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USOS & COSTUMES

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Usos  &  Costumes

Nos meus meus tempos de ginasiano na falecida Escola  Técnica de Comércio Nossa Senhora da Piedade, fundada em 1954 pelo vigário padre Geraldo M. de Morais Penido da paróquia de Nossa Senhora da Piedade, então a única da cidade, eu tive um professor extraordinário, que também era advogado, se não morreria de fome, de nome Hélio Fábio Bergo Torres. Uma aula de doutor Hélio valia por meses de estudo de História, geografia, sociologia, economia doméstica (aliás, em determinado ano esta matéria apareceu no currículo da escola e adivinhem quem deu as aulas…). Pois então, eu, emérito matador de aulas para ir ao cinema, jamais perdi uma sequer proferida pelo saudoso mestre. Não eram aulas, eram palestras, que se dadas hoje em dia, custariam uma boa grana da platéia. Certo dia o professor doutor Hélio discorria sobre constituições nacionais, quando fiquei sabendo, aos 25 anos, que a Inglaterra não possui uma “constituição”  (um “livrinho” como se referia à nossa, o presidente Eurico Gaspar Dutra -1946 a 1951. Mas como assim, a Inglaterra não tem uma Constituição? Perguntei meio envergonhado ao professor e ele respondeu: -na Inglaterra vigora desde 1215, com adaptações ao longo dos séculos, a assim chamada Carta Magna, resultado de um acordo entre a Igreja e o Rei João.  Na sequência veio a frase que ficou gravada, colada, em minha memória, que acredito prevalecerá mesmo àquela doença que ficou famosa com o nome de um médico alemão, que tenho dificuldades para escrever, mas Dr. Hélio proclamou que “usos e costumes são fontes de Direito” , que na Inglaterra os hábitos, os usos e os costumes da população vão se transformando em leis naturalmente, depois de avaliadas pelo parlamento bicameral, formado pela Câmara dos Lordes e pela Câmara dos Comuns. E explicou: – é mais ou menos como no Brasil, que tem o Senado e a Câmara Federal, só que tudo misturado; onde lá se diz Lordes no Brasil se chama elites e os Comuns, são os comuns mesmo aqui também, os zé-manés, a maioria analfabeta, comuns às duas casas. Dr. Hélio era assim não poupava palavras nos comentários às próprias aulas.

Foi relembrando Dr. Hélio e suas aulas e observando o Brasil de 2019 que cheguei à conclusão que estamos, os brasileiros,  bastantes parecidos  com os ingleses, na maioria dos casos naquilo que interessa aos lordes. Senão, vejamos, o comércio varejista por exemplo. Houve tempo em que o comerciante que ousasse abrir as portas de seu estabelecimento aos domingos era tachado de ateu, pela maioria esmagadora da população católica (em Pará de Minas, nos tempos românticos, 99% dos moradores). Os comerciantes não podiam abrir nos domingos e feriados santificados, mas os devotos podiam mandar uma das crianças na casa do dono do armazém, bater á porta e fazer o pedido: -sô Zé Mendonça, a mamãe mandou buscar uma lata de massa de tomates, um pedacinho de queijo parmezão e dois pacotes de talharim e é pra anotar na caderneta viu? Claro que o sô Zé Mendonça, ou se ele não estivesse, sua esposa D. Stela ia até o armazém na frente da casa e buscava a encomenda da criança, que podia ser o Edwarzinho, ou a Maria José irmã dele, filhos do médico e prefeito Dr. Edward e sua mãe a também saudosa D. Mariinha. Ou o João Mauricio Flores, filho do gerente de banco sô Amadeu Flores e de dona Fia. Abrir as portas do estabelecimento aos domingos podia merecer até uma reprimenda do padre durante a missa; mas atender pelas portas laterais ou dos fundos sempre foi permitido. Lembro-me bem do vizinho da casa de meus pais e dono do armazém São José, no final da Rua Tiradentes, o senhor José Pinto Neto, famoso pela calma e paciência no atendimento à numerosa clientela: sô Zé Pinto abria o armazém aos domingos até a uma hora da tarde. Não ligava muito para os padres, menos ainda para as beatas da vizinhança. Dizia que era melhor abrir logo a “venda” do que ter de ficar atendendo pingado na porta de sua casa ao lado. Mas quando fechava, às treze horas, não atendia mais ninguém. Um grande sábio que o Pará de Minas perdeu.

Outro amigo meu, José Dionisio Pereira, famoso dono de bares na cidade e falecido recentemente, cometeu um pecado mortal aos olhos da Igreja e das congregações: inaugurou no centrão da cidade,  na  Sexta-Feira da Paixão de 1961, a sua primeira lanchonete -Leiteria Nitza, na Rua Direita, número 129, ao lado da loja de materiais de construção do inesquecível José do Zico, o melhor goleiro da história de nosso futebol. José Dionisio foi execrado pelo resto de seus dias pelo sacrilégio (na opinião dos xiitas). Muitos anos depois, bebendo juntos uma cerveja, comentei com ele por que tinha escolhido justamente aquela data sagrada para abrir seu primeiro negócio; candidamente respondeu: – foi para atender o povo da roça, que vinha cedo para a cidade e não tinha lugar sequer para beber água, ou fazer um lanche à base de batata ou bacalhau, ou alguma fruta; também não vendi bebidas alcoólicas naquele dia. E liberei a privada da lanchonete para crianças, senhoras e moças. Os marmanjos que fossem mijar atrás do coqueiro do Padre Zeca. Eu prestei um serviço de utilidade pública; concluiu José Dionisio.

Nem mesmo as farmácias abriam aos domingos. Moradores da Rua Direita cansaram de ver o farmacêutico Jurandir Leitão – já vivendo numa casa na Praça Delfim Moreira, defronte ao Santuário,  atravessar quase toda a extensão da rua principal da cidade para atender algum cliente, que ia chamá-lo em casa. Este problema não tiveram os farmacêuticos Raimundinho Leite e seu filho Antonio, que viviam um em cada lado da Farmácia Santa Maria. Lembro-me de quando as farmácias começaram a funcionar também aos domingos, a grande confusão que se formou entre os estabelecimentos, que passaram a brigar pelos plantões, para desespero do balconistas, que passaram a perder a folga dos domingos, embora fosse pagos pelo trabalho extra. Em 2019 acredito que todas as farmácias locais funcionam durante as vinte e quatro horas do dia. Esse ramo de vender remédios parece ser bastante lucrativo. Quando Pará de Minas tinha 50 mil habitantes eram apenas quatro farmácias para atender a população, todas na Rua Direita e conhecidas pelo nome do proprietário: Raimundinho Leite, Júlio Leitão, Eudes e Moacir Chaves.  Por outro ângulo na mesma rua existiam pelo menos  dúzia e meia de bares, restaurantes, botecos e afins. Passados sessenta anos ou quase, eis que o número de farmácias espalhadas pelo centro da cidade quadruplicou e pelo menos na Rua Direita são poucos os restaurantes, quatro talvez, e nenhum bar ou boteco dignos desse nome, onde o freguês entra pede uma pinga, come um pedaço de carne cozida ontem ou anteontem e segue em frente (saudades do bar Tic-Tac e do bar dos Patinhos, que depois passou às mãos do José Mizael, que fez dele a sólida base de seu império comercial).

Então, depois de ler 1.145 palavras (segundo o wordpress) o (a) leitor(a) pergunta em mineirês: -e o quico? traduzindo: o que que eu tenho com isso?  Têm tudo a ver meus queridos. Hoje, à moda antiga lembrei-me de que não comprei o pão sagrado de cada dia, mas nem me abalei. O super-mercado da esquina abre suas portas todos os dias da semana, dias inteiros e oferece á freguesia ótimos pães e quitandas mil. Aliás o comércio em geral abre suas portas aos domingos: supermercados, farmácias, bares, botecos, restaurantes, postos de combustíveis, lojas de roupas de uso pessoal, de  cama, mesa e banha, de gás de cozinha e água envasada que em 2019 quase ninguém mais bebe água de torneira. Por  conta desses usos e costumes o governo federal acabou transformado o domingo em dia normal de trabalho, remanejando a folga dos trabalhadores para outro dia da semana.  Foi quando eu lembrei da Carta Magna inglesa que a oitocentos anos vem regulando a vida dos ingleses e pensei; como os brasileiros a apenas 128 anos contam com uma carta magna (juristas e políticos apreciam muito chamar assim o livrinho do presidente Dutra, já em sua sexta edição) acredito que estamos no caminho que os ingleses trilharam. Um dia chegaremos onde os ingleses chegaram.Eu tenho por uso e costume acreditar sempre no melhor.  E um feliz domingo a todos, incluindo aqueles que estão no batente.

(Esta crônica é uma homenagem ao amigo advogado João Teodoro da Silva – ex-João do Vital que há sessenta anos ou quase,mudou de dono agora é o João da Hila)

PS) Ah! E foram 1.408 palavras até aqui.

 

 

Luiz David

One Comment

  1. Luis David, ainda bem que a preguiça abandonou você e as crônicas voltaram. Fazem muita falta. Ass. Hila do Joao

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