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Ana Campos entrevista o professor Mário Luiz Silva

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Ana Campos entrevista o professor Mário Luiz Silva

Ana Maria Campos entrevista o professor Mário Luiz Silva, principal memorialista e historiador de Pará de Minas.Entrevista realizada no ano 1990.

Prodigiosa! Sim, definitivamente é esse o vocábulo apropriado para definir a memória de Mário Silva − pensei, logo após a primeira gravação que fiz com ele. Era um trabalho que seria incorporado ao acervo do Museu Histórico de Pará de Minas. As respostas do pesquisador vinham rápidas, sem titubeios, com riqueza de fatos, datas, nomes, algo realmente impressionante. Eu conhecia a inteligência e a fantástica memória que o professor Mário possuía, pois havia sido aluna dele, mas minha admiração por essa personalidade era cada vez maior. A convivência com ele havia se acentuado quando fui trabalhar, em 1987, no Museu de Pará de Minas. Mário Luiz Silva, aqui nascido em 1906, era farmacêutico e professor de Química. Havia se dedicado à pesquisa histórica nos anos anteriores a esta entrevista, acumulando valiosas informações que se somaram às tantas que possuía. Além disso, era pessoa agradável, de fino trato, que eu admirava e com quem gostava de conversar. Seu conhecimento sobre a história de Pará de Minas era extraordinário, eu precisava explorar e registrar o que ele sabia sobre a nossa terra, pois muitas informações já haviam se perdido…

Cheguei à Rua Francisco Sales, 78, residência de Mário Luiz Silva, na tarde do dia seis de março de 1990. Fui, mais uma vez, recebida com sinceras demonstrações de amizade e apreço que ele e dona Lourdinha, sua amável e dedicada esposa, tinham não somente por mim, mas também por minha família, que eles tão bem conheciam. Fui para gravar um depoimento sobre a sua profissão, as farmácias e os farmacêuticos que atuaram na cidade, as administrações municipais, o desenvolvimento de Pará de Minas ao longo do tempo. Preparei o gravador, e iniciamos a conversa, a primeira. Poucos dias depois, em dezoito de março, concluiríamos a entrevista. Reproduzirei aqui a conversa desses dois encontros. Didaticamente numerarei os tópicos.

1. Sr. Mário (era assim que eu sempre me dirigia a ele), por quanto tempo o senhor exerceu a profissão de farmacêutico? — Praticamente, eu a exerci por mais de 40 anos, mas ainda a exerço até hoje, pois dou nome à Farmácia Santa Maria. Vou lá diariamente, faço registro de psicotrópicos. Também dou nome à farmácia do Hospital; vou lá diariamente, registro as receitas. De maneira que estou em atividade até hoje; portanto, há 63 anos.

2. Como o senhor vê a diferença entre a farmácia de antigamente e a de hoje? — A diferença é grande demais. Hoje a farmácia se resume na venda de especialidades farmacêuticas; e antigamente o farmacêutico é que preparava os medicamentos. Os médicos prescreviam as manipulações, e a gente preparava os medicamentos: as poções, as pílulas, as cápsulas, as pomadas. Isso hoje está muito resumido… tem uma diferença muito grande…

3. O senhor se lembra das farmácias e dos farmacêuticos que aqui estavam, quando iniciou a profissão, em 1928? — Perfeitamente. Nessa época, as farmácias daqui eram as seguintes: Farmácia Salles, que era do meu tio Raimundo Leite e Horácio Salles, que era o farmacêutico e trabalhava lá também. A Farmácia Oeste, que era do farmacêutico Arlindo Moreira. Farmácia Ribeiro, que era do farmacêutico Boanerges Guimarães. Eram essas as farmácias da cidade naquela época. E eu, logo que me formei, comprei a farmácia da Hilda Villaça, que era farmacêutica estabelecida aqui, e passei o nome dela para Farmácia Central, em homenagem a uma antiga farmácia que tinha aqui com esse nome.

4. E dos mais antigos, o senhor nos dá notícias? — Perfeitamente. O primeiro farmacêutico formado que se estabeleceu aqui foi o Sr. Quintiliano Firmino de Oliveira Lima. Eu presumo que ele tenha chegado aqui no princípio da segunda metade do século passado [século XIX]. Ele exerceu a profissão de farmacêutico aqui até 1914, aproximadamente. Nesse ano ele faleceu, e a farmácia foi fechada. Era farmacêutico formado, homem competente, que teve muita atuação na sociedade: ele foi um dos fundadores do hospital e um dos fundadores da Companhia Industrial Paraense. Era um homem de grande atividade aqui. Além dele, tinha também aqui o Sr. João José de Oliveira Júnior, e a farmácia se chamava Farmácia Central. Era um prático que tinha a farmácia na Praça da Matriz, num prédio que foi demolido agora há pouco, onde está a “Cabocla”. O Sr. João José de Oliveira Júnior foi o fundador da farmácia que atualmente é a Santa Maria, em 1879. Ele teve a farmácia até 1910. Ele estava velho, doente, e vendeu a farmácia para o Sr. José Clementino de Freitas, que era um farmacêutico formado em Ouro Preto. O Sr. Clementino de Freitas esteve aqui de 1910 a 1914 e, em 1914, ele vendeu a farmácia para o Sr. Raul de Castilho, que era um farmacêutico formado e natural de Itabira. O Sr. Raul de Castilho é que transferiu a farmácia para a Rua Direita, hoje Benedito Valadares, esquina com a Dr. Higino, para um prédio antigo que existia ali. Raul de Castilho teve a farmácia até 1918, quando se mudou daqui. Aí entrou o Raimundo Leite e Horácio Salles para a mesma farmácia.

5. O senhor se lembra de algum caso interessante, engraçado, que aconteceu nessas farmácias? — Eu sei de dois casos: um engraçado e o outro trágico. O caso engraçado é o seguinte: a farmácia antiga era ponto de reunião das pessoas da cidade. A farmácia não tinha grande movimento, era um lugar mais ou menos distinto, de maneira que era ponto de reunião de muitas pessoas. Eu me lembro de várias que frequentavam a farmácia para dar prosa, era ponto de prosa, principalmente em ocasião de férias escolares. Reuniam-se os moços que estudavam em Belo Horizonte e passavam férias aqui, como o Dr. José Guimarães, Dr. Murilo Salles, Arlindo Moreira e vários outros que eram estudantes na época e, em ocasião de férias, frequentavam a farmácia, que era o ponto de reunião, da prosa. Um dia, a farmácia estava cheia de moços alegres, estudantes, brincalhões, quando entrou lá duas pretinhas: uma mais nova, zarolha, na frente; e a outra mais velha, atrás. A da frente se encaminhou para o Raimundo [Leite Praça] e falou: — O senhore, ainda que mal se pergunte, é o senhore Raimundinho? Ele falou: — Sim, senhora. — Essa mulhere qué conversá com o senhore. Virou-se para a outra: — Conversa, mãe, prá nois ir rompendo. A mulher chegou e falou: — O senhore podia me arranjar aquele muito de unguento de untar pescoço. A mulher era papuda [decorrente do bócio]. Aí, quando ela terminou de falar, a rapaziada não aguentou e deu aquela gargalhada. Esse caso ficou célebre lá na farmácia.

6- O outro caso é trágico: um dia, eu estava sozinho lá na farmácia; eram umas seis horas da tarde. Eu estava na porta. Nisso chegou um moço, um jovem de uma família conhecida e me perguntou: ― O senhor tem aí cianureto de potássio? Falei: ― Tenho não. Ele saiu. Daí a uma hora, aproximadamente, chega a notícia de que o fulano de tal tinha morrido. Tinha morrido de repente. Daí eu deduzi que ele tinha comprado cianureto em outro lugar e havia se suicidado. Eu conhecia muito essa pessoa, e era de família conhecida. Foi um caso que me impressionou profundamente. Imagine se eu tivesse vendido. Mas, eu, toda vida, fui muito seguro nesse negócio e não vendia substância letal para ninguém. Muitas vezes eu perdia o cliente, mas não vendia mesmo! Prefiro não dizer o nome, por ser um caso de suicídio, isto é, o povo não ficou sabendo, eu é que fiquei, porque ele havia procurado isso [a substância química] na farmácia. A notícia foi de que ele morreu de repente, porque o cianureto é violento, mata rápido.6. Sr. Mário, mais alguma coisa sobre esse assunto, que gostaria de deixar registrado? — Eu queria deixar registrado aqui o pesar que eu tenho… que a cidade nunca homenageou a memória de um farmacêutico numa rua da cidade. Tem rua com o nome de todo o mundo, menos de um farmacêutico que tenha exercido a profissão aqui. Não tem rua nem com o nome de Quintiliano, nem com o nome de João José de Oliveira, nem com o nome de Arlindo Moreira, nem com o de Boanerges Guimarães, nem Aristides Ribeiro − nenhum farmacêutico! De maneira que isso é lamentável. Os vereadores têm homenageado todo o mundo, menos os farmacêuticos, que exerceram [a profissão] condignamente e prestaram serviços à cidade tempos atrás. Eu lamento muito.

7. O senhor é tão respeitado… Já tentou isso com a Câmara? — Já; e já escrevi um artigo no jornal sobre esse assunto, mas não deu o menor resultado.

8. Quando o senhor começou a se interessar pela pesquisa histórica da cidade? — Olha, eu tenho um pesar muito grande de não ter começado há mais tempo, porque eu perdi muita coisa, muita informação que eu poderia ter colhido com pessoas mais idosas e que já morreram. Perdi muito documento, que eu não guardei, pois não tinha interesse. De maneira que eu tenho um pesar muito grande de não ter começado há mais tempo. Mas eu imagino que foi de aproximadamente uns vinte anos para cá que eu comecei a me interessar pela história da cidade [na década de 1970]. Parece-me que a primeira coisa que me chamou a atenção foi quando o doutor Ives [Soares da Cunha] derrubou aquela velha casa, que foi do doutor Pedro [Nestor de Salles e Silva], ali na Praça da Matriz, para erguer aquele prédio que está lá, Edifício Pedro Nestor. Naquela ocasião, eu conhecia muito bem a casa e escrevi uma crônica sobre ela, que nunca foi publicada. Eu escrevi essa crônica e mandei para a Anita Salles [filha do doutor Pedro Nestor]. Ela gostou muito, ficou muito emocionada, e eu guardei. Não publiquei, porque eu achei que a mocidade de hoje não conheceu aquilo que eu escrevi lá. De maneira que interessa aos antigos o que foi aquela casa, o que ela representou para a sociedade do Pará, porque aquilo ali foi uma espécie de clube da cidade. Daí prá cá, foi um sucesso essa crônica, várias pessoas gostaram, e então me despertou o interesse de fazer pesquisas sobre as coisas do Pará. Depois eu comecei a pesquisar o Hospital. Fiz um levantamento que me deu muito trabalho; foram mais de dez anos para fazer essa pesquisa. Custei a conseguir os documentos todos e daí comecei a escrever sobre diversos assuntos: sobre a velha Matriz, sobre os patronos das ruas da cidade, sobre os cinemas, as agências bancárias… comecei a me interessar, então, sobre as coisas do Pará. Tenho aí um acervo grande e interessante, mas poderia ter muito mais coisa, se tivesse me interessado há mais tempo.

9. Sr. Mário, a sua educação influenciou no seu interesse pela pesquisa histórica? — O meu pai foi um homem da sociedade, e ele era muito social. Ele frequentava as [ residências das] pessoas mais proeminentes e tinha muito bom relacionamento. Participou de tudo que havia aqui no Pará: fundação do Ramal [ferroviário], fundação do Centro Literário, do Hospital… Ele participou de tudo. E a gente foi criado naquele ambiente… Meu pai estava sempre ligado a tudo da cidade. [Com] Esse lado do meu pai, Silvino Antônio da Silva, que em tudo ele tomava parte, a gente estava mais ou menos entrosado. E meu pai, então, guardava… por exemplo: ele tinha uma coleção de postais antigos da cidade, que eu tenho até hoje; ele tinha jornais, como aquele sobre a estrada de ferro, que eu levei lá [no Museu]. Ele guardava essas coisas mais interessantes. De maneira que eu recebi isso de herança de meu pai, que sempre se interessou pelas coisas da cidade.

10. Há algum assunto que desperte mais sua atenção, que o senhor acha mais apaixonante, dentro da pesquisa histórica? — O que me deu mais trabalho foi justamente a [pesquisa] do Hospital. Os primeiros cem anos do Hospital [Nossa Senhora da Conceição] foi o que me deu mais trabalho, porque eu pesquisei mais. Além do Hospital, foi a velha Matriz [Nossa Senhora da Piedade], que foi um lugar onde passei grande parte da minha infância. Eu estava lá na igreja, porque minha avó morava ao lado e eu frequentava muito a casa [dela] e, com isso, eu frequentava muito a igreja. [Em] Tudo que havia na igreja, eu estava lá. O bispo vai chegar, estavam preparando a igreja… eu estava lá, assistindo àquilo. Estavam reformando a igreja, eu estava lá, assistindo… De maneira que eu acompanhei aquilo tudo e me interessei, escrevi e ofereci ao Museu.

11. Sr. Mário, a pesquisa sobre o Hospital já foi publicada? — Não, por falta de verba. O provedor do Hospital na época do seu centenário, o José Júlio [de Faria], irmão do antigo prefeito, interessou-se muito pelo meu trabalho e tentou conseguir a publicação junto à Imprensa Oficial, mas não conseguiu. De maneira que o trabalho está guardado, mas não foi publicado.

12. Sobre a parte cultural da cidade, o senhor poderia nos falar? — Sobre a parte cultural da cidade, quem começou o trabalho aqui foi o doutor Cândido [Cândido José Coutinho da Fonseca], o primeiro médico da cidade. Ele fundou o Clube Dramático. Esse Clube Dramático, eu não consegui obter nenhum documento sobre ele. Eu tenho um trabalho sobre o teatro amador da cidade, e sua família teve uma parte muito saliente nisso. Eu peguei informações com o Zé Campos [José Campos de Almeida], seu tio, mas, quem iniciou isso aqui foi o doutor Cândido. Mas eu não consegui nenhum documento nesse sentido, só tradição oral. Ele foi o primeiro que iniciou. Depois dele, foi o doutor Pedro Nestor [de Salles e Silva], que fundou o Centro Literário, que hoje se transformou em um clube, mas a ideia inicial não era de clube, era de um centro cultural, um centro literário! Ele começou aquilo ali com uma biblioteca, e ali era um ponto de reunião, um centro cultural. Além desses dois, o antigo Externato Municipal — que prestou bons serviços à cidade naquele tempo, embora tenha durado muito pouco porque os professores se dispersaram — prestou relevantes serviços à cidade no final do século passado [século XIX]. Esses foram os movimentos [culturais] mais primitivos aqui. Depois disso, foi o Grupo Escolar Torquato de Almeida, que na época era a mesma coisa de uma universidade. Um grupo escolar em 1914, no Pará daquele tempo, era a mesma coisa de uma universidade! Também o ensino primário naquele tempo era melhor, não tem dúvida que era! Uma professora como dona Alice Andrade preparava o aluno, como hoje é o quarto ano do ginásio. Ela era uma professora de grande gabarito. O curso primário era bom mesmo!

13. No ensino o senhor também atuou. Trabalhou com o professor Pereira da Costa? — Trabalhei com o Sr. Martin [Martin Cyprien], que também foi um grande professor, com o Ginásio São Geraldo, que na época prestou relevantes serviços. Naquela época, nessa redondeza, não havia ginásio. Ginásio era só em Belo Horizonte e em São João del Rei, não havia outro ginásio aqui. De maneira que os moços daqui, aqueles cujos pais queriam interná-los em Belo Horizonte ou São João del Rei, estudavam. Aqueles cujos pais não tinham recursos para pagar um internato, não estudavam. Então, o Sr. Martin veio, trazido pelo Júlio Melo Franco, que era Presidente da Câmara [e Agente Executivo] da época. E eu colaborei com esse ginásio, de 1934 até 1941. Colaborei como professor de Química. Na minha colaboração, eu acho que tive algum valor. Um professor de Química não é fácil se conseguir numa cidade do interior. Mesmo hoje não é fácil, naquele tempo, muito mais [difícil]! De maneira que eu fiz a minha parcela de colaboração.

14. O senhor, com 84 anos, passou por diversas administrações da nossa cidade. O senhor se lembra delas? Poderia falar um pouco de cada uma? — Gostaria de falar que, mesmo antes de entender por gente, eu sei que as administrações anteriores fizeram coisas aqui que merecem ser mencionadas. Por exemplo: Major Fidélis fez a iluminação da cidade a lampião de querosene. Naquela época foi o que ele conseguiu fazer. Teófilo José Marinho, administrador municipal que fez aqui uma coisa muito importante, que foi instalar o Externato Municipal, que prestou relevantes serviços à cidade com os seus professores: Padre José Pereira Coelho, professor de Matemática; Padre José Emídio Marinho, professor de Português e Francês; Augusto Moreira, professor de Música. O Externato tinha também uma banda de música. O doutor Antônio Benedito Valadares Ribeiro, que foi administrador municipal, também fez aqui uma coisa muito importante: dotou a cidade do primeiro serviço de água potável canalizada, a da Grota das Vassouras, e construiu o primeiro reservatório de água da cidade.

15. Onde era esse reservatório? — Na Praça Rio Branco. O prédio ainda existe. Lá, hoje, é sede de um clube… que a Prefeitura doou para eles [os membros do clube].

16. O clube seria qual? Um clube de carnaval? — É. O prédio está lá até hoje.

17. Seria a Escola de Samba Unidos do Morro? — É um clube de carnaval… [Diante dessa afirmação de Mário Silva, completei: “Ah!… então é “, pois é a única entidade sediada no local mencionado].

18. Vamos continuar com as administrações municipais. — Depois desse [ Dr. Antônio Benedito], veio Fernando Otávio [da Cunha Xavier]. Fernando Otávio foi um administrador notável! Administrador municipal de 1906 a 1912. Ele foi um pioneiro. Ele nivelou a Praça Afonso Pena, nivelou a Praça Padre José Pereira Coelho e nivelou a Rua Benedito Valadares, que eram todas em plano inclinado. Um dia desses, vi uma fotografia antiga da cidade que mostra perfeitamente o barranco que tinha em frente à antiga casa do Padre Silvestre [Pereira Coelho]. Além disso, Fernando Otávio foi o primeiro administrador que cuidou da arborização da cidade. Eu ainda conheci as árvores plantadas por ele. Ele lutou muito para a criação de um grupo escolar para a cidade. Não conseguiu, mas ele lutou muito! Chegou a oferecer o prédio da municipalidade para nele ser instalado um grupo escolar na cidade! Chegou a esse ponto! De maneira que foi um grande administrador municipal. Além disso, dotou a cidade de luz elétrica. Foi ele quem fez o primeiro serviço de eletricidade na cidade, construindo a Usina do Jatobá com empréstimo do Estado. Depois dele veio Torquato de Almeida. Administrou o município de 1912 a 1922. Fez uma administração notável! Fez aqui muita coisa. Ele construiu nova subestação de distribuidora, reformou a instalação elétrica da cidade, fez nova captação d’água, ampliou a captação de água antiga e fez vários melhoramentos na cidade, como administrador municipal. Ele fez uma reforma no prédio da Câmara Municipal, que era a Prefeitura antiga. Aquele prédio, que foi demolido há pouco, foi construído por ele, além das coisas que ele conseguiu com o governo estadual. Depois veio o doutor Milton. Dr. Aristides Milton foi administrador da cidade de 1922 a 1926. Ele fez muita coisa também. Foi ele quem colocou os meios-fios no centro da cidade; dotou-a do primeiro serviço telefônico urbano, 50 aparelhos só, mas naquele tempo a cidade era pequena. Iniciou a construção de rodovias. Ligou o Pará a São José da Varginha e até a Pequi, quer dizer, fez um convênio com a Prefeitura de Pequi. Ele levou a estrada até a divisa do município e ali fez a ligação. O Pará ficou ligado a Ascensão, São José da Varginha e Pequi. Por outro lado, ligou a cidade até o Leprosário, ficando o Pará, praticamente, ligado a Belo Horizonte por estrada de terra.

19. Seria a estrada de Tavares? — É… mais ou menos essa. Essa foi feita pelo Benedito [Valadares]. Deve ter sido aproveitada… Aproveitou um pouco. Naquele tempo não havia ponte sobre o Rio Paraopeba. As primeiras jardineiras, daqui para Belo Horizonte, atravessavam o Rio Paraopeba dentro de barcas. Eu me lembro de ter feito uma viagem nessas condições. Dr. Milton fez muita coisa. Então: telefones urbanos, meios-fios, rodovias… é muita coisa!

20. Continuando as administrações municipais… — Depois veio o Tenente Júlio. Ten. Júlio [Melo Franco] administrou o município de 1926 a 1930. Ele se notabilizou porque instalou aqui no Pará o primeiro ginásio da cidade. Foi o Ginásio Municipal São Geraldo. Trouxe para cá o professor Martin [Cyprien] e fez um contrato com ele, instalando aqui o Ginásio São Geraldo. De maneira que a cidade fica devendo ao Ten. Júlio esse Ginásio, que prestou serviços inestimáveis à cidade. Não só à cidade, mas também à região. Naquele tempo não havia ginásio por aí. Ao Ten. Júlio sucedeu Benedito Valadares, 1930 a 1933. Benedito Valadares foi prefeito aproximadamente por três anos. Ele fez várias coisas. Foi o Benedito que fez o primeiro jardim da Praça Padre José Pereira [Coelho] e, com relação ao jardim, eu volto atrás, eu me esqueci de dizer que foi o Torquato que iniciou aquele jardim na Praça da Estação, e o Dr. Milton concluiu. O Torquato construiu o primeiro coreto lá, que foi demolido. O Benedito, então, fez o jardim da Praça Padre José Pereira e fez vários melhoramentos na cidade. Depois foi sucedido pelo irmão, Francisco Valadares Ribeiro. Conhecido na cidade como Chiquinho Valadares, esteve na Prefeitura de 1933 a 1945. Durante todo o período em que o Benedito foi governador, ele esteve como prefeito, mas quem fazia as obras era o Estado. O Estado é quem fazia muitas obras aqui e dava o nome à Prefeitura, mas as obras eram feitas pelo Estado. Mas o que tenho certeza de quem colaborou muito para o desenvolvimento da cidade, no tempo do Benedito Valadares, foi o engenheiro José Guimarães. José Guimarães tinha muito prestígio no Palácio da Liberdade; diziam que ele mandava e desmandava. Benedito tinha inteira confiança nele, dava toda a autonomia. De maneira que o que ele pôde fazer pelo Pará naquele tempo, ele fez! O nome dele não aparecia, porque era o Estado ou a Prefeitura que estava fazendo, mas tudo era orientado pelo Zé Guimarães.

21. Ele era funcionário da Prefeitura? — Não, do Estado. Era engenheiro do Estado. De maneira que ele fez muita coisa. O Chiquinho Valadares não era um homem muito dinâmico. Poderia ter conseguido muito mais, mas ele achava que aquilo que o Estado estava dando era muito. De fato, ele poderia ter conseguido muito mais. Dotou a cidade de um novo matadouro, um novo cemitério e fez várias obras na cidade. O cemitério velho não foi abandonado, ficava à vontade das famílias. Por exemplo, meu pai preferiu que minha mãe fosse enterrada no cemitério velho e, mais tarde, fizemos a transladação dos restos mortais para o novo, na época em que o Walter [Martins Ferreira] era prefeito e o cemitério velho foi demolido. Uma coincidência muito curiosa é quem inaugurou o cemitério novo: foi a dona Antônia Valadares, mãe do Chiquinho Valadares. Ela foi a primeira pessoa sepultada lá, isso, em setembro de 1942.

22. Sr. Mário, falando em dona Antônia Valadares, lembrei-me do marido dela, o Cel. Domingos Justino. Ele morreu muito cedo ou não teve grande participação política no município? Falam mais nela… por quê? — Porque ela ficou viúva muito cedo. Ele foi administrador aqui, do município, durante muito tempo. Morreu muito cedo e deixou para ela o encargo. Ela ficou viúva moça. Ele foi casado duas vezes. Ele foi casado com duas irmãs. Primeiramente, com a irmã dela. Filhos do primeiro casamento do Cel. Domingos Justino: Dr. Antônio Benedito Valadares Ribeiro [foi presidente da Câmara e agente executivo, de 1901 a 1905] e dona Benedita Valadares Ribeiro, casada e residente em Mateus Leme. Depois, ele ficou viúvo e se casou com dona Antônia. De maneira que acredito que ele tenha morrido praticamente cedo; e ela ficou viúva muitos anos. Ela quem criou os filhos. Ele foi vereador e presidente da Câmara aqui no Pará [1866 a 1869], e tem uma rua com o nome dele. É a rua onde você mora. Depois de Chiquinho Valadares, nós tivemos vários prefeitos: José Xavier de Melo, José Vicente Marinho, Carmério Moreira dos Santos, doutor Geraldo [Ferreira de Oliveira] e, depois, o primeiro prefeito eleito, o Padre Viegas [Padre José Viegas da Fonseca]. O Padre Viegas foi um prefeito iluminado! Foi ele quem fez o serviço de tratamento de água potável. A água era muito ruim, água suja. Foi ele que construiu aquele serviço de tratamento d’água [prédio popularmente denominado “Filtro”, localizado atrás da sede da Copasa, onde se fazia o serviço mencionado]. Ele fez o Bairro das Graças [Nossa Senhora das Graças]. Ele construiu o bairro, ele ampliou muito a área calçada da cidade. Fez uma administração muito boa. Foi um prefeito iluminado! Depois dele foi o José Vicente Marinho. Prefeito muito atuante. Obras marcantes. Duas coisas que eu me lembro dele. A planta cadastral foi obra dele; foi ele que conseguiu isso, a cidade não tinha planta cadastral. E ele fez um serviço aqui, de que ninguém se lembra, mas que eu acho muito importante, foi a interligação dos bairros. Os bairros não eram interligados. Para ir a um bairro, tinha que vir na cidade. Ele fez a passagem da Vila Operária para a Tabatinga, sem vir para a cidade [na Rua Lourenço José, como nos esclareceu Luiz David]. Passagem da Rua Boa Vista, hoje Rua Cel. Domingos [Justino], lá no “Lava Pé” [nas imediações da sede dos Alcoólicos Anônimos, onde havia um “buracão”, como também nos informou Luiz David]. Só falta ligar o Bairro Dom Bosco com o Bairro São Luiz. Portanto, ele fez a interligação dos bairros, a planta cadastral e ampliou o prédio da Prefeitura.

23. Sr. Mário, quanto à ampliação do prédio da Prefeitura, trata-se daquele prédio antigo? Em qual administração ele foi feito? — Torquato de Almeida foi o administrador que o fez. Ele demoliu um antigo que existia. Ele demoliu, sim, e construiu aquele prédio que nós conhecemos, o que José Porfírio [de Oliveira] demoliu. Aliás, não devia ter demolido, devia ter conservado. O Torquato foi quem construiu aquele prédio, e o José Vicente Marinho o ampliou. Ampliou lá para o fundo. Foi no tempo do Chiquinho Valadares que construíram aqueles barracões lá no fundo, para servir de almoxarifado e oficinas, etc.José Vicente Marinho ampliou o prédio, mas ele foi construído pelo Torquato; aquela frente bonitinha que ele tinha, de que você deve se lembrar, não é?Depois do José Vicente Marinho veio o doutor Osvaldo Lage, que foi um prefeito muito dinâmico, muito inteligente, muito correto. Trabalhou muito pela cidade. Ele ampliou o serviço de água, ele fez o Bairro São Francisco.24. E do de Fátima, o senhor se lembra? — Aquele Bairro de Fátima foi uma iniciativa particular, foi o Lito [Júlio de Melo]. Ele quem fez aquilo ali, antiga fazenda do pai dele. De maneira que aquele foi um loteamento particular, assim como esse Bairro São José, que o povo chama de Automóvel Clube. Foram iniciativas particulares. Depois vem o doutor Edward [Moreira Xavier]. Foi ele quem comandou as comemorações do Centenário. Falam Centenário da Cidade, mas não é. É Centenário do Município porque, primeiramente, nós tivemos a Vila, que era um município independente. Depois vem o Walter [Martins Ferreira]. Na primeira administração, ele fez muita coisa. Conseguiu trazer para cá a Cemig [Centrais Elétricas de Minas Gerais], que foi uma coisa importante para o desenvolvimento da cidade. A cidade estava numa situação crítica de falta de eletricidade, e ele trouxe a Cemig para cá. Conseguiu isso com a ajuda de pessoas de prestígio como o professor Mello Cançado [Antônio Augusto de Mello Cançado]. Além da Cemig, ele conseguiu, com o governo federal e o governo estadual, três pontes. Duas da Avenida [Presidente Vargas] e uma da Rua Raimundo Menezes. Aquilo ali deu um desenvolvimento naquele lado da cidade, que foi uma coisa admirável! Foi depois da construção daquelas pontes. E o Walter… É preciso que a gente dê a ele o valor que ele tem, porque ele conseguiu demolir o cemitério velho, enfrentando a opinião pública. Porque um prefeito, pra fazer uma obra daquela, tem que ter coragem e enfrentar a opinião pública! O povo era contra a demolição, mas isso era uma coisa que tinha que ser feita dada a situação que se encontrava. Situação horrível no centro da cidade. Coisas horrorosas que estavam acontecendo lá, que a vizinhança contava. Encontros clandestinos, lá dentro do cemitério! Uma ocasião, minhas irmãs estavam indo visitar o túmulo do meu pai, e um vizinho avisou: “Vocês não entrem dentro do cemitério, não. Isso aí está uma coisa horrorosa!” De maneira que o Walter fez esse grande benefício para a cidade. Um serviço importante, difícil, creio que caro. Demolir paredões, tirar aquelas terras de lá… Ele enfrentou e fez. E hoje todo o mundo bate palmas por esse trabalho dele. Bom… depois veio o Zé Porfírio [José Porfírio de Oliveira]. Na primeira administração, ele fez muita coisa! O povo esquece, mas ele fez muitos prédios escolares na cidade, como o “Jarbas Passarinho” e outros. Ele ampliou demais a área calçada! Pegou o calçamento aqui [estica o braço na direção da Rua Fernando Otávio], na porta do Benvindo Barbosa, e levou lá na Cidade Ozanan. Foi ele. Isso aí não tinha nada. E o mesmo ele fez na Várzea da Posse, levou até lá no alto-forno e na cidade toda! Ele trabalhou muito, fez muita coisa. Depois, não sei se foi nessa administração que ele construiu a Estação Rodoviária e a cidade ganhou a BR-262, que foi um grande melhoramento. Esse melhoramento, eu acredito que o Pará não deve a ninguém. Deve à sua posição geográfica. A estrada tinha que passar aqui mesmo, e o que nos valeu foi o Ovídio de Abreu na secretaria da Fazenda, que conseguiu o asfaltamento da entrada, que tomou o nome de Avenida Ovídio de Abreu. Tenho que falar sobre a do Zé Gentil [José Gentil de Almeida]. Ele fez uma coisa aqui, que muita gente fala e censura, mas que ele tinha que fazer. O Padre Hugo [Padre Gabriel Hugo da Costa Bittencourt] pediu a ele que demolisse a Matriz. E ele demoliu. Essa demolição poderia ter sido feita de uma outra maneira, aproveitando peças artísticas que a igreja tinha. Eu costumo dizer que ela não foi demolida, ela foi destruída! Mas, de qualquer maneira, era uma coisa que tinha de ser feita porque as paredes estavam fora do prumo, conforme foi constatado. Muita gente censura, mas é uma coisa que não tinha jeito, tinha que fazer mesmo. E ele fez esse trabalho. Trabalho penoso que a Prefeitura fez. E a Prefeitura comprou o terreno da paróquia para construir aquele jardim. O jardim não foi construído por ele, não, foi construído pelo Walter [Martins Ferreira] na outra administração [em 1975], mas, de qualquer maneira, ele tirou todo o material da praça, ele limpou a praça.Depois foi o Antônio Júlio [de Faria]. Ele mexeu na cidade inteirinha! [Em] Tudo, ele mexeu! Uma vereadora aqui, que falou que ele não fez nada… fiquei até com raiva, porque o moço mexeu na cidade toda! Você vê a iluminação. Ele modificou a iluminação da cidade. Você vê aí a construção da Avenida Getúlio Vargas. O Benedito [Valadares] construiu 1,5 quilômetros da avenida. Ele construiu até quatro. A avenida tem quatro quilômetros hoje. Conseguiu com o Estado o seu asfaltamento. Essa Avenida Professor Mello Cançado estava começada desde o tempo do Walter [Martins Ferreira]. Cada prefeito fez um pedacinho. Ele terminou a canalização do córrego e conseguiu com o Estado o serviço de aterro e asfaltamento. Uma obra importante. E, depois, ele iluminou a Avenida Presidente Vargas toda! Iluminação especial. Iluminou essa Avenida Prof. Mello Cançado toda! Iluminação especial. Fez muita coisa. Ele abriu aquela Rua Abaeté e ligou-[a] à Rua Dr. Higino. Ele fez uma ligação da Rua Dr. Higino com a Avenida Brasil, passando em frente ao ribeirão, e fez uma obra importante, que foi a canalização do ribeirão [Paciência]. Tem defeito, porque aquelas pontes ficaram muito baixas. Em ocasião de enchentes é aquilo, dá problema, mas, de qualquer maneira, é uma obra importante que ele fez. Abriu aquela avenida lá, ligando a antiga Ponte Grande até a Rua Raimundo Menezes. Fez várias pontes. De maneira que ele fez uma administração brilhante! Agora, o serviço na zona rural, que ele fez, eu não conheço bem porque não tenho carro, não ando por aí, mas sei que ele trabalhou muito na zona rural também. E, principalmente nessas sedes dos distritos, ele fez muita coisa. Antônio Júlio esteve na Prefeitura seis anos [1983 a1988], mas ele trabalhou mesmo! Ele fez muita coisa. Percebi o cansaço estampar-se nas feições do depoente, advindo não somente das horas que passamos gravando, mas também da fragilidade que acomete a todos com a passagem dos anos. Mário Luiz Silva, circunspecto, tímido, hábitos metódicos, caráter ilibado, dono de uma memória privilegiada, nunca possuiu vínculos com alguma corrente política. Já havia completado 84 anos e assistido ao desempenho de grande parte das administrações municipais. Seu depoimento adquiria uma aura de importância imensurável, pois era revestido da isenção que a História — ciência — busca para a sua escrita. Ao mesmo tempo, era imbuído da subjetividade, inerente ao testemunho de quem vivencia os fatos, que concorreria para uma nova historiografia do Pará [de Minas]. Constituía-se, portanto, em uma preciosa fonte a ser utilizada no círculo do saber científico da História. Após essas divagações, invadiu-me a certeza de que eu me tornara, agora, testemunha da história humanizada que eu vivenciava por meio da memória de Mário Luiz Silva. Um privilégio! Assim pensando, para encerrar nossa conversa, indaguei:25. Sr. Mário, dentre as administrações pelas quais o senhor passou, apontaria a mais dinâmica, ou acha que todas elas o foram, fazendo a devida relação com a época?  Bom, não tem dúvida nenhuma de que uns prefeitos são mais dinâmicos do que outros. São mais trabalhadores, mais dinâmicos. Mas também tem que considerar que uns tiveram mais oportunidades do que outros. Isso não tem dúvida, não é?O Chiquinho Valadares, por exemplo, teve ajuda do Estado. Muita coisa foi feita aqui com a ajuda do Estado. O Osvaldo Lage, por exemplo, foi muito rigoroso em matéria de executar a legislação municipal. Com isso, ele desagradou a algumas pessoas, mas foi um administrador brilhante! Dr. Edward [Moreira Xavier], talvez tenha feito menos coisas, foi mais acomodado, mas tudo de acordo com o temperamento dele. Ele não quis abandonar a medicina, então ficou conciliando uma coisa e outra e talvez tenha feito uma administração menos dinâmica. Mas, tudo de acordo com a época e de acordo com a situação, de acordo com a renda da Prefeitura na época. Mas eu admiro muito a primeira administração do Walter [Martins Ferreira], a primeira administração do José Porfírio [de Oliveira] e a administração do Antônio Júlio [de Faria]. Eu acho que, dessas administrações mais modernas, mais recentes, foram as que mais trabalharam. Concluída a resposta, deixei o microfone aberto, comunicando-lhe que, se quisesse, poderia deixar registrado outro tema, talvez não abordado. Após os agradecimentos de praxe, ele falou:  Quero dizer aqui a minha colaboração para a cidade. Nunca participei de cargo político, porque não tenho vocação para a política, mas eu ajudei a cidade no que eu pude. Por exemplo, como professor quando, na época, não havia outro. De maneira que colaborei com a cidade, como professor de Química, ajudando aí nesses estabelecimentos, nas épocas difíceis em que eles não tinham professor dessa matéria que precisava ser lecionada. De maneira que eu colaborei com a cidade nesse setor. E continuou:  Colaborei também ajudando a Sociedade de São Vicente, porque fiz parte do Dispensário Padre Silvestre durante muito tempo. Tenho colaborado também, fazendo parte da administração do Hospital [N. S.ª da Conceição]. É essa colaboração que eu tenho dado à cidade, no que eu posso, além da minha profissão, que eu sempre procurei cumprir com fidelidade as obrigações que ela me dá. Dizendo “O meu muito obrigado a todos”, o professor Mário encerrou sua fala.

Eu o agradeci por esse registro da história oral, o primeiro que fazíamos para o acervo do Museu. Agradeci também pela imensa colaboração que nos prestava, quando o procurávamos para diluir dúvidas históricas sobre Pará de Minas. Na verdade, ele havia se transformado em nosso consultor. Aprendi muito com ele. Foi meu mestre. Mário Silva angariou não somente a minha amizade e admiração, mas a minha eterna gratidão. Agradeci mais uma vez a doação de suas pesquisas para o acervo do Museu Histórico de Pará de Minas, enaltecendo o seu gesto desprendido e de grandioso alcance. Trata-se de inúmeros textos de sua autoria sobre diversas personalidades que atuaram em Pará de Minas e que, pela importância, não podem ficar esquecidas; textos sobre entidades, áreas da cidade, entre outros que também foram temas de suas pesquisas, além dos trabalhos sobre o Hospital N. S.ª da Conceição e sobre a velha Matriz N. S.ª da Piedade. É… é isso mesmo! Muito antes da publicação dos livros sobre o Hospital e sobre a Matriz, eles já me eram familiares, inclusive eu os integrava à bibliografia que utilizava. Falta ainda mencionar as fotos raras que o professor Mário também doou àquela casa de memória. Gestos exemplares, que bem traduzem a nobreza do seu coração e o imenso amor que ele dedicou a Pará de Minas! Tempos depois, Mário Luiz Silva teve a satisfação de ver alguns farmacêuticos que aqui trabalharam sendo homenageados pela Câmara e Prefeitura, quando esses órgãos passaram a denominar algumas ruas da cidade com nomes desses profissionais, como o professor tanto desejava. Viu também acontecer a ligação dos Bairros Dom Bosco e São Luís — que ele mencionou que faltava fazer — com a construção da ponte, que o povo logo chamou de “Ponte da Amizade”. Mário Silva teve suas pesquisas sobre o Hospital Nossa Senhora da Conceição e sobre a velha Matriz Nossa Senhora da Piedade publicadas. Aquela em 1993, comandada pela Secretaria Municipal da Cultura, e esta, em 1998, pela Academia de Letras de Pará de Minas. Ao longo de sua útil existência, o farmacêutico, professor, pesquisador e escritor Mário Luiz Silva foi personificando valioso patrimônio histórico de Pará de Minas. Conquistou a imorredoura gratidão de seus conterrâneos e, com certeza, dos que lhe sucederam. Mário Silva partiu com sua prodigiosa memória e conhecimento para outra dimensão em 23 de abril de 2000. Estava com 94 anos. Não morreu, ainda vive através do legado de sua vida produtiva e exemplar. Vive através da produção historiográfica que nos deixou. Eu, que convivo com os trabalhos dele diariamente e com as lembranças de tudo que ele me contou, sou uma das testemunhas da permanência dele entre nós. Em 14.11.2008*

Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora, técnica em Museologia, foi Diretora do Museu Histórico de Pará de Minas e Secretária Municipal de Cultura. Aposentou-se em 2021 após quarenta anos de relevantes serviços prestados à municipalidade.

Luiz David

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