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CRÔNICAS DA PANDEMIA

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Anos 1960 até a metade da década que mudou o mundo a rapaziada até que era meio careta no vestir e nos acessórios para compor o personagem. Começava pela camisa “Volta ao Mundo” que vendeu zilhões apesar de extremamente desconfortável: no inverno congelava quem usava; no verão fazia o penitente suar em bicas, pois que fabricada com tecido sintético. Quando o dono se cansava dela, nem para pano de chão servia pois parecia imune a água. O jeito era jogar fora, ou doá-la a um parente ou amigo doidinho para ter uma e não dava conta de comprar, posto que não era tão barata assim. Se fosse de mangas compridas, pedia uma gravatinha tipo um barbante colorido com um pegador na altura do gogó e ponteira metálicas que podiam combinar ou não com as abotoaduras também bastante bregas.

Isqueiro Monopol, era o supra-sumo da metideza e custava caro viu! Induziu muita gente a fumar só para exibir a preciosidade do isqueiro em público. Eu que nunca fumei comprei um só para acender cigarros de pessoas que eu percebia estarem sem fósforos (da marca Pinheiro por favor, caixinha com 45 palitos).

Relógio Omega Ferradura de ponteiros; ninguém falava ômega (proparoxítona), mas Oméga mesmo, com acento agudo na letra “E”. Os mais metidos faziam questão de usá-lo quando de camisas de mangas compridas; então combinavam com algum chegado para para perguntar-lhe pelas horas no meio da turma. A resposta vinha acompanhada de um gestual apropriado: o sujeito levantava com a mão direita o punho da camisa que cobria o relógio, ao mesmo tempo levantava o punho esquerdo do relógio até a altura das fuças de quem estava na roda e então anunciava: são só onze horas, é cedo ainda pois hoje é sábado e podemos ficar na rua até as duas da madrugada. De quebra, quando exibia o Omega mostrava também as abotoaduras. Aqueles menos exibicionistas e com menores salários em vez do Ômega Ferradura tinham um relógio Lanco bem mais barato. Então algum malandro inventou a historinha que um determinado modelo de Lanco era mais caro que o Ômega, pois tinha um tal “cabelinho de ouro”. O cabelinho era fiozinho tão fino que parecia de cabelo, era parte das engrenagens, mas nunca de ouro. Uma lenda dos anos 1960.Se no fundo do relógio estivesse escrito “made in Switzerland” o Lanco dobrava de preço.

Camisa de gola rolê, ainda hoje quando vejo uma lembro-me na hora do cantor Aguinaldo Timóteo cantando “Mamãe” (a dele, digo de passagem). Foi o Guigui quem lançou a moda no Brasil e nas cores berrantes. Quando surgiram as calças boca-de-sino formou-se então a famosa dobradinha com as blusas de gola rolê. Era um horror. No inverno (que era bem mais rigoroso naquele tempo) muitos mancebos ainda vestiam por cima da blusa um “blaser’ preferencialmente em tecido xadrezado; podem crer que era assim mesmo.

Para o lazer o sujeito devia ter pelo menos um par de quedes e outro de Sete Vidas. mas quando os jogadores profissionais do Paraense lançaram na cidade as sandálias Havaianas, de mamando a caducando todas as pessoas aderiram, hábito que ferrou com os sapateiros que ganhavam bom dinheiro fabricando chinelos de couro. Aliás, os anos 1960 foram cruéis com os sapateiros, pois foi enorme a popularização dos sapatos Vulcabrás, que nas familias maiores passavam de um filho ao outro mais novo. Meu primo Edson Teodoro Borracha ainda guarda um par desses calçados indestrutíveis que tinha sido antes dos irmãos mais velhos José Mauricio, Amaury, Fernando e Emidio.
Aqueles mais abonados, os meninos do Gelica por exemplo, tinham cada um o seu par da marca Scatamáchia, que era muito chique mesmo; e usavam tênis “All Star”, naturalmente importados, pois Nova Serrana ainda engatinhava na arte de reproduzir as grandes marcas. Foi assim que as sapatarias foram se acabando tirando de cena figuras inesquecíveis como Tião sapateiro e seus irmãos João Chuchu e Batuta; Joaquim Buticão e seus irmãos; Tó do Munerato, Divino sogro do Antonio da Padaria Santo Antonio, Tonhão sapateiro, o outro Tião Sapateiro que também foi zagueiro do Guarani, Antonio Viegas pai da Terezinha e muitos outros.

E vocês pensando que eu não ia falar das calças “Far-West”, que mais desconfortáveis nunca existiram, uma espécie de avós das calças “Jeans” que quando surgiram só homens usavam. As primeiras mulheres que se arriscaram a usar jeans logo foram chamadas de “mulher-homem” ou em mineirês “muié home”, fanchona, sapatão e outros adjetivos pejorativos. Elas venceram o preconceito e hoje em dia raríssimas usam saías. E assim, eles e elas enterraram a profissão de alfaiate, que eram dezenas em Paris de Minas.

A evolução chegou também nas roupas íntimas. Os marmanjos sempre usaram calções ou cuecas samba-canção. Eis que aparece a grande novidade que no Brasil ganhou o nome do maior fabricante “Zorba”, que resolveu um sério problema da rapaziada que não podia ver um palmo acima do joelho de nenhuma mulher, nem que fosse a andarilha Diola (que Deus a tenha) para logo a ferramenta (o bilau) ficar em posição de sentido.
Na época, correu uma noticia com todo jeito das fakes atuais, dando conta que uma moça da “alta sociedade”, professora e noiva de um bancário, ao se aproximar o aniversário do feliz pretendente, foi até uma loja e cheia de não me toques, constrangida até, falou bem baixinho à balconista que a atendeu: agora eu quero uma caixa com três “porta – jóias”. A mocinha do balcão não entendeu e a professora então teria desenhado um passarinho e repetido: uma caixa com três peças onde cabem isto que eu desenhei. A ficha da mocinha então caiu e ela com aquele risinho cínico perguntou o tamanho também em código: P – M ou G?. Ao que a freguesa respondeu: G eu acho que vai servir (naquele tempo não existia o tamanho GG para nenhuma peça do vestuário). No outro dia a cidade inteira ficou sabendo que prendada jovem tinha comprado cuecas modernas para seu noivo; foi por dedução que chegaram ( o povo ) a esta conclusão, pois ela não tinha irmãos e nem faria uma compra de tais peças para o pai. A noticia acabou chegando aos ouvidos deste, que incontinenti convocou o genro para uma conversa durante a qual deu-lhe o prazo de noventa dias para oficializar a sua união com a filhota. Sem entender a pressa do sogrão, só depois de casado é que ele ficou sabendo sobre as zorbas.
De qualquer forma, aquele foi o casamento do século naquele ano: uma professora e um bancário, as profissões mais respeitadas daquela época. Era tipo ganhar a sorte grande na loteria federal.

Por enquanto vou parar por aqui antes de noutro dia escrever sobre a minissaia, esta genial invenção de uma inglesa sardenta de nome Mary Quant. (LUIZ VIANA DAVID

Luiz David

One Comment

  1. Luiz, que crônica boa. E jeca, né ? Nem nos anos 1960 eu achei bonito calça boca de sino, gola rolê e paletó xadrez. Sempre foi uma marmota. Lembra do Toni Tornado dançando vestido assim? De amargar. Amei o texto, como sempre .

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