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POLÍTICOS CANIBAIS

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César Julião de Sales foi o mais famoso famoso político da cidade mineira de Pedro Leopoldo, que integra a região metropolitana de Belo Horizonte. Cecé, como era conhecido, foi prefeito do município em três oportunidades. Jamais perdeu uma eleição. Perguntado certa vez qual o segredo de tanto sucesso, Cecé respondeu candidamente ao repórter que formulara a pergunta:- Não fazer o sucessor, esse é o meu segredo. E mais não disse. Nem precisava.

Em Minas é assim. Presidente, governador e prefeito não gostam de fazer o próprio sucessor. Entenda-se por fazer no sentido de ajudar a eleger, empenhar-se na eleição do correligionário. Em Minas isto só acontece quando o titular está saindo de cena por aposentadoria ou por falta de apoio popular e político. Todos que sentam na cadeira de executivo, sonham em permanecer nela até o fim de seus dias. Conta-se que Benedito Valadares no dia mesmo de sua posse como governador de Minas, à noite, após a recepção oferecida ao mundo oficial, antes de se deitar, teria dado alguns tapinhas na parede da suite governamental enquanto dizia à esposa Odete: – daqui só saio morto, Odete, morto. E nos doze anos seguintes (1933/1945) fez de tudo para manter-se no cargo, ao qual tentou voltar em algumas oportunidades. Mas a fila tinha andado.

O quase presidente da república Tancredo Neves dizia ter grande medo da solidão de uma cabine eleitoral, quando o eleitor fica a sós por alguns instantes tendo junto de si apenas a sua consciência, o que despertaria um grande desejo de trair. Em Minas esse desejo costuma ser mais latente, dizia Tancredo, com conhecimento de causa.
Tancredo não podia se queixar de falta de apoio popular, se nunca chegou a ser um fenômeno nas urnas, sempre obteve votações suficientes para elegê-lo aos cargos que disputou: vereador em São João Del Rei, deputado estadual (1946), deputado federal (1950) e nos anos 1960 e 1970, senador em 1978 e governador de Minas em 1982. Além de ser eleito presidente da república de forma indireta em 1985. Mas Tancredo sentiu o gosto amargo da traição em 1960, quando disputou a eleição para governador de Minas e perdeu para o banqueiro José de Magalhães Pinto. Uma dissidência dentro de seu próprio partido, o PSD, causou a derrota de Tancredo, fato que poucos ano depois se mostraria fatal para o Brasil e os brasileiros,quando o pais mergulhou numa ditadura militar que durou vinte e um anos (1964/1985). Por temer Tancredo governador, o inesquecível presidente Juscelino Kubitschek articulou toda a trama para derrotar o antigo companheiro de muitas lutas. Com Tancredo governador de Minas não teria acontecido o golpe militar de 1964. Magalhães Pinto governador foi o comandante civil do golpe.

Em 1960 JK estava concluindo o seu mandato presidencial de forma espetacular. Juscelino saía com o sentimento de deixar sua obra inacabada apesar de numerosas e revolucionárias realizações. Queria voltar em 1965, quando estavam previstas as eleições presidenciais seguintes, para concluir sua obra. Mas JK como bom mineiro não dava ponto sem nó. Primeiro, cuidou de seguir a máxima de não fazer o próprio sucessor, neste caso, o general também mineiro, Henrique Texeira Lott. Este havia sido o homem que garantiu a posse de Juscelino em 1955, quando a UDN de Carlos Lacerda, tentou anular a eleição de JK,vitorioso nas urnas. General Lott botou a tropa nas ruas do Rio, ainda a capital federal, e deu um golpe no golpe que se armava, garantindo a posse do candidato legitimamente eleito. Cinco anos depois, em 1960, Juscelino apoiou o lançamento do general pelo PSD em aliança com o PTB, mas, depois, durante a campanha, não se empenhou como podia ter se empenhado, para garantir a vitória de Lott. A maioria dos historiadores menciona mesmo o fato de JK ter deixado a presidência com altíssimos índices de aprovação e que do alto desses 70% de aprovação popular poderia ter feito mais pela candidatura oficial, enfim derrotada por Jânio Quadros, ex-governador paulista.

JK certamente temia no seu íntimo que, com o general Lott presidente, a sua próxima candidatura correria perigo, e o slogan JK 65 que já vinha sendo cantado em prosa e verso há muito tempo, perigava não se concretizar. Em Minas Juscelino fez pior, sem nenhum pudor. Quando pressentiu a possibilidade da vitória de Tancredo Neves, um dileto amigo e correligionário fiel, JK na surdina ordenou ao seu ministro da Fazenda, José Maria Alkimin, que pedisse demissão do cargo e viesse para Minas em caráter de urgência, para articular uma dissidência dentro do próprio PSD, de forma a tirar de Tancredo os votos que poderiam garantir-lhe a vitória. Juscelino temia que se Tancredo fosse eleito, o candidato natural a presidente seria ele, considerando que o governador de Minas, independentemente de quem seja, será sempre sempre um forte candidato presidencial. Alkimin, outro amigo de Tancredo, cumpriu fielmente as ordens do presidente JK. Articulou-se com o deputado José Ribeiro Pena, mineiro de Itapecerica, que topou encabeçar a chapa dissidente do PSD, que teve o próprio Alkimim como candidato a vice. Nas eleições, Tancredo Neves foi derrotado por Magalhães Pinto por menos de noventa e cinco mil votos, exatamente a votação obtida pela chapa dissidente Ribeiro Pena/Alkimin. Sem dúvida que Juscelino deve ter se sentido aliviado ao se livrar de um presidente que não desejava (general Lott) e de um amigo quase rival. Talvez JK tenha mesmo se alegrado, mas sorriu por pouco tempo. Em 1961, sete meses depois de empossado, Jânio renunciou inesperadamente ao mandato, abrindo caminho para que o regime parlamentarista se instalasse no país, tendo, por ironia do destino, um fortalecido Tancredo Neves como 1º Ministro. Menos de três anos depois, JK, que havia apoiado o golpe militar de 1964, teve cassado seu mandato de senador por Goiás e os direitos políticos suspensos por dez anos. Enquanto Tancredo além de preservar o mandato de deputado federal eleito em 1962, filiou-se ao MDB, partido de oposição, vindo a se tornar a voz mais respeitada das oposições nos vinte anos seguintes. Tancredo Neves foi um político diferenciado, jamais traiu seus ideais. Ministro da Justiça em 1954, foi fiel a Getúlio durante toda a crise política de 1954, acompanhando o falecido presidente até o túmulo em São Borja (RS). Quando o ditador Castelo Branco cassou o mandato de JK, o fiel Tancredo acompanhou o ex-presidente até a escada do avião que o levaria para o exílio, sendo o último a apertar as mãos do amigo na despedida.

Ainda sobre traições mineiras, talvez a mais célebre tenha ocorrido em 1950, quando o PSD nacional lançou candidato a presidente da república o mineiro Cristiano Machado, que foi solenemente ignorado pelos pessedistas mineiros que apoiaram a candidatura de Getúlio Vargas. Daí que surgiu o verbete “cristianizar”, que na prática significa retirar a escada e deixar a vítima segurando na brocha.

Em 1955, o mineiro e pessedista Carlos Luz, na condição de presidente da Câmara dos Deputados, assumiu a presidência da república (de 9 a 11 de novembro) durante a crise política criada pela UDN e, talvez na esperança de permanecer no cargo, aliou-se aos golpistas na tentativa de impedir a posse de Juscelino. Golpe interceptado pelo general Lott. O deputado Carlos Luz surgiu para a política no inicio da década de 1930 junto com Jk, também pelas mãos de Benedito Valadares.

Em 1949, quando se iniciaram as tratativas para a sucessão do presidente Eurico Dutra, um dos nomes fortes do PSD era o do deputado Ovídio de Abreu. Valadares, talvez enciumado, vetou solenemente o nome do companheiro e mais fiel amigo.

Em 1955, talvez ainda movido por ciúmes, Benedito Valadares, que era o presidente nacional do PSD, no inicio não ajudou muito a candidatura presidencial de JK, pelo contrário, ficou sugerindo nomes e mais nomes, até que Juscelino foi à luta praticamente só. Valadares só abraçou a causa do antigo pupilo quando já era fato consumado.

A DOCE VINGANÇA DE ITAMAR
Mais recentemente, Itamar Franco, preterido em 1982 quando cedeu a vaga a Tancredo Neves na disputa pelo governo de Minas, foi novamente escanteado em 1986 pelo MDB que indicou Newton Cardoso. Quis o destino que Itamar viesse a assumir a presidencia da república em 1992, quando foi cassado o presidente Fernando Collor de Mello. Em 1998 Itamar pretendeu disputar novamente a presidência, mas foi traído pela cúpula do PMDB, que o tinha atraído de volta ao partido com a garantia da legenda na disputa contra Fernando Henrique Cardoso. De certa forma, Itamar sentiu-se traído três vezes pelo (P) MDB. Mas em 1998, conformado, concorreu ao governo de Minas pelo mesmo partido que lhe fechara a porta a uma disputa presidencial. Itamar uniu o partido ao aceitar como companheiro de chapa o rival Newton Cardoso, com a condição de apoiá-lo em 2002. Tancredo Neves disse certa vez que Itamar Franco guardava rancor na geladeira. Pelo visto guardava mesmo, pois em 2002 Itamar não cumpriu o acordado e ainda por cima foi a Brasilia buscar Aécio Neves, obscuro deputado federal de quatro mandatos, mais presente nas colunas sociais do que nas notas políticas, ainda por cima do arquirrival PSDB para ser o candidato à sua sucessão. Aécio ganhou uma vez, foi reeleito em 2006 e ainda fez o sucessor em 2010. Itamar, eleito senador novamente em 2010, enfim sentiu-se vingado do MDB que ajudou a fundar em 1966.

PARÁ DE MINAS
Em 1982 a eleição foi através de voto vinculado. O eleitor devia votar em candidatos de um único partido para governador de estado, dois senadores, deputado federal, deputado estadual, prefeito e vereador. Sete cargos numa única eleição. Um erro e todo o voto seria anulado, pois estavam todos os cargos numa cédula única. Sem dúvida que o PMDB levava vantagem com Tancredo Neves encabeçando a chapa da oposição. Não sei se falou mais alto o antigo pessedismo do prefeito José Porfírio, um juscelinista apaixonado e admirador de Tancredo Neves, mas o fato é que uma declaração dele (Porfírio) repercutiu bastante: “se o voto não fosse vinculado eu votaria em Tancredo Neves para governador”. Certamente, ao sugerir o voto em Tancredo, o prefeito José Porfírio pode ter contribuído para que o candidato a prefeito que apoiava (engenheiro Milton Cunha) perdesse muitos votos. O que remete à possibilidade de que Porfírio não estava muito a fim de eleger o próprio sucessor.

Em 1986 o prefeito Antonio Júlio foi o único prefeito mineiro a se licenciar do cargo por quarenta dias, a fim de se dedicar integralmente à campanha de governador do doutor Newton Cardoso. Dois anos depois, em 1988, por ocasião das eleições municipais, a recíproca não foi verdadeira por parte do governador Newtão, que não teve nenhum problema em subir no palanque do candidato José Porfirio, que disputava um terceiro mandato contra Paulo Fonseca, do PMDB, entusiasticamente apoiado por Antonio Júlio, de quem era o vice.

A política é assim. Para quem tem estômago forte, afinal de contas os políticos vivem se engolindo um aos outros. Coisa de canibais. Daí o título da matéria. (LUIZ VIANA DAVID)

Luiz David

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