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PÓ DE GIZ

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PÓ DE GIZ

Deu nos jornais: “A falta de compasso entre o reajuste anual dos professores municipais, que acumulou 142% entre 2009 e 2017, e os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que saltaram 95% no mesmo período, pode inviabilizar o aumento nos vencimentos da categoria em 2018. Esse é o novo anseio dos prefeitos, que prometem pressionar o governo federal para barrar o reajuste. Conforme os gestores municipais, o aumento pode travar a gestão das prefeituras.
Sem caixa e com a arrecadação caindo por terra, prefeitos pedem ao governo federal a revisão nos critérios utilizados na elevação da remuneração do magistério”.

Sinceramente, eu nem sei o que leva uma jovem a estudar e se formar professora. Pode ser vocação para o sacerdócio, alguém já escreveu que “magistério é sacerdócio” e talvez seja mesmo. Certamente não é pelo salário indigno que recebem, considerando que sobre a nobre profissão todas as outras são construídas. Atualmente, o ensinar tornou-se profissão de alto risco, diariamente a mídia proclama as agressões que professoras e professores recebem na sala de aulas. Agressões não apenas físicas, como também psicológicas, que costumam ser até piores, pois podem deixar marcas indeléveis na vítima pelo resto de sua existência.E não é raro ocorrência de morte causada pelas agressões. Mas elas não desistem e a cada ano as escolas normais entregam ao mercado milhares de novas professorinhas, esses anjos que iluminam os primeiros anos de existência dos milhões de infantes brasileiros. E não falo apenas de professoras e professores de escolas públicas; as escolas particulares também não são modelo no reconhecimento pecuniário dos mestres que empregam.Enfim, aquela(e) que escolhe a profissão, sabe antecipadamente que irá penar nos vinte e cinco anos seguintes, isto se os governos não aumentarem o tempo de serviço. No Brasil, o governo nos seus três níveis -federal, estadual e municipal, costuma ser cruel com seus mestres e mestras. Nem pensem que nas universidades, mesmo as particulares, a situação melhora; costuma ser pior até.
Sou descrente quanto a mudança para melhor do atual quadro da educação brasileira. Acredito que a minha geração e aquela imediatamente anterior a ela, não veremos tal progresso.

Eu sou do tempo em que aluno esperava a professora na porta da escola e a ajudava a carregar cadernos e livros. Nenhum aluno chamava a professora de “tia”; e quando se dirigia a ela, ficava de pé e a tratava pelo nome, precedido do respeitoso “dona”, mesmo que fosse uma frágil senhorita que estivesse diante da classe. Lembro-me bem do nome de minha primeira mestra: D. Matilde Saud, branquinha, de olhos azuis e fartos cabelos castanhos. Jovial, gostava de saias estampadas, educada e atenciosa. Não tinha como não ficar apaixonado por ela. Se estiver viva, deve estar com a idade aproximada de 82 anos por aí. Dona Matilde Saud marcou a minha existência.

Mas antes dela conheci outra mestra extraordinária, aliás, foi minha primeira amizade fora do círculo familiar: Dona Isaltina Cecílio Mendonça Meireles – Dona Tina. Eu devia ter de quatro para cinco anos; minha família morava na Rua João do Neto, nº 29. Lembro-me que todas as tardes, após o banho, eu me postava no portão da casa esperando por ela, que voltava da escola onde lecionava, trazendo-me algumas balas. Ela usava sapatos pretos e fortes, com saltos, às vezes eu perdia a noção do horário, mas ficava atento ao toc-toc-toc do seu caminhar sobre a calçada, então eu corria para o portão a tempo de vê-la e ganhar as balinhas, duras que nem ferro, mas as mais doces que chupei durante minha vida.

Pouco depois minha família se mudou para Belo Horizonte e nos nove anos seguintes, sempre que eu vinha à cidade, de férias, costumava ficar alojado na casa de umas tias na Rua Direita nº 660. Mas tão logo pedias as bençãos dos tios, corria para abraçar e ganhar abraços de Dona Tina e sua irmã Dona Orosina,que moravam no número 630. Dona Orosina também era professora, diretora de grupo escolar. Uma mulher extraordinária, uma lenda no magistério de Pará de Minas. Dona Orosina nunca se casou; Dona Isaltina foi casada e enviuvou-se do Promotor de Justiça Dr. Carlos Meireles. Eles tiveram dois filhos: Márcio e Morel, que também foram advogados. Dr. Morel mais tarde foi Juiz de Direito em Pará de Minas.
Dr. Márcio fez carreira no Tribunal de Contas do Estado; fui amigo dos dois, muito mais de Márcio; mais ainda de João Carlos, também advogado, poucos anos mais novo do que eu e morto precocemente, filho de Dr. Morel.

Preciso encerrar, pois o espaço acabou, mas o tema ainda pode render outras crônicas.

Luiz David

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