missa’ pois do bar não dava para enxergar o altar, mas dava para ouvir, então o sô Dico estava sempre pedindo silêncio e o bar ficou sendo o cantinho do dito cujo, com direito a placa na fachada.                                                                                                                                                                                                    No outro extremo da cidade o assinante mais distante era a Cooperativa de Leite – Copará atualmente, mas que o povo chamava de Fábrica Escola. Pelos lados do Azambeque (atualmente Bairro Dom Bosco) tinha um assinante cujo nome me falta á memória que morava nas grimpas da Rua 77, que depois passou a se chamar Rua Joaquim Lúcio. No sentido norte da cidade, o limite era a então recém fundada Siderúrgica Alterosa. No sentido Pitangui o último assinante  era a ‘fábrica do sítio’ ou Cia. de Fiação e Tecelagem Pará de Minas, atualmente ‘Coopertêxtil’. Era dura a vida de entregador de jornais da Loja Avenida e nenhum deles suportou o tranco por muito tempo. Pelo menos um desses trabalhadores se tornou personagem ilustre, ou uma celebridade como queiram, apesar de ter sido sempre um sujeito simples e absolutamente afável: Geraldinho, que se tornou dono do mais famoso bar da cidade, que leva o nome dele. O mais popular dos jornaleiros sem dúvida foi Possante, que muitos anos depois ganhou sozinho na Loteria Esportiva um prêmio equivalente a um milhão e meio de dólares, que botou fora em menos de três anos, graças á má orientação de “amigos” . Encontro-me muito com ele no centro da cidade e conversamos sobre os velhos tempo. Lembro-me de quanto tirei a minha carteira de habilitação e tínhamos de ir a Itaúna para fazer o exame de rua ou direção. Possante foi tirar a dele no mesmo dia mas eu não sabia, logo depois de ser premiado e virar um ‘ novo rico’. Nos encontramos no local do exame e entabulamos uma prosa de amigos; ele fez o exame antes de mim e foi aprovado; em seguida chegou a minha vez e fui aprovado também, mesmo não tendo me preparado e ter sido sempre um roda dura. Eu acredito desde então que o examinador que tinha visto os altos papos entre  Popó e eu supôs que eu estivesse no pacote adredemente acertado por alguém. Vai saber, isto foi em 1980.

Quando eu estive em meu primeiro emprego na Mobiliadora Popular, meu patrão assinava o jornal “Lar Católico’ editado pela Diocese de Juiz de Fora. O jornal tinha centenas de assinantes em Pará de Minas porque estava bispo naquela diocese Dom Geraldo Maria de Morais Penido ,ex-vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, a única de Pará de Minas, daí o sucesso do Lar Católico entre nós paraenses de Minas. Eu lia e relia o “Lar’ que era um jornal bem interessante. Ele trazia todas as semanas a publicidade de uma revista que circulava na “Manchester Mineira” os juizforanos adoravam que sua cidade fosse chamada assim; a revista se chamava ‘Torre de Marfim” e trazia toda a programação dos muitos cinemas da cidade. Eu, um cinéfilo em formação, resolvi fazer uma assinatura da tal revista que tinha preço bem acessível, que mal pagava as despesas dos correios, em 2020 talvez custasse quinze ou vinte reais e eu menor de idade ganhava meio salário mínimo no emprego; dava para fazer a assinatura.. Aliás vou fazer um ‘em tempo’ para informar que o Lar Católico também era entregue aos assinantes pelos correios.  Quando chegou o primeiro exemplar, entregue na loja onde eu trabalhava eu me senti o bam bam bam. Com treze anos de idade e recebendo  correspondência, uma revista de Juiz de Fora. a Torre de Marfim tinha o formato de uma folha de papel A4 dobrada ao meio no sentido vertical. Tinha entre vinte e trinta páginas com a programação   dos cinemas e a análise crítica dos filmes com a avaliação moral da Igreja, se o filme era apropriado ou não aos fiéis católicos. Era uma revista muito interessante, mas existia um problema; enquanto em Pará de Minas os filmes lançados no Brasil ou mesmo os nacionais chegavam ás nossa telas três ou quatro anos mais tarde, em Juiz de Fora eles eram lançados simultaneamente ás cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Na maioria dos lançamentos os filmes passavam primeiro em Juiz de Fora e de lá os latões contendo as cópias eram enviados á capital pelos ônibus da Cometa e os belorizontinos achavam aquilo uma humilhação, mas era assim. Eu recebi a Torre de Marfim por alguns anos, até mesmo depois de suspender a assinatura pois estava indo para Belo Horizonte. Muitos anos depois, em 2015 estive em Juiz de Fora fazendo pesquisas sobre um conterrâneo nosso (que é outro assunto) entrando numa livraria topei com um livro cujo título é “História do cineclubismo em Juiz de Fora”, onde o autor escreve muito sobre a revista Torre de Marfim, que foi fundada por ninguém menos do que Murilio Hingel, que foi Ministro da Educação do presidente Itamar Franco. No final dos anos 1950 Murilio era um jovem ligado á Igreja e junto com outros amigos que formaram trinta anos depois a famosa ‘república do pão de queijo’, expressão jocosa criada pelo jornal Folha de São Paulo com a intenção de tirar um sarro na mineirada então no Poder. Mas o efeito deu-se ao contrário   e apenas serviu para aumentar a popularidade do topetudo Itamar. Na crítica aos filmes, o autor ao final manifestava a opinião da censura católica: ‘filme de ação próprio para maiores de 14 anos’, ou ‘comédia interessante recomendável a toda a família’; mas quando era um filme com cenas picantes, muitos amassos  e beijos mil o conselho era: inconveniente para maiores de 18 anos. Curiosamente os filmes censurados sempre foram os campeões de bilheteria  em Juiz de Fora. Ou seja. pouca gente ligava para a censura e onde aparecia escrito ‘não vá’  o leitor da Torre de Marfim entendia “vá correndo’.

Na adolescência eu lia sempre as revistas semanais ‘Cruzeiro’, ‘Manchete’ e ‘Fatos e Fotos” do mesmo dono da Manchete o russo Adolpho Bloch. Devorava também as revistas esportivas ‘Manchete Esportiva”, ‘Revista do Esporte’ e a paulista ‘Gazeta Esportiva” cujo carro chefe era a Corrida São Silvestre, que era disputada na noite da virada do ano, daí o hábito da pauliceia   desvairada passar o réveillon na avenida há quase cem anos, quando a prova foi disputada pela primeira vez; se não me engano em 1929. Alguns anos depois quando Pará de Minas ganhou a sua Biblioteca Pública eu logo fiz um ficha e fiz do lugar passagem obrigatória. Li muita coisa da autora norte-americana Pearl S Buck, especialista em contar histórias do povo chinês da virada do século 19 para o 20. Uma China essencialmente rural de povo ética e moralmente evoluído mas vivendo em inacreditável atraso tecnológico, se comparado até mesmo com os sertanejos brasileiros. Muitos livros de Pearl S. Buck foram transformados em filmes. Ela morou na China desde os três anos de idade, o pai, norte-americano, era pastor presbiteriano. Pearl foi expulsa da China em 1949, quando Mao Tsé Tung assumiu o governo. Os comunistas nunca permitiram que ela voltasse ao país.

Depois veio a minha fase de ler os ‘best sellers”. Li tudo do Sidney Sheldon, do Morris West e daqueles autores de livros ‘arrasa quarteirão’. Quando voltei á escola em 1971 precisei ler os autores brasileiros e mergulhei na obra de Jorge Amado cuja obra que mais me marcou foi a trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade” começando pelo primeiro volume “Os Ásperos Tempos” , “A Agonia da Noite   e o último “A Luz no Túnel”. Na obra o autor baiano narra a saga dos comunistas brasileiros durante a ditadura de Getúlio Vargas  Quando terminei a leitura dos Subterrâneos percebi que eu já não era o mesmo. O volume do meio principalmente contou-me coisas dos políticos daquela época que eu nunca tinha imaginado e hoje perceboo que pouca coisa mudou. Li  alguma coisa de Graciliano Ramos principalmente as suas  memórias do cárcere, período em que o autor esteve preso durante a Ditadura Vargas.  No terceiro ano do ginásio a professora de português dona Maria do Carmo de Abreu Leite Oliveira, orientou a classe para que lesse “Os Sertões” do autor Euclides da Cunha. Foi o meu livro de cabeceira por bom tempo, até que esqueci o exemplar no ônibus Pará de Minas / BH, eu desci e o ônibus se foi levando o Euclides. Nos últimos anos dediquei-me á leitura de biografias. Li a gigantesca obra do mineiro Pedro Nava; biografias  de  políticos nacionais e estrangeiros, , desportistas, empresários, etc. Não junto mais livros na minha estante, agora repasso todos ás bibliotecas da cidade. Não conto isto por pedantismo, mas eu passei a acreditar que livros, como a moeda, precisam circular.

Simultaneamente ás leituras continuei frequentador de cinema, com uma média de pelo menos dois filmes por semana. Aprecio todos os gêneros, desde que a história seja bem contada; excluindo obviamente filmes pornôs, de artes marciais e filmes cabeças recomendados por críticos pedantes.E foi assim que construí esta mente embaralhada, ás vezes confusa, mas extremamente curiosa. (LUIZ VIANA DAVID)

 

 

Luiz David

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *