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Nem Vilaça, o exilado

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NEM VILAÇA, O EXILADO

Joaquim Xavier Vilaça -Nem Vilaça, entrou para a história de Pará de Minas como o financiador e construtor da estátua do Cristo Redentor, no alto da Serra de Santa Cruz. O monumento transformou o lugar em agradável mirante e num dos principais cartões postais da cidade. Foi ele também que ensinou o povo paraense de Minas a se alimentar de fígado de boi, parte do animal que nos anos 1920/30 era jogada aos cães que faziam ponto na porta dos açougues. Tendo vivido no Rio de Janeiro por muitos anos, Nem Vilaça percebeu que na então capital da república, o fígado era considerado parte nobre do animal e vendida a bom preço como a fraldinha, ou o assem, ou as chãs, de dentro e de fora. O primeiro açougueiro que no Pará aprendeu a lição de Nem Vilaça foi o também famoso e irrequieto, digamos assim, Quim do Neto (Joaquim Marinho de Almeida), que por algum tempo foi dono de um açougue que funcionava no mesmo prédio do “Hotel Central” que também administrava. O povo desconhecia as propriedades do fígado, uma excelente fonte de proteínas e vitamina ‘A’. No livro “Pará de Minas Meu Amor” (2009) o advogado Marcos Abreu e Silva, neto de Nem Vilaça traça um belo perfil de seu avô.

Joaquim Xavier Vilaça nasceu na ainda “Cidade do Pará” em 30 de julho de 1878 (morreria em 27 de março de 1965, ao 86 anos). Pouco tempo depois de retornar do Rio de Janeiro, onde tinha trabalhado durante alguns anos, casou-se com a jovem Sinhaninha Almeida, filha do coronel Francisco Torquato de Almeida e de dona Jesuína Moreira da Piedade. Com o casamento tornou-se cunhado de Torquato Alves de Almeida (1887/1948), que viria ser o mais proeminente líder politico e empresarial de Pará de Minas nas primeiras décadas do Século XX. O sogro Francisco Torquato, tinha ocupado o cargo de Agente Executivo (equivalente ao atual ‘prefeito’) na década de 1890; o cunhado Torquato ocuparia o mesmo cargo entre 1912 a 1922. A liderança política da família Almeida no Pará daquela época era incontestável; Nem Vilaça agora fazendo parte da família, acabou por se tornar um “torquatista” militante. Por muitos anos ele exerceu a alta função de Coletor Federal em Pará de Minas (nome da cidade desde 1920). Com a ascensão de seu cunhado Torquato de Almeida aos cargos de Presidente da Câmara e Agente Executivo (eram cargos cumulativos; somente a partir da Revolução de 1930 que surgiu a figura do ‘prefeito’ como conhecemos hoje) a política patafufense tomou rumos bastantes estranhos e perigosos. Aconteceu uma polarização das ideias politicas, de um lado os torquatistas e de outro lado a oposição a Torquato, liderada pelo cometa (tropeiro) Luiz Orsini. A cidade contava com dois jornais: um apoiando a situação e o outro obviamente a oposição. No auge da incompatibilidade e do ódio latente, Luiz Orsini acabou assassinado quando saia da igreja-matriz, após a missa conventual do domingo, 16 de julho de 1916, por volta de onze horas. Torquato de Almeida naquele dia se encontrava no Rio de Janeiro, tratando de negócios particulares (era o diretor-presidente de duas fábricas de tecidos) e públicos pois era o agente-executivo em exercício. O assassino de Luiz Orsini foi um cunhado de Torquato, irmão de sua esposa dona Onésima, de nome Cornélio Moreira. Algumas centenas de pessoas se encontravam na Praça da Matriz na hora em que ocorreu o lamentável episódio; a multidão, já uma turba ensandecida, tento fazer justiça com as próprias mãos, linchando o criminoso. Neste momento surge a figura de Nem Vilaça tentando impedir o linchamento, que consegue, conduzindo o criminoso até a sua residência na Praça Coronel Francisco Torquato, bem ao lado da portaria do grupo escolar. Na casa de Nem Vilaça o assassino permaneceu até que a Policia Militar comparecesse e fizesse a sua prisão.

Nem Vilaça era uma pessoa do bem, se dava com todos, adversários ou não, de seu cunhado. Porém, os oposicionistas jamais o perdoaram por ter impedido que o assassino de Luiz Orsini fosse justiçado ali mesmo na praça, sob o sol do meio, no fatídico 16 de julho de 2016. O tempo passou, em 1922 o coronel Torquato transferiu o poder municipal ao advogado Dr. Aristides Milton e este em 1926 passou o bastão ao fazendeiro Júlio Melo Franco, o Tenente Júlio. Ambos, o advogado e o fazendeiro, foram indicações de Torquato, que passou a dedicar todo o seu tempo às suas fábricas, mas sem perder o foco na política. Nesse tempo, ele presidiu a Comissão Construtora do novo prédio do HNSC; o Centro Literário, além de outras instituições. E continuava politicamente ativo e a política pegava fogo, literalmente. Na madrugada de 26 de abril de 1923 um incêndio criminoso praticamente destruiu o paço municipal, o prédio da prefeitura. Os dois lados acusaram-se mutuamente do crime que nunca foi definitivamente apurado. Numa cidade onde grande parte das pessoas era parente entre si, houve muito “disse me disse”, mas não houve testemunhas e o delegado especial enviado para apurar o crime só concluiu que foi criminoso. Por bom tempo as desavenças politicas deram o tom nas reuniões da Câmara; mas torquatistas evitavam passar na porta da casa dos adversários “orsinistas”, seguidores do vereador Wandick Orsini, filho do assassinado Luiz Orsini. E a recíproca era verdadeira.

Em 1930 eclode a Revolução Aliancista, liderada pelo advogado e ex-governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Dorneles Vargas, derrotado na eleições presidenciais de 1º de Março de 1930, pelo político paulista, Júlio Prestes, que tinha o apoio do presidente da república, Washington Luiz.. Os aliancistas alegaram fraude nas eleições, o que de fato tinha acontecido, porém com os dois lados cometendo abusos. Em Minas, os políticos se dividiram: o governador Antonio Carlos se aliou a Getúlio Vargas e aos ‘liberais’; outra corrente declarou seu apoio aos legalistas que exigiam a posse do candidato eleito, Júlio Prestes. Em Pará de Minas, tão logo a Revolução se declarou vitoriosa com a deposição do presidente Washington Luiz, o vereador Benedito Valadares, que se opunha aos torquatistas, dirigiu-se com alguns companheiros, todos armados de espingardas, até à prefeitura para depor o agente executivo, Tenente Júlio de Melo Franco, que já havia abandonado o cargo. Valadares então mandou que se lavrasse uma ata e na presença de alguns vereadores empossou-se a si mesmo no cargo de prefeito, o primeiro de nossa história com tal denominação. Coronel Torquato de Almeida na revolução tinha ficado no lado oposto, na verdade ele escolheu o lado de seus correligionários, onde despontava o vice-presidente da República (1926 /1930) e ex-governador de Minas (1924/1926) Fernando de Melo Viana, natural de Sabará (MG), que no inicio do Século XX havia sido Juiz de Direito na comarca de Pará de Minas. Fernando Melo Viana também era aparentado com o ex-agente -executivo (prefeito) Aristides Milton. O coronel Torquato tinha forte vínculo de amizade com Fernando Melo Viana já há algumas décadas.

Valadares por convicção militava no partido do governador Antonio Carlos, que foi um dos líderes da revolução vitoriosa. E mais: um das irmãs de sua esposa (D. Odete Valadares) era casada com o coronel Dorneles, um dos lideres militares da revolução e primo de primeiro grau de Getúlio Dorneles Vargas. O advogado e vereador Benedito Valadares nem titubeou quando o movimento aliancista eclodiu e logo assumiu a chefia do movimento em Pará de Minas e região. Ficou na prefeitura até 1932, quando se afastou para disputar uma cadeira de deputado federal com o apoio do governador Olegário Maciel (1855 /1933), que tinha substituído Antonio Carlos no governo. Eleito, Valadares se mudou para o Rio com sua família: a esposa e duas filhinhas. Em setembro de 1933 o governador Olegário Maciel morre repentinamente no Palácio da Liberdade. Não havia um substituto legal pois o regime era de exceção e o Presidente Vargas vinha nomeando interventores nos estados. Em Minas dois candidatos logo se posicionaram e os arquivos do CPDOC registra assim aquele momento: “Em setembro de 1933 a política mineira foi abalada pela morte do governador Olegário Maciel. Para a sua sucessão apresentaram-se dois fortes candidatos: Gustavo Capanema, que havia assumido o governo interinamente após a morte de Olegário e reivindicava a sua efetivação no cargo, e Virgílio de Melo Franco, importante articulador do movimento revolucionário de 1930, que desde então pleiteava junto a Vargas sua nomeação como interventor federal no estado. A importância de Minas Gerais no cenário político nacional atraía a atenção de políticos de outros estados para a sucessão estadual. Assim, enquanto Capanema recebia o apoio decidido do governador gaúcho Flores da Cunha, Virgílio de Melo Franco era apoiado pelo ministro Oswaldo Aranha. Pressionado, Vargas surpreendeu a todos ao indicar Benedito Valadares para o cargo, político de pouca expressão e completamente desvinculado das facções em disputa. Nos anos seguintes, Valadares se tornaria um dos mais fiéis aliados de Vargas nos embates políticos travados pelo presidente”. Getúlio Vargas ficou numa verdadeira “sinuca de bico” com a morte de Olegário Maciel. Se indicasse Virgilio Mello Franco (nada a ver com os Melo Franco patafufenses. Virgílio era da família Mello Franco de Paracatu), perderia a metade dos apoiadores em Minas; se o indicado fosse Gustavo Capanema, a outra metade é que ficaria infeliz. Optou por Valadares, que era até meio aparentado do seu primo coronel Dorneles.

Para os torquatistas a ascensão de Valadares ao governo foi como se o mundo tivesse desabado sobre eles. Engoliram calados a eleição dele a deputado federal em 1932; mas vê-lo governador de Minas, e com poderes quase que discricionários era mesmo o fim do mundo. Justiça seja feita: no período em que os irmãos Valadares estiveram no Poder, Francisco prefeito de 1932 a 1945 e Benedito governador de 1933 a 1945; os torquatistas enfiaram a “viola no saco” digamos assim e souberam esperar, pois nesta vida tudo passa e a ditadura Vargas também passaria. Mas os valadaristas, quase todos de oposição ao coronel Torquato, desde vinte ou trinta anos passados, não se esqueceram dos episódios passados e costumavam retaliar os adversários de baixo escalão, impedindo que tivessem acesso a empregos públicos, esse tipo de mesquinharias. Foi quando pediram a cabeça de um torquatista de peito emplumado, e a vítima foi o cunhado do coronel Torquato, marido de sua irmã Sinhaninha: queriam que Joaquim Xavier Vilaça, o Nem Vilaça, fosse destituído de seu cargo de coletor federal. Benedito Valadares não quis se envolver, pois o cargo não era estadual. Oitenta e seis anos são passados (1935 / 2021) desde que alguém em nome dos revolucionários do Patafufo foi até Getúlio pedir-lhe a exoneração de Nem Vilaça do cargo. Getúlio deve ter ouvido outras pessoas, talvez seu próprio Comissário em Minas, Benedito Valadares. E resolveu atender a reivindicação apenas parcialmente: Joaquim Xavier Vilaça foi transferido para um lugar chamado ‘Porto Novo do Cunha’ (atualmente “Além Paraíba”) na Zona da Mata mineira. Distante 500 quilômetros de Paris de Minas. Nem Vilaça contava já 57 anos de idade, numa época em que a idade média do brasileiro era 40 anos. Em 19 de agosto de 1936 o Diário Oficial publicou o ato de transferência do ilustre servidor, assinado por ninguém menos do que o Presidente da República. No mapa a localização do lugar onde Nem Vilaça foi “exilado”

Localização de Além Paraíba em Minas Gerais

Porto Novo do Cunha era de difícil acesso para quem morava no oeste de Minas. Só se chegava lá de trem de ferro, após várias baldeações. Nem Vilaça com a dificuldade de se locomover vinha ao Pará apenas esporadicamente. Tecnicamente foi um exilado dentro de seu próprio estado natal. Afastado da esposa, dos filhos e dos netos; dos amigos, das tricas e futricas políticas. Ninguém nunca o viu por aí posando de vitima da ditadura. O Governo Vargas entre 1937 a 1945 foi muito mais restritivo do que o período militar de 1964 a 1985. Quando a ditadura caiu em 1945 e os irmãos Valadares com ela, não passou muito tempo e Nem Vilaça estava de volta. Viveria mais 20 anos; teve tempo para construir o mais alto prédio da cidade, inaugurado em 1953, com três andares, onde mais recentemente funcionou o Bar Mineirão e o Hotel Elite, em frente ao coreto, lado de sua residência. E o monumento do Cristo Redentor, inaugurado em 1963, que alçou definitivamente seu nome na história da cidade. (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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